Titãs (Tony Bellotto, Branco Mello e Sérgio Britto)
Tony Bellotto, Branco Mello e Sérgio Britto. Foto: Divulgação
 

A ampla e diversificada cena do rock brasileiro deve muito ao movimento dos anos 80. Foi neste momento que o gênero assumiu sua face mais popular, dominando as rádios e a cabeça das pessoas. E muitos dos grupos que nasceram naquela década continuam ativos e nos presentando com material novo. O Titãs, por exemplo, acabou de lançar Titãs Trio Acústico EP 1.

Em sua atual fase, a banda é formada por Tony Bellotto, Branco Mello e Sérgio Britto, três dos membros originais desta família que é o Titãs. Eles assinaram com a gravadora BMG e entraram de cabeça no projeto, que consiste no lançamento de três EPs até o fim do ano. O resultado final vai ser um disco completo, com novas versões de vários hits lançados pela banda ao longo das últimas três décadas!

 

“Um resumo do que é o show”

O primeiro EP do projeto contempla faixas como “Sonífera Ilha” (que ganhou até clipe), “O Pulso“, “Miséria” e “Família“. Com uma narrativa pensada e com o objetivo de passear por diversos momento da carreira do grupo, o lançamento nos deixa ainda mais ansiosos pelo o que está por vir.

Mas como será que a banda enxerga essa atemporalidade que o nome “Titãs” carrega na música brasileira? O que será que está reservado para o futuro da parceria entre a banda e a BMG? Sobre essas e mais questões, tivemos a oportunidade de conversar com Tony Bellotto por telefone.

Confira abaixo a entrevista na íntegra:

Tony Bellotto
Foto: Divulgação

TMDQA!: Como foi o processo de seleção das músicas? A ideia é lançar EPs tematizados?

Tony Bellotto: Na verdade, a gênese deste trabalho foi o show “Titãs Trio Acústico”, que começamos a fazer no começo de 2019. Tínhamos acabado de lançar a nossa ópera rock do Doze Flores Amarelas. E desde 2017 os fãs nos cobravam uma comemoração dos 20 anos do show do Acústico MTV. Começamos despretensiosamente a fazer em alguns teatros em São Paulo, e os shows tiveram uma repercussão muito positiva. Passamos o ano inteiro fazendo os shows. A partir de um certo momento, a gente resolveu registrar essas músicas em estúdio. Fizemos um contato com a BMG, uma gravadora alemã que voltou para o Brasil com uma postura muito interessante de trabalho e bem adequada aos tempos atuais. Eles deram a ideia de dividirmos o disco em 3 EPs, resultando no disco completo no fim do ano.

O que norteou a gente para o repertório de cada EP, respondendo à sua pergunta, foi um resumo do que é o show. As músicas que estão sendo lançadas são músicas que formatam o show. As apresentações têm uma dinâmica própria. Começam comigo, com o Branco e com o Britto fazendo algumas músicas no piano, guitarra e baixo. Depois fica um momento em que cada um de nós faz algumas músicas sozinho e, na parte final, o Mário Fabre e o Beto Lee entram, respectivamente na bateria e no violão, e terminamos em grande estilo.

Cada EP tem um pouco dessa dinâmica do show. Neste agora, inserimos algumas músicas que são tocadas pelos três: “Sonífera Ilha”, “Por Que Eu Sei Que É Amor”, “isso” e “O Pulso”. Depois, vai uma de cada um. O Britto toca “Miséria”, eu toco “Querem Meu Sangue” e o Branco toca “Tô Cansado”. Já “Família” é com todos tocando, inclusive o Mário e o Beto. Esse formato se repete nos três EPs, com músicas diferentes, é claro, mas respeitando o roteiro do show.

TMDQA!: É muito interessante ver que as músicas escolhidas contemplam momentos diferentes da carreira de vocês. Passa pelo A Melhor Banda de Todos os Tempos, pelo Sacos Plásticos… Eu achei que foi uma escolha bem redonda.

Tony: Quando sair o disco completo, a ideia vai ser bem essa mesma. Tem desde o nosso primeiro sucesso, que é “Sonífera Ilha” até músicas da ópera rock. Tem coisas da carreira inteira. O Acústico MTV, nesse sentido, foi um marco muito importante para a nossa carreira. Muitas das músicas que foram gravadas nesse disco estão neste novo trabalho. Claro que os arranjos são diferentes. Muitas coisas que fizemos depois do Acústico se adequam muito a esse formato, como é o caso de “Por Que Eu Sei Que É Amor”, “Isso”, “Epitáfio”… A gente também colocou alguns dos nossos rocks clássicos que, a princípio, não teriam nada a ver com a proposta, mas que ficaram legais nessa roupagem. É o caso de “Polícia” e “Bichos Escrotos”. Acho que esse trabalho dá uma visão dos nossos 30 anos de carreira.

Logo depois que o EP saiu, eu reescutei e, realmente, a qualidade técnica está muito boa. A gente caprichou muito na gravação em estúdio. Isso é algo que, em gravações a vivo, a gente não consegue obter. A gente pretende, no segundo semestre, fazer a gravação audiovisual do show, para ajudar a registrar esse momento de todas as formas. A gente está muito feliz em fazer isso, porque tem um aspecto revisionista, mas também traz uma novidade, uma carga de inovação, especialmente no show, que se difere da maioria dos shows acústicos, porque a gente conta muitas história, falamos situações da carreira, sobre como aquelas músicas foram compostas… A gente está bastante motivado e animado!

TMDQA!: Que tipo de sentimentos esse momento de “revisitar” o repertório está causando nos Titãs? O próprio novo clipe de “Sonífera Ilha” é muito icônico e conta com participação não só da galera da música, como os Paralamas do Sucesso e Lulu Santos, mas também atores como Fábio Assunção e Fernanda Montenegro. Aliás, são regravações de músicas que marcaram gerações e impactam as mais jovens também.

Tony: A ideia do clipe foi essa mesma: trazer pessoas que têm a ver com a gente e com a nossa história de quase 40 anos. O clipe foi lançado em um momento em que coincidiu com o início dessa quarentena angustiante. Aquilo fez muito sentido dentro dessa situação, porque a gente percebeu que a letra também pode ser uma reflexão sobre tudo isso. A nova versão nos fez revisitar nossas composições e relembrar desses momentos! Foi emocionante lembrar e reviver cada arranjo, cada época, cada lembrança… E se isso acontece com a gente, também acontece com o público. As pessoas ficam muito emocionadas nesse show porque as músicas podem dizer respeito a momentos vividos por cada um. O show é muito emocionante por desenvolver essas sensações.

 

“Já tivemos até músicas censuradas”

TMDQA!: Como vocês enxergam a atemporalidade das músicas? Vocês imaginavam que essas composições envelheceriam tão bem?

Tony: De maneira nenhuma! Na época em que fizemos essas músicas, a gente nunca imaginou que elas envelheceriam tão bem. Quando começamos a carreira, a gente não imaginava que duraria mais que um ano (risos). Mas a gente vivia aquele momento com muita intensidade, assim como fazemos hoje. A banda atraía todo o nosso tempo, energia e emoção. A gente passava o dia inteiro compondo. Hoje, ver isso é muito gratificante. Já vimos um pai com um filho que se chamava Marvin por causa da música. Recompensas como essa são as melhores coisas que poderíamos ter por todo esse trabalho. Eu acho que temos um repertório muito grande e significativo.

TMDQA!: Por falar em repertório significativo, ao olhar a tracklist, eu logo lembrei do episódio que vocês viveram recentemente, que envolveu o uso indevido de “O Pulso” em uma convocação para uma manifestação de extrema-direita. Como foi o desenrolar dessa história e como vocês enxergaram essa história toda? Aliás, parte significante do trabalho dos Titãs está diretamente ligada a questões sociais e políticas.

Tony: Foi terrível para nós. Aconteceu durante o Carnaval. Eu fui assistir ao desfile no Sambódromo (RJ) e, ao chegar em casa, um amigo me mandou a propaganda daquela manifestação ao favor do governo usando a nossa música. Durante a madrugada, eu já tinha enviado o vídeo para o Britto e para o Branco e já tinha acionado advogado, que entrou em contato com o advogado do Arnaldo (Batista). Realmente foi um choque vermos a nossa música sendo usada desta forma, já que sempre fomos ativamente democráticos. Defendíamos o fim da ditadura e já tivemos até músicas censuradas por conta disso. Depois de toda essa trajetória, foi no mínimo estranho vermos nossa música sendo usada por um governo de extrema direita, reacionário e antidemocrático.

Existe uma lei, muito dúbia, que diz que, se você faz uma gravação própria, uma paródia, você pode usar a música à revelia da autorização ou não do autor. Mas não foi o caso. Eles usaram nossa obra. A gente ainda ficou de se reunir depois para ver se dava para entrar com outras medidas legais, mas é muito difícil descobrir quem devemos processar. O mais importante é que aquilo foi retirado do ar.

 

“Quando existe essa consciência coletiva, aí as coisas funcionam melhor”

TMDQA!: O Titãs é uma banda que já chegou a ter 9 membros simultâneos, e a atual formação é a que tem o menor número de membros. Como está sendo essa experiência, e quais as principais diferenças em relação aos esquemas antigos da banda?

Tony: A vantagem é que é muito mais fácil tomar as decisões e que sobra mais dinheiro para dividir (risos). Nós três temos uma postura muito bacana de ter um amor muito grande pela banda. Se fossem me perguntar há 20 anos, quando tínhamos formação de 6, 7 membros, se a gente sobreviveria como um trio, dificilmente eu concordaria. Mas, com o Titãs, aconteceu um fenômeno muito interessante. Com a primeira saída, que foi a do Arnaldo em 1993, tivemos uma crise muito grande. Ficamos inseguros, sem saber se conseguiríamos nos ver como uma banda e nem se os fãs aceitariam a gente com um integrante a menos. Nestes momentos, se impôs uma força coletiva muito grande, como se a banda fosse uma entidade à parte. A gente prosseguiu e fizemos grandes trabalhos.

Depois, como é natural em uma banda com tantos integrantes e com tanto tempo de estrada, várias outras mudanças foram acontecendo. A morte do Marcelo, que foi uma tragédia, foi um outro momento em que não soubemos se conseguiríamos ou não continuar. Depois foi a saída do Nando [Reis], do Charles [Gavin]… A gente continuou porque o espírito da banda permanece muito forte, e acho que o público percebe isso.

TMDQA!: Isso é sensacional! Eu acho que o Titãs é uma verdadeira entidade, por ser uma coisa que se estende ao longo do tempo. Eu consigo traçar um certo paralelo com o Barão Vermelho, no sentido de que continua com a mesma essência apesar da troca de membros.

Tony: O que dá a alma dessa entidade não são as pessoas. São as músicas. Titãs nada mais é do que uma banda com repertório, e é isso que as pessoas vão ver e gostam. É isso que funciona, independente de quantas pessoas estejam em cima do palco e de quem sejam elas. Fomos percebendo isso ao longo do tempo. A gente tem uma tendência de achar que uma banda são as pessoas que a formam, mas não é.

O Barão Vermelho é um ótimo exemplo disso também! Internacionalmente, eu vejo muito disso no Pink Floyd. Eles são uma banda que já teve muitas formações. Se você coloca o show do Pink Floyd em um estádio, as pessoas vão lá sem se importar se a formação no palco é a mesma do Dark Side Of The Moon. Ele sabe que vai ter aquelas músicas e que vai sentir essa emoção.

TMDQA!: Na sua visão, qual é o segredo para a longevidade dos Titãs?

Tony: Eu acho que existe um amor muito grande pelo que a gente faz, além de uma consciência de que o que a gente junto é mais forte do que a gente faz sozinho. Temos uma amizade muito grande e um respeito enorme uns pelos outros, mas o que mantém a gente junto é a consciência da importância desse trabalho, de como ele funciona coletivamente e do quanto a gente gosta disso que a gente faz. Um exemplo clássico de um caso em que isso não ocorreu foi o The Clash. Foi uma banda muito importante para nós no início dos anos 80. Era uma banda fantástica, mas que teve uma vida muito curta, por causa da incompatibilidade entre os integrantes. Depois do fim, eles mesmos reconheceram que o que eles faziam juntos era melhor. Nestas horas, é preciso mais sangue frio.

A dinâmica das bandas é sempre complicada, porque o convívio é difícil mesmo! Imagine, então, quando são 5 ou 6 integrantes! Cada um quer uma coisa diferente. Mas quando existe essa consciência coletiva, aí as coisas funcionam melhor.

 

“É preciso se diferenciar”

TMDQA!: Hoje em dia, vivemos tempos muito efêmeros onde as coisas não duram muito. Essa contradição, do Titãs ser uma banda que se estende no tempo, é muito interessante para refletir. Existem muitas bandas hoje em dia que duram pouco, independente do sucesso que alcançam. Acho que essa rapidez reflete um pouco da correria que é a nossa sociedade atual. Que dica você daria para a galera nova da música ter paciência e conseguir se manter e deixar sua marca?

Tony: Além de uma velocidade maior dos acontecimentos, eu acho que o formato pelo qual a música é veiculada dificulta a permanência das bandas. Quando a gente começou ainda era a época do vinil, nos anos 80. Quando uma banda começava a se destacar no circuito, ela fechava um contrato com uma gravadora para dois três discos. Aquilo proporcionava calma, uma paz mínima de ter uma garantia de trabalho por algum tempo. Os artistas passavam tempo pensando nos conceitos, compondo as faixas, gravando e entrando em turnê para divulgar o disco. Hoje em dia, com todas essas mudanças, as coisas são mais efêmeras. Você faz uma música, grava e lança logo na internet. O conceito do álbum tem caído cada vez mais. A gente tem se esforçado para lançar EPs, com músicas ainda junta, mas isso tem se mostrado cada vez mais raro.

Acho que algumas bandas acabam durando pouco hoje em dia porque as pessoas não conseguem mais viver daquilo. Consequentemente, acaba que você não consegue o tempo necessário para se dedicar até aquilo virar uma coisa interessante. O que a gente fez, lá no início, foi ralar muito até conseguirmos o nosso primeiro contrato. Sentíamos que estávamos fazendo algo interessante, por mais que tenha demorado para dar certo. Acho que o artista precisa ter perseverança. É preciso enfrentar o sacrifício. Você não consegue criar um repertório interessante se você não se dedica. Existem muitos músicos bons, que conseguem tocar como qualquer outros. No entanto, para criar um estilo próprio e característico, é preciso dedicar seu tempo. O meu conselho sempre foi isso: dedicação e criar uma identidade. Só assim uma banda consegue destaque.

É preciso se diferenciar. Quando a gente começou, foi difícil, porque éramos uma banda numerosa e não havia dinheiro que desse conta. A gente fazia um show, ganhava um cachê baixo e tínhamos que dividir entre nove pessoas (risos). Mas a gente foi percebendo que a gente era único justamente por isso. Não entendiam também nosso estilo musical. Não sabiam se a gente era brega, punk, new wave… Tudo isso foi formando a nossa personalidade artística. É preciso um certo tempo para a pessoa inventar isso. A música não vem pronta. Essa história de inspiração é só uma fagulho inicial. O resto é trabalho árduo. Não se cria uma banda e, quinze dias depois, você está fazendo grandes shows e muito dinheiro. É preciso ter essa força sacrificante!

TMDQA!: Você falou sobre a segurança que uma banda tem ao ter contrato com uma gravadora. Nesta nova fase, vocês estão com a BMG. Você acha que isso é um incentivo para que, em breve, tenhamos um novo disco de inéditas do Titas?

Tony: É uma ideia. Essa questão da criação sempre foi um trunfo para os Titas. A gente é tão criativamente inquieto que cogitamos colocar algumas inéditas no último EP deste projeto. Na ópera rock, nós apresentamos 25 músicas inéditas, indo na contramão do mercado. É uma coisa que naturalmente vai acontecer depois desse projeto. Nesse sentido, a parceria com a BMG foi algo ótimo que aconteceu, porque eles já trabalham com parâmetros atuais do mercado. Hoje em dia é preciso uma outra dinâmica. A gente sempre quer se superar fazendo algo diferente. É isso que mantém a gente vivo.