The Used
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Ouça nova versão do disco ao vivo do Pink Floyd!  

Nos anos 2000, poucas bandas embalavam mais as gargantas emo do mundo do que o The Used. Tanto tempo depois, os americanos de Utah estão entre os poucos que continuam firmes e na ativa, e voltaram em 2020 com mais uma obra através do disco Heartwork.

O álbum marca o retorno de John Feldmann (Goldfinger) à produção e o resultado é visível. Soando mais natural e orgânica do que nunca, a banda transmite ao público a energia de ter encontrado um velho amigo em um período diferente da vida — e assim surgem canções como a excelente “Paradise Lost, a poem by John Milton” que soam justamente como a perfeita mistura entre o velho e o novo da banda.

O caloroso reencontro não é exclusividade de Feldmann, já que o disco vem recheado de participações especiais. Mark Hoppus Travis Barker do blink-182 participam respectivamente na radiofônica “The Lighthouse” e na pop punk “Obvious Blasé”, enquanto Jason Aalon Butler (letlive., FEVER 333) e Caleb Shomo (Beartooth) trazem um tom mais agressivo às excelentes “Blow Me”, primeiro single do disco, e “The Lottery”.

Olhando para os quase 20 anos de carreira e, claro, para o futuro em um mundo sem quarentena onde shows insanos possam voltar a acontecer, Bert McCracken nos atendeu por chamada de vídeo para uma conversa sensacional passando por diversos períodos e, em especial, o processo de composição de Heartwork.

Entrevista com Bert McCracken (The Used)

TMDQA!: Oi, Bert! É um prazer enorme estar conversando com você. Sou fã do The Used há tempos e fiquei muito impactado pelo single “Blow Me” por ser uma canção tão agressiva com a presença do Jason, que é incrível. Mas também fiquei muito surpreso com o quanto o álbum é diferente dessa faixa, e queria saber como foi pra vocês fazer um disco tão diverso, com tantas direções. É uma forma de manter as coisas interessantes depois de quase 20 anos?

Bert McCracken: Eu acho que mais do que qualquer outra coisa a gente só queria capturar as influências de todo mundo desde que éramos adolescentes. Então temos tudo, desde o breakdown do hardcore até synthpop dos anos 80, vários extremos em todas as direções. Então, sabe, o nosso maior objetivo foi fazer música que capturasse a essência do momento em que nos apaixonamos pela música, o que pra maioria de nós foi ali na adolescência. Pra mim foi um pouco mais cedo, eu lembro de comprar o Thriller, do Michael Jackson, junto com uns outros 5 discos Pop da época quando eu tinha uns 7 ou 8 anos. Então tem sido uma longa jornada tentando cavar e encontrar de onde nós viemos musicalmente e, sabe, estamos todos no melhor lugar que já estivemos fisicamente, mentalmente e emocionalmente, então eu acho que esse disco foi o mais divertido de fazer e ele soa assim.

É surpreendente também descobrir que quando você está em um lugar bom mentalmente, você consegue ficar mais confortável quando está falando das partes mais agressivas, mais sombrias. Acho que eu tive uma visão mais clara quando tentei recriar esses momentos estando em um lugar mental melhor ao invés de devastado como antes.

TMDQA!: Qual a importância desse amadurecimento, desse lugar mental melhor, no resultado do álbum?

Bert: Eu acho que nesse ponto da nossa carreira a gente está em um lugar mais confortável, em relação à nossa capacidade de escrever música e aos nossos níveis de confiança, sabe? E um pouco de orgulho e arrogância também. [risos] Eu não acho que a gente é a melhor banda do mundo, não há uma atitude de achar que somos maiores do que somos, mas a gente entende o nosso tamanho, sabe? Estamos muito orgulhosos desses últimos 20 anos, e a gente não deixa nada passar batido. Muitas bandas muito, muito boas já se foram, e o fato de ainda estarmos aqui sendo parte da música é algo muito especial pra nós. Realmente especial pra nós.

Presente, passado e futuro

TMDQA!: Isso de vocês ainda estarem aqui é algo que eu queria perguntar também. Como te falei, cresci ouvindo diversas dessas bandas e várias delas não estão mais aqui, como o próprio letlive., ou já estão fazendo reuniões, como o My Chemical Romance. Como você avalia a caminhada que vocês tiveram para se manterem estáveis por tanto tempo?

Bert: Cara, eu acho primeiramente que a gente fica espantado com a nossa carreira. A gente não poderia ficar mais feliz, a gente vê realmente tantas bandas indo e vindo, e estar podendo ainda sair por aí, fazer shows… Essa última turnê que fizemos, em lugares pequenos completamente lotados, bem na cara das pessoas. Todo mundo se molhando no nosso suor, pegando nossos germes. [risos] Que tempo bom!

TMDQA!: [risos] Que saudades…

Bert: Muita! [risos] Mas é, a gente sempre foi uma banda que ama os dois lados igualmente. A gente ama o processo criativo, de ficar no estúdio escrevendo e gravando músicas, e também amamos a tradução disso para o ao vivo. Amamos a interação com os fãs, e achamos que a música é uma verdadeira catarse, quase uma religião; tipo, no sentido de que tanta gente se juntando em um lugar só realmente eleva o espírito, sabe? É tipo uma igreja mesmo, você sai de um show de Rock se sentindo animado e inspirado e você leva isso com você. Isso é levado pro seu dia. Enfim, pra resumir, é uma honra que ainda estejamos aqui, ainda conhecer as pessoas que conhecemos, poder trabalhar com pessoas como o John Feldmann, todos esses artistas.

A gente nunca foi uma dessas bandas que teve vergonha do passado, sabe? Apesar de já termos passado por várias trocas de membros, tipo… A gente ama “The Taste of Ink”, a gente ama o primeiro, o segundo e o terceiro discos com tanto carinho. A gente cultiva essas músicas, essas memórias. Então é uma história que está ficando cada vez mais profunda, e eu amo. Agora vem a cereja do bolo. [risos]

TMDQA!: E recentemente vocês tiveram uma baita viagem nostálgica, quando fizeram um especial com a Loudwire em que assistiam aos clipes antigos de vocês. Foi legal fazer aquilo?

Bert: Essas coisas sempre são meio divertidas, porque você não sabe muito bem onde está se metendo. Na real, depende um pouco de quão cedo é. [risos] Isso foi em um “dia de imprensa” em Nova York, e geralmente essas coisas começam super cedo, e é uma entrevista após a outra. Mas coisas assim são muito divertidas porque, sei lá… Como eu disse, tem banda que evita suas coisas antigas mas a gente sempre abraça as nossas. É muito doido pensar em quanto tempo se passou e quanto esses discos significam pra gente. Especialmente quando a gente se transporta pro momento assim, sabe? Ali em 2001, 2002… É muito incrível e esses vídeos têm memórias muito boas. Não há quase nada ali entre 2000 e 2006, 2007 que eu lembraria e me deixaria triste ou me sentindo estranho, sabe?

TMDQA!: Mas ao mesmo tempo tinha algumas coisas ali que vocês nem lembravam. [risos]

Bert: [risos] Sim! Tem coisa ali que eu não assistia há 15 anos, por aí. Então foi bem legal fazer essa viagem pelo passado.

John Feldmann e participações especiais

TMDQA!: Uma coisa que certamente ajudou a deixar as coisas mais leves e divertidas, como você falou, foi ter uma série de participações no disco, né? Isso é uma novidade pra vocês.

Bert: Cara, o estúdio do John Feldmann é meio que um lugar muito doido e pessoas talentosas e influentes entram e saem de lá todos os dias. O estúdio está sempre aberto, então sempre tem uma ou duas pessoas de bandas aleatórias por lá, e isso ajudou a abrir espaço pra essa coesão criativa com outras pessoas. E nós queríamos realmente expandir nossos horizontes, se você me permite. A gente realmente quis pensar fora da caixinha neste disco e isso significava misturar nossas habilidades em qualquer lugar onde elas pudessem encaixar; acho que quando começamos com “Blow Me”, e foi a primeira faixa que trouxemos um convidado… Sabe, igual você, eu sou um fã enorme, gigante do Jason Aalon Butler desde os velhos tempos, 18 anos atrás, quando eu vi o letlive. pela primeira vez. Ele é um verdadeiro espetáculo, testemunhá-lo fazendo coisas fisicamente exaustivas… Ele coloca sua alma inteira na expressão da arte, o que é incrível.

Então, bem, a gente queria incorporar umas outras ideias e outras mentes quando estávamos trabalhando nessas músicas. E queríamos envolver as pessoas mais apaixonadas e mais envolvidas criativamente que encontrássemos, e os caras do blink sempre foram muito, muito legais com a gente, já fizemos várias turnês juntos nos velhos tempos, com o Boxcar Racer, então… Já conhecemos o Mark e o Travis há quase 20 anos, sabe? E o Caleb é conhecido como esse cara apaixonado, determinado, que trabalha duro pra caramba. É uma força na indústria musical, eu amo a sua voz, e seus gritos são insanos, brutais. Nós pegamos os melhores dos melhores!

TMDQA!: Eu ouvi dizer que são 26 músicas prontas e gravadas dessas sessões do Heartwork, e que há um plano de lançar essas faixas. Quanto esse ambiente do estúdio do Feldmann contribuiu para essa criatividade e vocês já têm uma previsão de quando elas serão lançadas?

Bert: No momento a gente não tem muitos planos, já que o Coronavírus jogou um balde de água fria em tudo… Mas sim, foram quase 30 músicas completas. E todas são razoavelmente escutáveis. [risos] O processo do John Feldmann é incrível atualmente. A gente iria para o estúdio bem cedo, e ficava lá trabalhando furiosamente até terminar uma demo — letras, todas as ideias completas e gravadas. Aí iríamos pra casa e voltávamos pro estúdio no dia seguinte e recomeçávamos o processo sem nem olhar para a demo que fizemos no dia anterior; isso nos deu uma oportunidade de nos mover rapidamente e não ficar pensando muito sobre o processo, sobre as ideias, e deixá-las em repouso por alguns dias até olharmos para aquilo de novo. Sabe aquela coisa de você deixar algo parado por dias e depois você nem lembra mais como era? A gente apertava o play e ficava tipo, ‘Pô, essa é muito legal!’. Tem umas muito legais, eu estou bem empolgado! Mas espero que seja ainda esse ano, talvez.

Turnês com My Chemical Romance e blink-182?

TMDQA!: Tomara! E cara, antes da pandemia voltar, a reunião do My Chemical Romance mostrou quão forte é essa cena que vocês também fazem parte, em questão de público. Era algo que a gente costumava ouvir que não seria duradouro — o pessoal mais purista dizia que era uma moda passageira, que ninguém mais iria ouvir falar de vocês com o tempo. O que você pensa disso hoje?

Bert: Eu sempre me senti absurdamente feliz por ser parte dessa cena. É tudo que eu sempre quis, desde que eu era criança: fazer música e tocar para os outros na estrada. Eu fico mais do que feliz. Mas eu acho que eu sabia que o My Chem estava voltando. [risos] Eu vinha falando disso há alguns anos já. E pois é, toda essa ressurgência dessa música “do coração” mostra que os humanos adoram se perder em arte que te ajuda a passar pelas partes mais sacanas da vida, e eu acho que as músicas deles e as nossas sempre foram sobre o sentimento em primeiro lugar. Claro, que música não é sobre emoções, né? Mas essas músicas se expandem mais ainda nisso. Mas eu mal posso esperar para o mundo voltar ao semi-normal e o My Chem nos levar para aquela grande, gigantesca turnê…

TMDQA!: Peraí! Vocês iam mesmo sair em turnê com eles? Isso nunca foi confirmado, né. Tinham uns rumores por aí…

Bert: É claro que íamos! A gente conhece esses caras… Nossa primeira turnê com o My Chem foi tipo em 2002, a gente os levou pra todo canto. A gente fez a primeira turnê europeia deles, teve uma turnê ali no final de 2001, começo de 2002 que foi… Story of the YearThrice, e nós dois.

TMDQA!: Que sonho.

Bert: [risos] Sim. A gente mal pode esperar para tudo voltar ao normal e podermos fazer tudo isso. E, bom, mesmo que a gente não esteja tocando nesses shows os fãs do The Used podem imaginar que a gente está lá, porque é claro que estamos. [risos]

TMDQA!: E antes dessa pandemia vocês tiveram que cancelar uns shows na Europa porque vocês tinham “grandes notícias”, mas não chegaram a dizer do que se tratava. Você já pode contar?

Bert: Bom, a gente ainda está se apoiando bastante nessa notícia do My Chem. A gente acha isso bem engraçado, é um ótimo rumor para ficar espalhando. [risos] A verdade é que nos ofereceram uma turnê com o blink-182 durante o Verão, que conflitava com as datas europeias. E esse é o tipo de oportunidade que não aparece toda hora, então a gente fechou isso. Mas acho que eles vão remarcar, deve ir para o próximo Verão. O que parece tão longe… [risos] Mas faremos o preciso para estar lá, e também de volta à Europa porque parece que a gente já cancelou com eles algumas vezes. Então quando pudermos voltar a gente vai pensar em algo bem especial para eles, em especial os países que foram atingidos fortemente pela pandemia como a Itália.

Passagens pelo Brasil

TMDQA!: Essa cena emo — ou o que a gente se refere como emo, que inclui vocês, o MCR e tudo mais — sempre foi muito forte aqui pelo Brasil e vocês têm muitos fãs no Brasil. Mas a última passagem foi em 2012! Já estão com saudades daqui? Pretendem voltar, depois da pandemia?

Bert: A gente só teve algumas viagens para o Brasil e elas são algumas das memórias mais incríveis que temos como banda. Estou tentando lembrar se a última turnê por aí foi a com o Evanescence, que foi INSANA. [Nota: Foi.] Essa turnê aconteceu nas mesmas cidades e dias que o Linkin Park, e em algumas a gente chegou a vender mais ingressos que eles. Eu acho que no Rio foi assim. Então foi um momento insano, cara! Em Fortaleza, Curitiba, alguns lugares mais desconhecidos que se eu falasse pra minha mãe onde eu estava ela não faria ideia de onde é… O show em Fortaleza foi um festival gigantesco, que teve o Pitbull e uma galera. [risos] E a gente tocou tipo 5 da manhã! Foi fantástico, que momento bom. Bem na beira da praia, várias piscinas, comidas bonitas, pessoas bonitas…

A gente mal pode esperar pra voltar aí! Assim que abrirem os portões — e infelizmente não temos nem ideia de quando vai ser isso — eu acho que os shows de rock vão ser uma coisa tão bonita de se ver. Quando você tira algo de um ser humano, ele fica desesperado por aquilo. E acho que todos nós que estamos sentados em casa agora estamos desesperados para voltar à experiência de um show ao vivo. Eu já cansei de internet, já tive o suficiente. [risos]

TMDQA!: [risos] Por aqui também, viu. Bom, pra fechar, o nome do nosso site é Tenho Mais Discos Que Amigos e eu tenho aproveitado isso para perguntar algo muito importante aos artistas: qual disco tem sido seu melhor amigo durante essa pandemia? Não vale falar o Heartwork, hein. [risos]

Bert: [risos] Acho que eu tenho ido muito ao passado. Procurado coisas que eu amo e que soam familiares pra mim, sabe? Mas o novo disco da Fiona Apple [Fetch the Bolt Cutters] é tão bom, é maravilhoso. Eu amei o último álbum dela demais, e eu fiquei muito feliz que ela expandiu essa sonoridade e a elevou a algo ainda mais mecânico e bastante natural em questão de produção. E ainda tem a questão das letras, que são as mais provocativas, de revirar o estômago mesmo. Ela é uma verdadeira feiticeira da música e tenho ouvido o tempo todo.

Ah, e o novo da Hayley Williams também! Tá legal pra caramba. Na real tem tanta música boa nova que eu poderia listar uns 20 discos aqui, muita coisa boa saindo.

TMDQA!: Acabou o nosso tempo, então queria só finalizar te agradecendo mais uma vez pela música do The Used e pelo ótimo papo. Espero que a gente se veja por aí logo mais e, se quiser, deixa uma mensagem para os fãs brasileiros!

Bert: Eu que agradeço! A todos os fãs brasileiros, que nos apoiam desde o primeiro dia, a gente está mandando todo o nosso amor pra vocês e pedimos pra que vocês fiquem seguros. Ouçam os especialistas, fiquem seguros, por favor. A gente deve tudo a vocês e amamos muito vocês!