Criolo Sobre Viver
Créditos: Divulgação / Criolo

Não existe fã de rap que não tenha, no mínimo, enorme respeito por Kleber Cavalcante Gomes, ou como o conhecemos, Criolo. Um ícone de toda a música nacional, o MC tem caminhada de 30 anos no hip-hop, que começou ao pedir para cantar na escola e o levou ao topo da cadeia musical no país, principalmente com seu disco Nó Na Orelha (2011), considerado por muitos um dos melhores trabalhos brasileiros neste século.

Já mais de uma década após este, Criolo está de volta com um novo álbum. Sobre Viver é seu primeiro lançamento longo em cinco anos, e mostra o artista voltando a se aproximar do rap que o deu a notoriedade, após maior proximidade com MPB e samba em seus últimos trabalhos.

Na semana de lançamento do disco, o TMDQA! teve uma entrevista exclusiva com o artista, que falou sobre seus colaboradores, deu sua sempre afiada visão sobre a situação do país e também comentou um pouco sobre sua carreira, entre outros tópicos.

TMDQA! Entrevista: Criolo

Confira a conversa na íntegra logo abaixo.

TMDQA!: Boa tarde Criolo, satisfação total estar aqui, eu gostei muito do disco. Primeiramente, parabéns. Queria fazer uma pergunta que na verdade são duas, e você vai saber qual se encaixa melhor. Por que você sentiu que hoje, cinco anos depois do seu último disco, é o momento de você lançar um álbum? Ou, se for melhor, por que você ficou cinco anos sem lançar um disco?

Criolo: Esse tempo todo eu acho que eu não tive condição de fazer, não tive capacidade, e eu acho que eu nem escolhi que fosse assim. E esse disco só veio pro mundo porque é o que foi acontecendo. Antes da pandemia fiquei uns dois anos e meio assim sem virem os sentimentos, vinham as emoções mas não se traduziu em música, e eu nunca fui de forçar um bagulho. Até por vários momentos eu me questionei “será que é só isso? Será que acabou?”, e depois, aos poucos, as várias emoções que eu nunca deixei de sentir começaram a vir em letra e melodia, sabe? Vem o rolê todo junto.

A música veio bem devagarinho, no tempo dela, não era o meu tempo. Não estava nas minhas mãos, tá ligado?

TMDQA!: Não foi um disco nada planejado então, né? Foi um disco que saiu agora porque tinha que sair agora.

Criolo: É, aconteceu assim mano. Eu queria que fosse antes, cê tá doido? Mas acho que eu não tinha o que apresentar, ia ser coisa forçada, tipo tubo de laboratório.

TMDQA!: Esse álbum vem ligado aos seus trabalhos mais antigos, como “Nó Na Orelha” e “Convoque Seu Buda”. Como artista e como pessoa, o que há de diferente com o Criolo e o Kleber dos primeiros trabalhos?

Criolo: Acho que escola pra mim. Viver o Nó Na Orelha não foi só tecer aquele disco junto com o grande mestre Daniel Ganjaman e o mestre [Marcelo] Cabral. Eu e o Dandan tivemos que reaprender uma pá de coisa ou aprender do zero, como o que é estar com uma banda, o que que é essa energia desses corpos (dos músicos) no palco, cada um também visceral. Que até então a gente era solitário, só eu e ele, DJ e MC. Esse aprendizado teve continuidade com o “Convoque [Seu Buda]”. Acho que isso tudo é resultado desses mestres todos que passaram pela minha vida. Esses músicos todos que contribuíram sempre, nestes 30 anos, mas mais especificamente nos últimos doze anos, do Nó Na Orelha até aqui, e esse álbum é muito do que eu aprendi nesse tempo todo.

Música é um bagulho infinito, então o aprendizado é infinito também, tá ligado? Esses dois anos de pandemia, onde tudo parou de um jeito não saudável, não foi o mundo falando “vamos parar agora porque nós precisamos refletir”, o mundo parou de um jeito completamente longe do saudável, a gente parou por dor, por medo, por ver a desgraça no grau mais elevado. Muita gente não tinha percepção e na pandemia começou a sacar que o Brasil é desigual para caramba. Além de rasgar esse véu, a pandemia fortaleceu mais ainda essa desigualdade. E tudo isso que a gente foi vivendo, medo, insegurança, tudo isso contou.

TMDQA!: Você cita esses “mestres”. Quem são essas pessoas que são referências para você?

Criolo: Mestre da música e da vida, Daniel Ganjaman. Apesar de ser jovem, ele tem muita bagagem musical, ele tem o espírito da música. Ele é jovem, constrói o contemporâneo com respeito no passado e sabe o que vai vir no futuro. Isso é muito louco, tudo isso se junta nesse ser.

E aí tiveram todos os outros que vieram a partir dele. Marcelo Cabral, todas as pessoas que participaram da feitura do Nó Na Orelha, do Convoque, do Espiral de Ilusão e foram para a estrada com eles. Tive sempre a oportunidade de estar sempre com esses músicos maravilhosos. E também o pessoal da técnica, quem tá cuidando da montagem de palco tá te ensinando sobre música, o roadie, quem tá cuidando da afinação de instrumento, quem cuida do P.A, que é músico também, a última pessoa por quem passa o som antes de chegar para o povo, então tem que ter o tempero dele. O cara que cuida do retorno, que tem que equilibrar tudo para todo mundo. Você sempre vê alguém dando um comentário, uma dica, então estou sempre aprendendo.

E o rap, desde sempre, desde cantar na escola, na rua, um aprendizado que foi base fundamental para receber os outros aprendizados. Um não é mais ou menos que o outro, mas o rap é a base pra tudo, na minha pequena história, que tenho vivido. Esses tantos anos que fiquei na Rinha dos MCs, toda vez que estava conversando com alguém, toda vez que estava vendo um MC rimando, tudo isso é ensinamento. E o rap está aí, dando o suporte para aprender tudo isso.

TMDQA!: Você é um cara que nasceu no rap, mas nos últimos tempos saiu um pouco para buscar outras referências, principalmente no samba. Eu vejo este álbum (Sobre Viver) como seu álbum “mais rap” em muito tempo. Após isso tudo, como você vê o seu lugar na cena?

Criolo: Eu sinto que estou aprendendo com a cena. O rap é que nem um time, ele é tão generoso que não fala quem é titular ou reserva. Cada um tem um momento e ele faz um rodízio, se assim for pra ser. Ele não separa, ele não categoriza, não cria ranking. O rap é essa energia universal e a gente sempre a celebra.

Se todo mundo fizer tudo igual só precisa de um, não tem continuidade. Do mesmo jeito que eu escutei Thaíde, MC Jack, Racionais, Os Magrelos, escuto eles até hoje… mas do mesmo jeito que eu escutei eles eu escuto a galera nova da cena, eu sou um aprendiz. O rap está em completa ebulição e completa transformação sempre. Quando eu comecei a fazer rap em 88, para quem fazia em 82 eu já era diferente. E quando eu lancei meu primeiro disco em 2006, quantos discos existiram e nem tinha a tecnologia do CD? É muito louco, como você vai explicar para um garoto de hoje que você vivia num tempo que não tinha telefone? É muito louco porque tudo tá interligado, é a força da comunicação e como cada um faz bom uso dessa ferramenta.

TMDQA!: E o rap faz muito bom uso dessas evoluções para criar e distribuir a sua parada, da forma mais orgânica possível.

Criolo: Necessidade, mano. Bom seria não ter que passar [necessidade], vamos começar daí, mas o nosso jovem é tão criativo que ele dá um jeito. O pessoal é muito inteligente. Quando antes você pensava que ia escrever uma letra, pedir pra cantar na escola, como vai ser… aí você corta a cena, 30 anos depois o moleque já produziu o beat, já não sei o que, já masterizou, já mandou fazer a camiseta com o logo que ele mesmo fez e aí tem um cara na Suíça escutando o som.

Vontade de vencer. Teve a revolução tecnológica mas o que move o rap é a vontade de vencer. O rap te dá essa autoestima, ele te diz “vamo que eu acredito em você” e isso vai alimentando em vários outros lugares.

TMDQA!: Você diz que está aprendendo com a cena, e não dá para não citar seus sons mais recentes, em geral com o Tropkillaz, e boa parte do público esperava que o álbum fosse vir numa sonoridade semelhante, mas ele tem muito pouco do trap. Como foi esse processo? Você só queria trap nos singles, foi mudando no meio…

Criolo: Foi naturalmente. Como eu disse, eu fiquei tempo sem escrever e sem sentir a força, quem tava próximo de mim não sentia a força e tinha a sinceridade de me falar isso, de dizer “tem mais aí, não vou te dar tapinha nas costas”, para eu não ficar num lugar de comodidade. Tipo você disse “pô eu pensava que ia vir nessa estética, você ficou um ano e meio flertando com isso e fez outra?”

Sim, porque eu já fiz essa. Não se acomodar esteticamente. E esses traps só saíram porque tem uma cena de trap acontecendo há 15 anos só de BR e eu não vi, minha ignorância musical. Aí de alguns anos para cá eu comecei a ver, “caramba, emocionou, eu entendi, agora entendi”, aí eu fui lá, pedi licença, pedi que eles me permitam fazer (o trap). E fiz. E eles são bons, nossos artistas de trap são de nível mundial.

TMDQA!: Então o álbum foi feito todo depois dos singles de trap?

Criolo: Sim, foi feito depois, mesmo que tenha letras mais antigas, o disco foi todo pensado depois.

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TMDQA!: As suas performances no disco têm uma característica muito teatral. Isso foi algo que você buscou ou estudou?

Criolo: É rap de miliano. Já tá aqui dentro. O pessoal talvez conheça o disco de 2006, mas não viu as letras de 98, de 94. Isso é a essência do rap nacional, da minha parte. O rap tem todas essas ferramentas, um leque de possibilidades, que eu vivo há 30 anos. Comecei a escrever em 87-88, pedi para cantar em 89… e aí foi, 99… 2009… 2019… ô Senhor, é tempo! Mas enfim, tava tudo ali. É que muita coisa se perdeu, que não tinha como gravar, quem tinha HD externo? Hoje em dia você edita clipe, faz o beat no celular. É muito louco, é outro mundo, mas a vontade de querer mudança, de querer um mundo melhor permanece.

O rap todo dia faz você renovar votos com seus sonhos, te faz continuar caminhando. Às vezes você dá uns passos fortes, às vezes você dá uns passos fraquinhos, mas ele tá ali sempre te fortalecendo.

TMDQA!: E o que mudou na sua forma de trabalhar? O que você trouxe nesse álbum que você não fazia antes?

Criolo: Às vezes muda muita coisa, mas não muda nada. O sentimento que me move ainda é o mesmo, esse país mesmo continua matando nosso povo, é o país que mais mata gente preta no mundo, é o país que mais mata a comunidade queer no mundo, as pessoas que estão abaixo da linha da pobreza, que já era um número absurdo, agora se mostra mais ainda a crueldade com que essa sociedade trata o seu próprio povo. Quando eu lembro das dificuldades, do “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”… cansa.

Mas é isso, a música sempre vem quando vem o sentimento, e já vem letra e melodia como antes, e eu tenho a sorte de ter esses músicos maravilhosos que conseguem traduzir isso em sonoridade.

TMDQA!: Fiquei muito curioso pelos convidados serem muitos distantes entre si. Como se deu o processo, escolha, impacto? Pode discorrer pra gente, porque é algo que imagino que tenha sido muito incrível?

Criolo: É rap, a energia, a força do rap. O MC Hariel eu conheço há 7 anos, ele é muito coração e muito talento. Quando eu fiz a letra eu pensei nele, em chamar ele, pra fazer essa troca como o rap tradicional, tipo aqueles grupos antigos, que um MC fala e depois vem outro. E pensei na Liniker, pela doçura mas também pela força pra esse refrão, pois ele abre uma discussão. Foi muito natural pensar nesses dois nomes. Eu trabalhei há alguns anos com a Monique Ademberg, que convidou eu e o Emicida para cantar “Construção” do Chico Buarque, e o Jacques (Morelenbaum) fez o arranjo da orquestra. Aí a Bia, que trabalha comigo, sugeriu que eu escolhesse alguém para fazer um arranjo nessa música, e falou no Jacques. E foi tudo muito natural, a construção foi bem rap mesmo, você pensa nessa pessoa e dá um salve.

A Mayra surgiu a partir da nossa escolha de chamar alguém para o Rock in Rio no Palco Sunset [onde Criolo se apresentará esse ano]. E a partir desse calor, dessa aproximação eu apresentei “Ogum Ogum” e “Moleques São Meninos, Crianças São Também”, e aí ela escolheu “Ogum”, disse que tem tudo a ver com ela. E foi mágico, não consigo imaginar a música sem ela.

E o mestre Milton [Nascimento], em “Me Corte Na Boca Do Céu, A Morte Não Pede Perdão”. Vira outra coisa quando o mestre chega, a voz toca, abre portas, quebra barreiras, sai derrubando tudo. Ave maria, que é isso meu Pai. A gente é amigo desde 2013, a gente se ama demais. Citar o Bituca não tem como o nosso coração não se encher de amor, de esperança em dias melhores. O Milton existe! Ele é a prova viva que a gente é capaz de coisas boas. Ter ele ali é uma bênção, não só pra mim, mas se alguém tinha alguma dúvida da força do rap nacional, mesmo depois de ouvir todas do Racionais… tem mais essa aqui.

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TMDQA!: Me deixou muito curioso a contracapa, de cada música ter sua cor. Qual é a ideia por trás desse conceito?

Criolo: A ideia veio com todo mundo pensando, pulsando junto. Pensamos que: se você não tiver interessado no álbum, não gosta de rap, se as pautas não te tocam… ok, só de você passar aqui está acontecendo uma cromoterapia. Cada cor representa algo, no mundo de muita estimulação, ativa alguns sensores, acalma outros… A preocupação em te trazer, de alguma forma, algo positivo, e isso também vai para o show. De uma forma acalmar esse “seu HD”.

TMDQA!: A gente já estourou nosso tempo de conversa, então vou te liberar (risos). Um prazer imenso falar com você, e a gente se vê, te verei em shows com certeza!

Criolo: Nossa, to muito ansioso, você nem está ligado. E que daora que a gente tá se falando!

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