Clipe de
Foto: Reprodução / Youtube
 

Já reparou na beleza dos momentos simples da vida? Às vezes, somos tão exigentes com tudo ao nosso redor que ignoramos o prazer da pureza e da simplicidade. Esquecemos a beleza especial contida em coisas descomplicadas como um belo pôr do sol, um piquenique no parque ou até mesmo o atemporal riff de “Seven Nation Army“, o maior clássico do The White Stripes.

Lançada em 2003 como primeira faixa do disco Elephant, a canção, interpretada originalmente por Jack White e Meg White, foi na contramão de constantes tentativas de artistas de tentar captar o público através de melodias e arranjos complexos. O que temos aqui é uma pacata linha de 7 notas (“seven”, sacou?) acompanhada pela marcação na bateria, e isso foi o suficiente para cruzar o mundo.

Sobre este atemporal hit, separamos algumas curiosidades que vão desde básicos elementos musicais até o mundo do esporte. Confira abaixo:

 

Primeiramente: não, o riff não foi feito no baixo

É importante deixar claro que a icônica linha grave que dá o tom da música não foi feita no baixo, ao contrário do que muitos pensam. O que White fez, na verdade, foi usar um pedal que desse esse efeito grave, oitavado, à sua guitarra. Assim, deixou todas as notas do seu instrumento mais graves, uma oitava abaixo.

Mais especificamente, o equipamento utilizado pelo guitarrista foi um pedal DigiTech Whammy, que é usado especialmente com o fim de alterar, para mais grave ou para mais agudo, o tom do que é tocado. Outros nomes notáveis que também já fizeram uso desse pedal são Joe Satriani, Steve Vai e David Gilmour.

 

“Você consegue fazer melhor que isso”

Ainda sobre o memorável riff, White o criou em um hotel na Austrália no início de 2002, durante uma turnê do The White Stripes. Nasceu enquanto Jack e Meg estavam ensaiando.

Animado, o guitarrista viu Ben Swank, executivo da gravadora Third Man Records, passando e o chamou para opinar sobre a linha recém-criada. “Não sei, cara. Acho que você consegue fazer melhor que isso” foi o feedback imediato de Swank.

O executivo talvez estivesse com muita pressa para prestar atenção na simplicidade proposta por White nesta versão embrionária do riff. Em entrevista concedida em 2009 para a Rolling Stone, o discurso de Swank foi outro. Quem diria, hein?

É a franqueza e a simplicidade que a música evoca. Esse é o apelo geral da banda. É justamente isso que eu gosto de sentir em todas as minhas músicas favoritas deles. É algo mais guiado pela emoção do que planejado.

 

007: O Exército das Sete Nações

Após a reprovação inicial de Swank, Jack White cogitou “segurar” a canção para o caso de ele ser chamado para compor um dos famigerados “temas James Bond“, que emplacam os filmes da franquia 007. Mas, entendendo isso como uma possibilidade improvável, ele seguiu e fez de “Seven Nation Army” uma música do The White Stripes.

Bom, mal sabia ele, na época, que seria de fato chamado futuramente para assumir o posto de intérprete do tema. Em 2008, Jack e Alicia Keys lançaram “Another Way to Die” como trilha para o filme Quantum of Solace, sendo até hoje a única música-tema da série interpretada por dois artistas.

 

Garage Rock dos anos 2000

“Seven Nation Army” serviu para a consolidação de uma determinada vertente do rock no mainstream mundial. Trata-se do garage rock revival, um movimento fortemente influenciado pela estética do rock de garagem dos Anos 60 e do Post-Punk/New Wave dos Anos 80.

A explosão comercial do gênero aconteceu no início dos anos 2000, quando nomes como The Strokes e The Hives chamaram a atenção dos grandes veículos com sua estética “retrô”. O grande hit do The White Stripes ajudou a catapultar o movimento ainda mais, influenciando toda uma segunda onda de bandas como The Black Keys, Kings of Leon e Kaiser Chiefs.

 

AQUELE clipe

Uma obra artística boa de verdade gera boas impressões em qualquer mídia. É justamente este o caso de “Seven Nation Army”, que ganhou um belo clipe à altura. Usado até hoje como referência visual para os mais diversos artistas, o vídeo da canção foi dirigido pela dupla Alex Courtes e Martin Fourgerol, que têm em seu currículo trabalhos com nomes que vão desde U2 (“Vertigo”) até Hilary Duff (“Play With Fire”) passando pelo clássico “Woman”, do Wolfmother.

O clipe capta nossa atenção ao se assemelhar a um fluxo contínuo de imagens produzidas por uma espécie de caleidoscópio. O formato triangular, por sinal, é uma referência ao amor de Jack White pelo número três.

E parece que esse tipo de clipe é sempre um sucesso. Basta usar como outro exemplo o clipe de “Shut Up and Let Me Go“, do The Ting Tings, lançado em 2008.

 

O Exército da Salvação

Vamos falar agora sobre o conteúdo lírico da canção. Afinal, o que é o tal “Exército das Sete Nações”?

Na verdade, trata-se da maneira pela qual Jack, quando criança, se referia ao Exército da Salvação, uma igreja cristã internacional que também atua como organização de caridade. Jack já falou algumas vezes que deu esse nome à canção inicialmente de forma aleatória, mas o termo ganhou um novo significado com a letra finalizada. Ao ser citada nos versos iniciais, é dito que nem mesmo um exército de sete nações conseguiria conter a fúria do eu-lírico.

Bom, também existe uma banda céltica intitulada Seven Nations, mas isso não vem exatamente ao caso.

Símbolo da Salvation Army
Foto: Divulgação

 

Hino esportivo?

“Seven Nation Army” também tem um espaço significativo na cultura de torcidas esportivas, mais especificamente do futebol. Mais um golaço (entrando no clima esportivo) para a pureza e clareza da icônica linha!

Aparentemente tudo começou no próprio ano de lançamento da música, em uma partida entre o Club Brugge KV, da Bélgica, e o Milan, da Itália. A exaltada torcida belga, após um gol do jogador Andrés Mendoza na casa dos adversários italianos, começou a cantar as notas do riff original através da onomatopeia “oh”. No final, o Club Brugge venceu o jogo, e “Seven Nation Army” se tornou o hino não-oficial do clube.

Mas não é uma exclusividade da torcida belga, não. A própria Seleção da Itália usou a música a seu favor durante a Copa do Mundo de 2006, quando levou seu quarto título. Obviamente, a festa italiana já tinha sua trilha sonora definida, e Jack White adorou a notícia. Em entrevista ao NME, ele comentou:

Eu me sinto honrado em ver os italianos adotando essa música como se fosse deles. Nada é mais belo no mundo da música do que quando as pessoas acolhem uma melodia e permitem que ela entre no escopo de sua música folclórica.

A canção também ganhou muita visibilidade durante a mais recente Copa do Mundo, na Rússia, já que foi tocada durante a abertura dos jogos. Mas obviamente também rolaram as versões brasileiras que se popularizaram entre os clubes, como “Nós Odiamos o Grêmio” e “Isso Aqui Não É Vasco, Isso Aqui É Flamengo“.

 

Mas por quê?

Já entendemos que “Seven Nation Army” ganhou notoriedade por conta de seu simples e, ao mesmo tempo, cativante riff de guitarra. Mas o que aconteceu para essa canção ultrapassar as barreiras do mundo da música e conquistas os fãs de esporte no mundo todo?

A música entra ao lado de outros hits que, pela clareza e fácil assimilação de suas melodias, acabam ganhando forte potencial para torcidas em um amplo estádio lotado. A simplicidade também facilita o processo de adaptação, seja para cantar apenas onomatopeias ou para criar uma letra em cima da reconhecível melodia. O caso também se aplica a canções como “Kernkraft 400” (Zombie Nation) ou “We Will Rock You” (Queen).

 

“Eu não vou embora”

Por falar em adaptação, temos aqui no Brasil a famosa frase “Eu não vou embora”. É uma simples brincadeira, mas quando inserida na arrebatadora melodia de “Seven Nation Army”, se transforma quase em um hino de resistência.

A versão é notoriamente popular como um canto de fim de festa, mas a fama foi além. Fez até parte do repertório do DJ Alok em sua apresentação na última edição do Rock in Rio.

Presença imponente em shows

Se a canção é um sucesso até para o mundo dos esportes, imagina para a vida de seu icônico compositor?

Apesar de ser uma música lançada pelo duo The White Stripes, Jack a carrega consigo na maioria absoluta de suas apresentações solo. Mais especificamente, é sempre a música final em seus shows, mesmo após o lançamento de diversos novos hits, tanto solo quanto com o The White Stipes e com o The Racounters.

Em entrevista à Rolling Stone em 2018, White explica:

É como se eu precisasse tocar essa música no fim do show. Eu já tentei colocá-la em todos os lugares da setlist, mas ela tem uma atmosfera de encerramento, especialmente quando se trata de festivais.

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