Bryan Adams
Divulgação

Parece mentira, mas ninguém tinha feito um musical de Uma Linda Mulher até 2018. Foi quando finalmente estreou em Chicago a adaptação do sucesso originalmente estrelado por Julia Roberts e Richard Gere.

Dez anos antes, Bryan Adams ventilou essa ideia e não conseguiu tirar o projeto do papel. Até que finalmente foi convidado a se juntar a uma produção, agora sancionada por ninguém menos que Garry Marshall – o diretor do filme original – e que precisava de um compositor igualmente renomado e versátil para contar histórias em forma de canção.

Isso faz de Bryan Adams um ótimo candidato – tanto que ele logo foi contratado para o “job”. O homem não só é gabaritado nessa coisa de sucesso musical, conhecido por sua voz distinta e diversos hits memoráveis que embalaram gerações, como “Summer of ’69”, “Heaven” e “(Everything I Do) I Do It for You”, como também tem experiência em trilhas sonoras para filmes, como Spirit.

Mas o que Adams não sabia é que escrever canções para um musical é algo completamente diferente de criar para seus próprios álbuns, levando a um longo processo de escrita e reescrita para se adaptar ao estilo narrativo.

Isso não transparece nas faixas do disco – a gravação de cada música da trilha foi feita tanto pelo elenco teatral quanto pelo cantor e compositor. Pretty Woman – The Musical é um dos múltiplos álbuns lançados por Bryan Adams apenas em 2022.

Bryan Adams e Uma Linda Mulher – O Musical

Isso porque o músico canadense está em um longo processo de regravar canções antigas para recuperar suas masters, inspirado por ela mesma: Taylor Swift. Isso resultou nos discos Classic e Classic Pt. II. Em 2023, já saiu um registro ao vivo: o show histórico no Royal Albert Hall com o repertório do icônico Cuts Like a Knife, 40 anos depois de seu lançamento.

Quem vê Bryan Adams em plena forma nem nota que ele está no auge dos 63 anos. Mas dá tempo de lançar música pedindo a paz entre as nações, atuar como fotógrafo e se desafiar em projetos como o musical que chega em São Paulo em setembro.

Uma Linda Mulher – O Musical vem na esteira de sucessos na Broadway, no West End de Londres, na Alemanha, Itália e Espanha, aportando enfim no Teatro Santander, situado no Complexo JK Iguatemi, em São Paulo, a partir de 01 de setembro.

A produção é grandiosa, como tem sido o caso dos musicais mais tradicionais que chegam ao país. Uma Linda Mulher conta com um elenco composto por 25 atores-cantores, liderados pelos protagonistas Jarbas Homem de Mello, no papel de Edward Lewis, e Thais Piza, interpretando Vivian Ward. Eles serão acompanhados por uma orquestra composta por 10 músicos.

O TMDQA! aproveitou a oportunidade para conversar com Bryan Adams sobre sua longa carreira, o desafio do musical e a vontade de voltar ao Brasil. Confira abaixo!

TMDQA! Entrevista: Bryan Adams

TMDQA!: Olá, Bryan, como vai você?

Bryan Adams: Eu vou bem, Nathália, obrigado.

TMDQA!: Onde você está hoje?

Bryan: Estou no Canadá.

TMDQA!: Ah, legal! Bom, eu quero falar de cara sobre o fato de que Bryan Adams e Uma Linda Mulher na mesma frase fazem total sentido. Eu até achei que tinha uma música sua na trilha sonora do filme, mas estava enganada, a conexão só fez sentido no meu cérebro! Daí queria saber qual a sua relação com essa história. Você só assistiu o filme naquela época e se apaixonou por ele, como muitos de nós?

Bryan: A história do motivo de eu querer fazer isso é que eu tinha uma namorada que era dançarina no West End [setor teatral] de Londres. Estávamos voltando pra casa uma noite e ela dançava em uma outra produção. Ela disse, “queria que alguém fizesse Uma Linda Mulher – O Musical”. E eu perguntei, “quer dizer que ninguém fez ainda?”. Eu disse, “uau, é uma ideia muito boa”. Eu liguei para os amigos que tenho nesse ramo, isso foi em 2008, e basicamente o resultado foi um ‘não’. Então não pensei mais nisso. 

Então um dos meus amigos e seu marido vieram me ver em Nova York e disseram, “Bryan, você precisa fazer um musical”. E eu respondi, “bom, eu tentei, mas não deu certo”. Eles perguntaram qual eu tentei, então respondi “Uma Linda Mulher”. Eles disseram, “Ah, sabe que estão fazendo agora?”. E meu amigo disse que ia me conectar com o produtor, que me passou para o diretor, que enfim disse “venha para Nova York”. Viemos [Bryan e o parceiro de composição de longa data Jim Vallance], tínhamos algumas canções que apresentamos. E ganhei o emprego!

TMDQA!: Olha, eu diria que você é bem qualificado pra esse emprego.

Bryan: Muito obrigado! Sabe como é, escrevi uma música ou outra no meu tempo [risos].

TMDQA!: Pois é! É que eu vi que eles buscavam alguém que incorporasse o som dos anos 80 e 90, e você entende muito desse assunto.

Bryan: Eu não sei se é bem isso que eles procuravam… O que eles tinham interesse é ter um outro nome para ajudar a produção. Ter o meu nome relacionado ao musical ajudou, mas o fato de que eu tinha canções nos anos 80 e 90 ajuda também.

TMDQA!: É, não atrapalha. 

Bryan: Digamos que já tenho certo pedigree [risos].

TMDQA!: Exato! Não é segredo pra ninguém que você é um “senhor” compositor, mas um musical é um projeto bem diferente. Vi você comentando sobre o processo longo de compor e reescrever. Você diria que a essa altura, fazer algo assim foi uma forma de se desafiar?

Bryan: Muito. Essa foi uma das melhores partes desse projeto. É diferente de tudo que eu já fiz antes. Eu estava trabalhando com pessoas que não eram do meu mundo e isso me lembrou o quão diferente o negócio do entretenimento pode ser. Apesar de todos trabalharmos com música, é uma forma diferente de trabalhar com música. E eu já trabalhei nos meus discos, com outros artistas, em trilhas sonoras, com compositores de trilhas, diretores de cinema, todo tipo de gente. E o que acontece quando você se coloca em uma posição de estar desconfortável, você desenvolve algo diferente. Algo novo acontece que você provavelmente não esperava. Entende o que digo? Estava empolgado de fazer algo diferente.

Foi um processo de aprendizado, porque não há manual de instruções para se compor para um musical, não importa o que digam. É sobre a visão que o diretor tem e como ele te ajuda, como compositor, a contar a história. Porque tudo se resume à história, no final das contas. Me lembro de entregar uma música e eles dizerem, “olha, você não pode falar metaforicamente; você precisa falar claramente sobre o que está acontecendo ali, o que o personagem está pensando. Não pode ser sobre o passado ou o futuro, tem que ser sobre agora”. Muitas músicas de rock são sobre metáfora, olhar para o passado, nostalgia, e no teatro musical é sobre contar a história. Esse foi o desafio. E a história, às vezes, precisávamos inventar. Apesar de estar tudo bem claro no filme, se você estudá-lo, boa parte são closes – são tomadas fechadas no Richard Gere; outra na Julia Roberts; depois de novo no Richard Gere; uma tomada média da Julia; outro close no Richard. Eram muitos closes, então ocasionalmente se via o quarto de hotel, a rua… Então você tem noção do que está acontecendo, mas a história mesmo é sobre duas pessoas de duas realidades diferentes – um é rico, outra é prostituta – e eles se apaixonam.

Para mim, o que foi interessante foi mostrar duas pessoas se apaixonando, e uma delas ensina a outra pessoa sobre algo que tinha dentro de si e que não se dá conta. Essa não é a melhor parte do amor? Ele traz à tona algo incrível em você e incrível no outro que não sabia. Pra mim, estava com o foco nisso, nessa história maravilhosa. Isso acontece todo dia, as pessoas se conhecem e se tornam uma. É mais sobre como uma pessoa ajuda a outra a enfrentar a vida. Algumas pessoas procuram e não encontram nada; e então conhecem alguém nas circunstâncias certas e se torna sua motivação, sua raison d’être [razão de ser]. Acho que é isso que essa história conta e foi nisso que foquei. 

TMDQA!: Claro, acho que você conseguiu. Queria falar sobre um vídeo que você postou outro dia – de um homem que invadiu seu palco num dos shows. Não sei se você acompanha essas histórias de fãs fazendo coisas loucas com os artistas no palco, mas…

Bryan: [rindo] Isso acontece há décadas. 

TMDQA!: Sim, claro. Agora, estão jogando cinzas e queijos. 

Bryan: É, mas não é novo. Não é algo novo. 

TMDQA!: É, mas não parece que estamos reaprendendo a conviver em eventos ao vivo?

Bryan: Não, Nathália, isso não é novo. As pessoas jogam merdas no palco há anos. As meninas jogavam calcinhas no Tom Jones. Se você for a festivais de rock, as pessoas jogam garrafas de mijo umas das outras. Algumas coisas que acontecem em shows de rock desafiam a lógica humana, mas é assim.

TMDQA!: Tá certo. Só dar de ombros e continuar, né?

Bryan: Isso aí.

TMDQA!: Eu lembro de te conhecer no seu show aqui no Rio. Você me perguntou algo sobre preferir o disco novo – era a turnê do Get Up – ou as antigas, e eu falei que sempre vou amar as antigas. E você disse algo tipo “Ah, mas as novas um dia vão ser antigas”. E voilà, cá estamos nós: isso parece que foi há uma vida. Então acho que essa pergunta tem duas partes. Primeiro: você passou um bom tempo com essas canções antigas. Elas pareceram diferentes pra você de alguma forma? Diria que essas músicas evoluíram com você ao longo do tempo? E parte 2: você planeja ser feliz com a nova turnê, So Happy It Hurts, na América do Sul em algum momento?

Bryan: Vou responder a parte 2 primeiro. Não sei quando vamos à América do Sul, mas me perguntam isso todo santo dia. Então tenho total certeza que vamos voltar. Mas com relação às músicas, elas têm um jeito muito peculiar de se incorporar à vida das pessoas. Às vezes, é inexplicável como acontece. Por exemplo, no Brasil, Heaven é uma música muito popular. Isso é porque no início dos anos 80, quando a música saiu, tinha uma novela que usava a música toda hora. Por causa disso, ela se tornou popular. Entende? Você sabia?

TMDQA!: Ah sim, sabia.

Bryan: De que fazia parte da novela?

TMDQA!: Heaven? Sabia, só não sei o nome.

Bryan: É, também não lembro o nome. Mas foi por causa disso e a música se tornou popular. Quem poderia explicar? Eu não posso. 

TMDQA!: Certamente. Vi aqui, o nome da novela era A Gata Comeu.

Bryan: Pronto. Ótimo.

TMDQA!: E Bryan, você é um cara de múltiplos projetos. E quem já te viu ao vivo sabe o quão jovial você é. Entre se dedicar à fotografia, o musical, seus discos, regravar o catálogo antigo… Você parece que não para. Como você se mantém energizado por tanto tempo? Qual o segredo?

Bryan: Sabe, eu só… amo música, fotografia e ser criativo. O segredo, acho, é que amo a ideia de criar algo do zero. Isso sempre vai ser a coisa que me mantém na ativa.

TMDQA!: Não se precisa de mais que isso. Tá certo, Bryan. Sei que preciso te liberar. Espero te ver aqui no Brasil em breve.

Bryan: Claro, espero te reencontrar novamente. Obrigado [em português].

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