Planet Hemp na Fundição Progresso
Planet Hemp na Fundição Progresso

Em turnê comemorativa pelos seus 25 anos de carreira, o Planet Hemp se apresentou na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro, na última quinta-feira, 1º de Novembro, ainda com o resultado das eleições engasgado na garganta.

Apenas quatro dias após o segundo turno do mega polarizado processo eleitoral brasileiro em 2018, que elegeu Jair Bolsonaro (PSL) como Presidente da República, Marcelo D2, BNegão, Formigão (baixo), Bruno (guitarra) e Pedrinho (bateria) reuniram milhares de fãs no tradicional palco da Lapa e não pouparam críticas ao futuro comandante da nação.

Também sobrou para o futuro ministro da Justiça, Sérgio Moro, que teve uma imagem sua exibida no telão junto com a frase que ele disse uma vez em entrevista, declarando que “jamais entraria para a política”.

Após a a abertura contagiante e tranquila de Rincon Sapiência, um dos principais nomes do rap nacional na atualidade, o Planet Hemp entrou em cena pouco depois de 1h, quando a casa de shows já estava completamente abarrotada.

Antes disso, um vídeo foi exibido no telão com a seguinte mensagem: “Sai o vampiro (Michel Temer, do MDB), entra o demônio (Bolsonaro). A luta continua, diga não fascismo.” Foi suficiente para o público vir abaixo e gritar em uníssono “Ei, Bolsonaro, vai tomar no c..”, além do popularíssimo “Ele não”. Em seguida, apareceu uma contagem regressiva de 20 segundos, anunciando a entrada do grupo carioca.

A partir daí, a Fundição se transformou em uma grande celebração do rap rock e do hardcore, com uma sucessão de hits do Planet Hemp. O público agradeceu batendo muita cabeça e abrindo muitas rodas insanas no meio da plateia, sempre de forma pacífica e consciente.

Planet Hemp critica Sérgio Moro em show
Foto por Marcella Micelli

Para abrir a apresentação, a banda escolheu “Não Compre, Plante!”, do álbum de estreia, Usuário, lançado em 1995. Na sequência, D2 e BNegão outros clássicos do primeiro disco, como “Legalize Já”, “Fazendo a Cabeça”, “Dig Dig Dig (Hempa)”, “A Culpa é de Quem?”, “Futuro do País” e “Mary Jane”.

Já do segundo trabalho do Planet Hemp, Os Cães Ladram mas a Caravana não Para (1997), os fãs puderam conferir sucessos como “Queimando Tudo” e “Seus Amigos”. O último álbum do grupo, A Invasão do Sagaz Homem Fumaça (2000), apareceu no show com “Contexto”, “Quem tem Seda?”, “Ex-quadrilha da Fumaça” e “Raprockandrollpsicodeliahardcoreragga”.

Em determinado momento da apresentação, D2 e BNegão homenagearam a vereadora e militante dos direitos humanos brutalmente assassinada em março, Marielle Franco, e seu motorista, Anderson Gomes, mortos em um caso que até hoje não tem solução.

O coro de “Marielle, presente!” e “Anderson, presente” ecoou por toda a Fundição Progresso, arrepiando a todos. Chico Science, da Nação Zumbi, falecido em 1997, também ganhou menção durante a segunda metade do show, destacando a amizade entre o Planet Hemp e o grupo de manguebeat recifense.

Na reta final da apresentação, antes de “Mantenha o Respeito” e sob o grito de “Resistência, existência”, BNegão levantou a bandeira colorida, símbolo do movimento LGBT+, e disse: “Pela liberdade de existir”. A plateia corroborou as ideias do rapper. Logo depois, Marcelo D2 lembrou os primeiros anos do Planet Hemp. “Não sei se vocês sabem, mas a gente começou aqui na Lapa, lá nos anos 1990”, falou.

Vale destacar ainda a lembrança de D2 ao ex-integrante da banda Skunk, morto em 1994, vítima da epidemia de AIDS. Inclusive, está em cartaz nos cinemas brasileiros o filme de Gustavo Bonafé e Johnny Araújo Legalize Já – Amizade Nunca Morre, que fala sobre o início do Planet Hemp e a relação entre Marcelo D2 e Skunk.

D2 também lançou em Setembro o projeto transmídia “Amar é para os Fortes”, que inclui filme e álbum. Além disso, em Dezembro chegará às livrarias pela editora Belas-Letras a biografia “Planet Hemp: Mantenha o Respeito”, de Pedro Luna.

Ou seja, depois de uma participação engajada nas redes sociais ao longo das eleições, Marcelo D2 pode ter sido derrotado ideologicamente como muitos de nós, mas está com tudo na música, na telona e na literatura.