Tiné, vocalista Academia da Berlinda
Foto: Juvenil Silva/Divulgação
 

Integrante das bandas Academia da Berlinda e da Orquestra Contemporânea de Olinda, o cantor Tiné acaba de lançar mais um trabalho solo, Românticos do Rosarinho.

O disco faz referências claras ao bolero. Segundo o artista, sua relação com esse ritmo musical começou dentro de casa, com os avós. A partir de tantas referências que tinha em seu inconsciente e realizando o desejo de tirar a ideia do papel, o álbum nasceu. 

Românticos do Rosarinho marca a estreia da parte de direção musical para Tiné. Além disso, o trabalho chega recheado de participações: Jorge du Peixe, Moreno Veloso, Kassin, Mestre Anderson e Lirinha

Conversamos com Tiné para falar de sua trajetória, do disco e dos próximos passos. Confira abaixo!  

TMDQA! Entrevista Tiné

TMDQA: Sua relação com o bolero começou ainda na infância?

Tiné: Essa referência que eu tive da infância foi uma coisa bem natural. Meus pais escutavam muito Nelson Gonçalves, Rolando Silva, essa galera toda… Na verdade, começou com meus avós e meus pais já pegaram as referências de rebarba ali, e eu mais ainda (risos). 

O bolero tava naturalmente na minha cabeça, no meu inconsciente. Mas quando eu comecei a escutar os compositores mais novos, como Caetano Veloso, Rita Lee (entre outros que flertaram com o bolero de uma forma muito interessante), percebi nisso o uso de harmonias sofisticadas, influenciadas pela bossa nova. Eu via nisso uma possibilidade muito bonita de poder fazer música. 

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TMDQA: Tanto na Academia da Berlinda como em outros trabalhos o bolero sempre esteve meio ali presente, mas em segundo plano, né. Como foi pra você abraçar isso de vez nesse disco?

Tiné: Na Academia eu já tinha gravado “Agora já era” no disco Nada sem ela, que é um bolero mesmo. Eu começo ali com uma batida de bolero que eu uso nesse disco todo. 

No meu disco Equilibrista de 2016, eu gravei dois boleros também: “Faz que vai” e “Abrigo”, aquela essência do bolero já tava em algumas músicas minhas de muito tempo… 

O bolero me encantou tanto que eu tive que fazer um disco e até hoje não parou a vontade! (risos) 

TMDQA: Inclusive, no disco de 2016 não tinha nenhuma parceria ainda e em Românticos do Rosarinho tem logo 4. Como foi escolher cada um deles?

Tiné: Com Moreno, eu tava fazendo um show e, nisso, um amigo em comum nosso chegou e trouxe ele. Nesse dia, no microfone do palco, mostrei para ele alguns boleros que fiz influenciado pelo trabalho do pai dele. Fomos apresentados nesse dia. Quando eu pensei em fazer esse disco, pensei em Moreno para gravar comigo. Ele é muito talentoso, a música ficou muito especial.

No caso de Lirinha, eu tava fazendo “Celular” com Igor de Carvalho, eu fiquei desenvolvendo por muito tempo. Eu sabia que ainda faltava algo, falei com Lirinha, disse “quando eu paro de cantar aqui, Vinicius de Moraes vem falar no meu ouvido”, aí ele começou a rir. Ele curtiu muito a música e fez a poesia. Ficou perfeita! 

No caso de Jorge, a gente é da mesma produtora, Babel Produções. Quando eu tive a ideia de fazer o disco, eu liguei pra ele. Ficamos eu e ele pensando. Surgiu assim o tema da música… A mulher se arrumando, se adornando e tal.

“Eterno domingo” surgiu durante a quarentena. Todo dia do começo da quarentena parecia que era domingo. Fala dos casais que precisaram se separar na quarentena também. Pensando nessa angústia, tentei traduzir esse sentimento. 

Conversei com Mestre Anderson. É uma das únicas músicas do disco que tem influência da baixada, um ritmo híbrido do bolero, que os sertanejos estão usando muito atualmente. A melodia dessa música flerta com a música sertaneja de Goiás. 

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TMDQA: Como foi chegar nessa referência sertaneja?

Tiné: Eu vou te falar e você não vai acreditar (risos). Eu jogo os campeonatos pré-competição de Fifa. Eu assisto às lives na Twitch da galera que joga. O pessoal de Goiás é muito forte no Fifa, nas lives dessa galera só toca sertanejo. Eu nunca gostei de sertanejo na minha vida e fui obrigado a assimilar aquilo a toda hora (risos).

Essa baixada toca muito na live da galera, ficou na minha cabeça e eu passei a gostar muito. Aí pensei “vou fazer uma música na pegada deles”, aí fiz. E Mestre Anderson é da zona da Mata Norte, um lugar que tem muita tradição de mestres de maracatu rural, de cavalo-marinho, uma tradição muito rica, bem raiz mesmo. É uma música popular bem raiz e ele ao mesmo tempo tem essa faceta de gostar de cantar sertanejo. Ele topou e pirou com “Eterno domingo”. Foi perfeita essa participação dele. 

TMDQA: É muito diferente todo o processo de criação e desenvolvimento em uma banda para um trabalho solo. Como está sendo esse momento para você?

Tiné: Eu amei. Inclusive, foi o primeiro disco que eu fiz direção musical. Conto com a produção musical de Luccas Maia. Eu fui de músico por músico, dizendo como era que eu queria, claro que Luccas dava sua opinião também. 

Mas essa possibilidade de ir pela minha cabeça, de fazer um som do jeito que eu estava pensando, do jeito que estava no meu inconsciente, foi muito maravilhosa. 

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TMDQA: Inclusive, você pretende explorar a direção musical mais vezes?

Tiné: É muito trabalhoso. Eu não sei como eu iria desempenhar esse cargo no trabalho de outras pessoas. Eu ainda não fiz isso, então não sei como eu iria transitar nessa posição. 

Tem momentos muito difíceis. Você tem que tomar decisões que podem machucar alguém… tem que dar pressão para a música sair. Eu consegui levar de uma forma muito suave, assertiva, por isso me identifiquei tanto com essa função. 

TMDQA: Você acha que a pandemia ajudou você a lançar esse disco agora? Por conta da correria e alta demanda de estar em duas bandas, enfim..

Tiné: Eu acho que não. Esse já era um sonho antigo meu, de fazer um disco voltado para o bolero. Um mês antes da pandemia, eu já tinha montado uma banda de bolero, para começarmos fazendo cover e ir criando ali uma identidade para colocar as minhas músicas autorais. Já estava premeditando isso. 

Quando chegou a pandemia, com a lei Aldir Blanc, não pensei duas vezes antes de fazer esse trabalho. O momento era esse de fazer esse trabalho. A escolha foi tão acertada que eu me propus a fazer quatro músicas durante o processo e fiz. É porque tinha que ser mesmo. 

TMDQA: Bolero é um ritmo pra dançar juntinho e a pandemia atrapalhou muito isso, né? Como você tá imaginando a divulgação desse álbum? Já está desenhando alguns encontros presenciais para mostrar o disco?

Tiné: No momento, estou fazendo lives, clipes, fazendo o que posso fazer. Tive proposta para fazer show em barzinho com 70 pessoas, mas não quis porque não é o momento. O momento é de se preocupar com as pessoas estando vacinadas, os número de mortes caírem, enfim, não to nem pensando nisso. 

Eu penso que o bolero é uma música muito gostosa de ouvir também. Eu amo ouvir bolero, pra dançar ou não. O bolero tem essa faceta de sair só da dança de salão. 

TMDQA: E os clipes do disco? Quantos estão prontos? Tem algum lançamento a caminho?

Tiné: Dia 5 de agosto foi lançado meu primeiro clipe desse trabalho, “Eterno domingo”. O clipe é de um rapaz de Recife, do projeto Ciberdelia. Fiz uma live com o mestre Anderson no Instagram lançando o clipe, tocando as músicas do disco. 

Serão três clipes prontos até o fim do ano. Quem produzir clipe e quiser me procurar, tô por aí (risos).