INXS foi uma das bandas mais especiais dos anos 80 e 90.

Infelizmente, os australianos não ficaram tão conhecidos quantos alguns de seus contemporâneos – e amigos – como o U2 e o Queen, mas nada disso parece incomodar Tim Farriss.

O guitarrista de longa data da banda nos atendeu por telefone para falar sobre vários assuntos, inclusive (e principalmente) sobre o histórico show na arena de Wembley, em 1991.

Live Baby Live, como foi batizada a gravação dessa performance histórica, está ganhando uma nova versão pra lá de especial. Com imagens totalmente restauradas para cinema, a apresentação mostra uma banda cuja química era de fazer inveja em qualquer músico, com um vocalista (Michael Hutchence) digno de ser frontman de qualquer grupo do mundo, mostrando toda a sua genuinidade mesmo estando frente a frente com quase 74 mil pessoas.

O filme já está disponível em diversos cinemas pelo mundo através do site oficial. Não há, até o momento, previsão de exibição no Brasil; mas você pode ajudar a mudar isso pelo próprio site, através da seção “demand it”.

No entanto, o gentil e amável Tim teve notícias boas. Ele nos disse que ainda há a possibilidade de exibição nos cinemas por aqui – a qual ele recomenda sem pestanejar – mas, após o fim dessas sessões, o plano é levar o filme para a televisão e, eventualmente, para um formato blu-ray.

Além disso, Tim teve muito a dizer sobre toda a carreira do INXS, inclusive sobre Michael, o show de 1991 e muito mais. Confira o ótimo papo a seguir!

Entrevista com Tim Farriss, guitarrista do INXS

TMDQA!: Oi, Tim! Como você está? Obviamente, estamos aqui para falar sobre o relançamento do Live Baby Live. Eu queria começar te perguntando quão incrível foi assistir esse show depois de tanto tempo e de uma forma tão bela?

Tim Farriss: Tudo certo por aqui! Bom, para mim, foi extraordinário porque eu fui assistir, pela primeira vez, em um cinema e sozinho. Porque antes de ser lançado para o público, a Universal Pictures ligou para a banda nos chamando para assistir e revisar, ver se estava tudo certo. Mas acabou que eu era o único que estava na cidade! Então eu falei, “eu vou!”. Eu sentei no cinema sozinho, e eu ficava olhando pros lados porque eu queria ver o que as outras pessoas estavam achando – mas não tinha mais ninguém lá, só eu! [risos]

Foi muito emocionante. Eu senti como se estivesse em Wembley novamente. Senti a adrenalina da plateia, da banda. Foi uma experiência maravilhosa. Nós havíamos tocado em Wembley 5 anos antes, com o Queen, e dizíamos que um dia voltaríamos e seríamos nós ali [como atração principal].

TMDQA!: Sensacional! Recentemente, inclusive, você descreveu esse show como o “maior pub” que vocês tocaram. Quando você diz isso, você quer dizer que na época vocês não tinham ideia de quão grande era aquilo ou é mais no sentido de manter as coisas simples?

Tim: É mais no sentido de nós querermos transformar qualquer lugar que fosse, independente do tamanho, em algo íntimo. Uma coisa que eu percebi é que só tinha um grande PA [caixa de som que leva o som ao público] e algumas luzes. Não tinha um piano de cauda, nenhuma pirotecnia ou coisa do tipo. Não tinha nenhum iPhone na plateia. Eram só seis caras mandando ver, e a plateia indo à loucura. Aliás, eles ajudaram a gente a se sentir bem no palco e eu acho que foi recíproco. Então, é nesse sentido que parecia apenas um pub gigante pra caralho [risos].

“Guns in the Sky”

TMDQA!: Uma coisa que eu sempre quis entender é como foi a decisão de abrir o show com “Guns in the Sky”. Na época, era só uma canção obscura do Kick e, de repente, vocês abrem o maior show da vida de vocês com ela. Acabou virando um momento icônico, inclusive, né?

Tim: Sim, isso foi muito doido! É interessante você me perguntar isso porque quando eu estava assistindo ao show no cinema eu fiquei pensando “por que a gente começou com essa música? O que a gente estava pensando?”. Mas quer saber? Funcionou muito bem!

O Jon só entrou no palco e começou a tocar bateria. E a gente ainda estava se arrumando! Então foi tipo, “Ei, hora de subir, ele [Jon] já começou!”. E a gente tipo, “Eita porra, ok!”. Então nós subimos lá e de repente estávamos só, sabe, improvisando. E, tipo, normalmente você começa com um single, né? Mas a gente resolveu só subir lá e “pow pow”, sabe. E sei lá, começar com uma música mais obscura quando nosso single era “New Sensation”… Foi surpreendente que funcionou tão bem. E foi tudo meio, sabe, a gente só fez o que achava que deveria naquele momento, entende? Nós não sentamos e ficamos remoendo aquilo. Nós não levamos aquilo tão a sério.

Nós pensamos, “ok, esse é o estádio de Wembley, nós estamos aqui, isso vai ser ótimo, vamos só subir e nos divertir”. Nós pensamos qual música nós poderíamos tocar para nos divertir, porque se a gente se divertisse, a plateia iria se divertir. E foi isso que nós fizemos.

E outra coisa foi a gente ter tocado nove músicas do X, que era nosso álbum mais recente naquele momento. Normalmente a gente tocaria mais músicas antigas, misturada com algumas coisas novas… Mas a gente estava promovendo o novo disco, que era o X, e a gente só… tocou. Mas, enfim, olhando para trás hoje eu acho que nós não apreciamos o quanto algumas músicas como “Hear That Sound”, “The Stairs” e “Lately” eram boas, sabe?

“Toque a porra do riff, Timmy”

TMDQA!: E essa química que você cita, com a plateia… Eu acho que isso vinha de vocês, no palco, tendo essa química entre vocês mesmos e isso ecoava para os presentes. E, com certeza, um dos momentos em que isso esteve mais visível é o clássico “play the fucking riff, Timmy” [“toque a porra do riff, Timmy!”, dito por Michael depois de uma sessão de improviso, disponível no vídeo acima em 2:28]…

Tim: Todo mundo fala isso até hoje! Eu posso estar andando na rua e eu ouço um “toque a porra do riff, Timmy!”, e isso me faz rir. Mas, cara, imagine que você está fazendo suas compras e alguém grita “toque a porra do riff, Timmy!” [risos]. Mas é realmente um momento clássico, e acho que mostra quão casuais nós éramos… De alguma forma, nós só estávamos nos divertindo. Michael [Hutchence] e eu estávamos tendo uma grande noite um com o outro, estávamos conversando bastante um com o outro durante o show. Acho que o Michael conversou mais comigo do que com o público [risos].

E a maior parte disso éramos nós brincando, mesmo. Eu virava pra ele e falava tipo, “não esqueça que estamos em Londres, cara”, enfim, algumas piadinhas… E nós estávamos tendo uma pequena discussão de brincadeira antes desse momento, e quando ele mandou eu tocar a porra do riff eu respondi “e se eu não tocar?” [risos].

TMDQA!: [risos] Bom, ficamos felizes que você tenha tocado!

Tim: [risos] E ele ficou sem saber o que dizer! Foi muito engraçado. Tinha muito tempo que eu não assistia esse show, e foi muito bom ver também como o Michael era com a gente.

Michael Hutchence

TMDQA!: Inclusive, a minha próxima pergunta é justamente sobre o Michael. Um filme sobre a vida dele está saindo por agora [“Mystify”, um documentário com entrevistas exclusivas de nomes como Bono, do U2, e pessoas próximas – trailer disponível aqui] e, em uma entrevista recente, você mencionou um momento em que você viu ele e o Freddie Mercury cantando e se divertindo. Você pode contar um pouco mais sobre isso?

Tim: Sim, acho que isso foi na turnê com o Queen. Nós passamos a nos conhecer melhor naquela turnê. Então, teve um momento que estávamos em Montreux, e estávamos eu, meu irmão Jon [Farriss, baterista do INXS] e Michael. E o Freddie estava morrendo [o diagnóstico de AIDS ocorreu em 1987, apesar de divulgado ao público apenas depois], mas eles estavam fazendo um novo disco [The Miracle] e ele estava nos mostrando algumas ideias, e em um momento ele chamou o Michael para cantar junto. E estavam lá, os dois cantando… foi bem engraçado [risos]. Foi muito bom! [risos].

Mas, falando sério, foi um daqueles momentos tipo “me belisca”. Pra ser sincero, na época eu não percebia quão profundo era aquele momento…

TMDQA!: É difícil ter dimensão dessas coisas, né?

Tim: Sim. Mas hoje em dia, curiosamente, eu entendo [risos].

TMDQA!: Também sobre o Michael, ouvi você dizer que ele havia sofrido uma lesão cerebral [em uma briga com um taxista] e que isso o mudou para sempre. É impossível não pensar que, se isso houvesse acontecido em dias mais recentes, com uma atenção maior das pessoas a esse tipo de lesão e com novas tecnologias e tratamentos, as coisas poderiam ter sido diferentes para ele. Você concorda?

Tim: Sim, com certeza. E acho também que se tivesse sido enquanto estivéssemos na estrada [o suicídio de Michael] ou algo do tipo, nós poderíamos tê-lo ajudado. Eu acho que, tipo, o Michael era muito “cavalheiro” sobre tudo isso; ele meio que dava de ombros à lesão e acho que nós poderíamos ter feito algo se estivéssemos por perto.

Mas, sim, a medicina avançou muito em um período muito curto de tempo. Eu acho que teria sido bem diferente se tivesse acontecido por agora.

INXS depois de Michael

TMDQA!: Depois de assistir o show, o que você sentiu? Dá saudades de estar no palco ou você sente mais uma coisa tipo “foi ótimo, mas já deu”?

Tim: Não, de jeito nenhum. Pra mim, eu realmente sou muito grato por tudo, mas [assistir ao show] me faz ter vontade de tocar, sabe. [risos] Me deixa faminto por fazer música, entreter as pessoas, porque é isso que fazíamos, que amávamos fazer. E eu sinto falta deles, dos meus irmãos, do Michael, dos outros caras…

Mas eu fico muito feliz por termos continuado sem o Michael. Porque, sabe, tudo que nós queríamos fazer era homenagear o Michael e o grande homem que ele era, a pessoa grande e talentosa que era. E nós só pensamos que isso ajudaria as pessoas a lembrar. Enfim, nós fizemos o que achávamos que era certo.

TMDQA!: E que bom que fizeram!

Tim: [risos] Muito obrigado!

TMDQA!: Bom, e por fim, uma curiosidade. Depois de ter assistido o show e refletindo sobre tudo que você viveu, você seria do INXS novamente?

Tim: Ah, com certeza, cara. Nós crescemos juntos, sabe. Alguém me disse uma vez que o Michael poderia ter sido um grande vocalista de qualquer banda. Mas o fato é que ele não foi. Ele estava conosco. E ele não sabia cantar quando nós começamos! Nós todos aprendemos a fazer o que fizemos juntos. Nós vivemos nossas vidas juntos; nós tivemos a sorte de fazer isso com ele e ele teve a sorte de fazer isso conosco. Então, em resumo, sim. Eu com certeza seria do INXS novamente.

TMDQA!: Muito obrigado por seu tempo, Tim. Foi um prazer enorme conversar contigo!

Tim: Eu que agradeço, você fez boas perguntas! Até mais!

 
 
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