telvrichaos
Foto: João Paulo Vargas / Matheus Nogueira
 

Semen Ignis et Oculus Capræ: Hatred can turn into aggrandizement (ou “Semente de Fogo e Olho de Cabra: o ódio pode se tornar engrandecimento”, em português), esse é o nome do denso e provocador novo álbum da banda de rock alternativo Telvrichaos.

O trabalho será lançado oficialmente nesta sexta-feira, dia 26 de Março, e estará disponível em todas as plataformas de streaming, mas o TMDQA! adianta essa estreia com exclusividade e traz o disco em primeira mão para você.

Contando com sete faixas autorais — incluindo os três singles divulgados previamente: “Obliteration“, “Deep” e “Star” — o álbum propõe um mergulho interno em busca da compreensão do caos para evolução humana.

Para isso, a Telvrichaos se debruça sobre o estado de caos para construir uma narrativa subjetiva, através de arquétipos e as simbologias que retratam o ódio, principal fio condutor do registro. Em conversa com o TMDQA!, o guitarrista e líder do grupo, Eduardo Ribeiro, conta que “o disco nasce de picos de ódio individuais onde a solução se dá em produzi-lo em si“.

O ódio, assim como o amor, é um sentimento nato humano. O disco traz uma quebra na ideia de que o ódio só pode ser destrutivo. Ele sim é um sentimento que pode ser autodestrutivo, mas, olhando por outra perspectiva da espiral, ele pode ser o motor para o impulso. Ele não precisa ser tratado sempre como agressivo, pesado, denso.

O músico continua e esclarece que a dicotomia apresentada em Semen Ignis et Oculus Capræ: Hatred can turn into aggrandizement permite enxergar o ódio por uma ótica mais pura do que o sentimento é em si.

Ele pode ser sutil, reflexivo, mas claro que também é denso e pesado, assim como o amor pode ser. E são esses ciclos infinitos que o disco reverbera. Mas, dentro da perspectiva telúrica, a reflexão está em si, no que te permeia e no que te influencia para desenvolver e lidar com sua existência.

Entre o Oculto e o Pagão

O quarteto carrega a proposta de expressar suas experiências e inquietudes existenciais, tendo como ponto de intersecção o ocultismo e o paganismo. Dessa maneira, o álbum se apresenta de forma sutil e traz o latim e o inglês como línguas predominantes nas letras que ecoam da voz potente e suave de Marina Dolinsky.

As faixas ganham um tom melancólico, que vem harmonizado por guitarras progressivas e ecos intermináveis, influenciadas pelos timbres das décadas de 60/70. Ainda sobra espaço para um flerte com vertentes do indie rock. Eduardo nos explica sobre a concepção da estéticas de linguagem e artística que perpassa a sonoridade da Telvrichaos.

A ideia do projeto em si é essa própria espiral, que nesse disco está mais clara nas letras. Isso consegue materializar a ideia de caos como essa crescente que vai adicionando cada vez mais elementos e agressividade a algo que começa com muita sutileza. Nada foi construindo mirando num objetivo, foi simplesmente acontecendo, apesar de termos influências individuais bem claras.

Para acompanhar toda a narrativa do álbum, o grupo criou um material audiovisual a partir de fragmentos de imagens de domínio público, que contou com uma pré-estreia no último dia 20 de Março. A apresentação única, que aconteceu em transmissão ao vivo, não está mais disponível, mas você pode conferir um trechinho no teaser clicando aqui.

Além de Eduardo Ribeiro, articulador do projeto e responsável pelos arranjos e composições, e da vocalista Marina Dolinsky, a banda conta ainda com Rafael Taufer, responsável pela produção dos synths; e Béla Simon, letrista.

Ouça Semen Ignis et Oculus Capræ: Hatred can turn into aggrandizement no player abaixo.

Faixa a Faixa por Telvrichaos

Para mergulhar ainda mais no conceito de Semen Ignis et Oculus Capræ: Hatred can turn into aggrandizement, a Telvrichaos preparou um faixa a faixa onde comenta sobre a temática e sonoridade de cada uma das 7 canções que compõem o álbum. Você pode conferir a seguir.

#1 – End

É um mantra que conduz o ouvinte à sua escuridão particular, ao ponto de nascimento do seu ódio. As vozes ecoam, ora distantes e ora mais densas, enquanto duas notas em repetição, juntas a uma vibração contínua, dão corpo para que outros elementos surjam e criem a atmosfera que permeia todo o disco.

#2 – Spiral

O mesmo vocal distante faz a ponte entre a primeira e a segunda música, com uma guitarra ainda mântrica, mas que se intensifica no próprio caos, conduzindo da sua sutileza inicial à explosão com orquestra e instrumentos mais agressivos, vemos facetas diferentes de um mesmo sentimento ainda destrutivo. Aqui se apresenta um dos conceitos centrais do álbum: as above, so below, com a ideia de que o ódio é uma espiral que percorre ciclos que se realimentam de forma cada vez mais caótica.

#3 – Deep

Deep chega como a resolução dessa primeira etapa do disco. A aceitação do ódio e o questionamento existencial: “Qual o sentido de tudo?” Com um tempo mais arrastado, espaços vazios e com sua crescente, os arranjos conduzem a atmosfera da música para um lugar diferente do que se pode entender como ódio. Eis o surgimento das possibilidades de construção a partir desse sentimento inicial.

#4 – Star

Em um olhar mais espiritual, já tendo sido questionado o sentido inicial, Star projeta o foco no próprio eu, diante da esfera criadora. A música, em três auras distintas, se divide em uma pausa grandiosa e cheia de ecos que conduzem ao momento mais sutil do disco e culmina em uma catarse melódica de um solo intenso, que marca um estilo completamente novo no projeto.

#5 – Perspective

É o respiro de fato do álbum. Apesar de ser a música mais suave, sua letra reforça incômodos e perturbações que só podem ser percebidos em momentos de silêncio e contemplação. Suas guitarras se complementam e entrelaçam, criando uma atmosfera de um espaço amplo que segue reverberando. As vozes e elementos reversos no fim
também reforçam a ideia de tudo ser revisto nesse momento de respiro e contemplação.

#6 – Obliteration

É a grande conclusão do álbum. O corte de tudo e todos que são catalisadores do caos e do ódio. Seu primeiro momento, mais denso e retilíneo é acompanhado de violões de 12 cordas e vozes compostas que vão se intensificando até a sua grande catarse, com um sintetizador marcante como elemento principal, outro ineditismo do projeto, conduzindo para um final análogo a Spiral. Se na faixa dois entendemos a origem, aqui entendemos o fim.

#7 – Nihil

Nihil, que significa “nada” em latim, é um epílogo. Assim como na Montanha Encantada de Jodorowsky, aqui a mensagem é de que todo esse ódio na verdade não é nada além de uma projeção. Tudo é nada. E por mais intensa que seja essa espiral caótica, nós mesmos somos os grandes responsáveis. E essa despedida acontece com uma introdução extremamente melancólica, evoluindo para uma melodia arrasada e o vocal mais intenso e emocional do disco.

 
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