Emicida
Foto: Julia Rodrigues
 

Ao mesmo tempo em que os avanços tecnológicos denunciam uma sociedade cada vez mais conectada, o individualismo tem se mostrado gritante. Esse paradoxo tem resultado em discussões que refletem temas sociais e políticos.

Em pleno Brasil de 2019, as diferenças têm mais força do que as semelhanças. No entanto, em um país de dimensões continentais e marcado pela miscigenação cultural, isso é preocupante.

Dito isso, o que nos resta de conexão? Qual é o elo que ainda une os humanos?

A resposta está em AmarElo, o mais novo disco de Emicida. Com a visão de que o amor é o segredo de tudo, o disco quebra as expectativas dos fãs que esperavam por um álbum “porrada”, como alguns lançamentos recentes do rap nacional. Na contracorrente, Emicida usa o amor como arma, em um trabalho que estimula a calma e o autoconhecimento.

 

“As maiores conquistas da humanidade são coletivas”

Conversamos com Emicida sobre o novo disco. O rapper nos contou sobre as origens de AmarElo e sua relação com o momento que estamos vivendo. Ele também falou de detalhes interessantes que ajudam a construir a atmosfera das novas músicas, como referências estéticas e as ótimas participações especiais.

Confira abaixo o papo na íntegra:

Emicida
Foto: Julia Rodrigues

TMDQA!: Estamos vivendo um caos social e político. Para quem tem voz, é um momento certo para propor mudanças, movimentação e eu diria até que rebeldia. Temos visto isso em vários álbuns que foram lançados este ano. Você, um dos rappers mais consagrados da cena brasileira, optou por ir na contramão, usando o amor como arma unificadora. O amor é esse elo. Como essa ideia surgiu?

Emicida: O tempo de caos é uma característica da nossa época. Nunca fomos tão bombardeados por tantas informações. Esse bombardeio acaba produzindo uma sensação de confusão e de desespero maior ainda. No meu entendimento, precisamos falar sobre temas que considero importantes e urgentes, de uma forma mais direta, de uma forma que pode ser interpretada como mais agressiva. Se a gente não refletir sobre as questões que roubam a nossa humanidade de nós, não adianta nada a gente apelar para a política, seja de um espectro ou do outro. A nossa desumanidade está instituída.

Não vai haver uma solução se a gente não refletir a respeito de nossa humanidade. Ela foi destituída de nós, e nós dela. Precisamos fazer uma conexão com a humanidade enquanto sentimento para construirmos, novamente, sonhos coletivos, que é uma coisa que foi completamente destruída pela coisa de transformar o agora em uma característica divina do nosso tempo. Esse monte de informação faz com que a gente fique preso no agora. A gente não sonha mais com o futuro, especialmente com o futuro coletivo. As redes sociais e a cultura do tempo como um todo acabou fazendo a gente endeusar uma individualidade que não se sustenta, já que as maiores conquistas da humanidade são coletivas.

TMDQA!: Dado esse contexto, qual foi o objetivo principal do disco?

Emicida: Em AmarElo, eu quero mostrar, primeiramente, que precisamos de um símbolo forte para fazer as pessoas acreditarem de novo. No Brasil do pós-2013, infelizmente, a gente sonhou muito, mas fomos sequestrados pelo ódio nos organizamos em torno do “não”. “A gente é contra”, “A gente odeia”, “Contra tudo e contra todos”… Não estou dizendo que essas coisas não tiveram valor, mas não conseguimos construir. Sacou? Acho que não conseguimos alcançar a maturidade que o pós-luta exigia.

Em um tempo de tanta vaidade, individualismo e exposição, ninguém quer dar o braço a torcer e dizer que está errado. Mudar de ideia se transformou em algo muito perigoso. AmarElo nasce em um momento onde dou um passo para trás para tentar entender onde estamos e para sugerir que precisamos ter uma abordagem diferente das coisas. Precisamos falar sobre conexão. Estamos muito desconectados. Se a gente continuar assim, daqui a pouco estaremos em frangalhos.

TMDQA!: Nesse contexto, é interessante surgir um disco como o AmarElo, que provoca uma reflexão de “por que estamos aqui?”. Ele traz essa questão de raízes, de origens…

Emicida: Tem uma irmã lá de Minas Gerais. O nome dela é Áurea Carolina. Uma vez, ela falou algo muito louco sobre acesso. A gente tem umas reflexões sobre acessos e sobre direitos, mas quem pode acessar os direitos? O cidadão. A gente precisa refletir sobre quem é considerado cidadão. O que é um cidadão e quem se considera um? Aí cabem várias questões existenciais mesmo. De nós enquanto sociedade. Se não conseguirmos resolver essas questões de forma madura, se não nos conectarmos sobre esses assuntos urgentes, se a gente não conseguir chegar um lugar melhor ao falarmos sobre racismo, sobre identidade de gênero ou desigualdade social, a gente vai mergulhar em um abismo que vai se mostrar cada vez pior. Para mim, essas questões que permeiam o disco inteiro, que são sentimentos positivos de conexão, se fazem mais urgentes para tratarmos neste momento.

As pessoas têm a tendência de dizer que o Emicida voltou “sereno”, “calmo”, “menos político”… As pessoas falam como se esperassem que eu chegasse cantando um jingle político de algum partido, e não é isso que eu faço. O que eu faço é sugerir reflexões com a minha música. O que eu acho que a gente tem que fazer nesse momento é recuperar a calma, que é a primeira coisa que nos roubaram. A rotina é muito corrida e precisamos sempre estar nos virando para conseguir dinheiro. Sem calma, ninguém pensa direito. Nesse sentido, eu acho que a serenidade é revolucionária. Sabe aquele momento em que você tretou com alguém porque estava com a cabeça quente e depois de um tempo pensou de maneira diferente sobre a situação? Quero fazer com que as pessoas pensem direito. Várias pessoas, que no fundo concordam entre si, estão brigando.

 

“O ódio engaja muito mais do que o amor”

TMDQA!: Socialmente, AmarElo é um disco muito importante. Não apenas por causa do que estamos vivendo, mas para a vida de um ser humano no geral. As músicas propõem calma, esperança… É quase um respiro.

Emicida: É isso mesmo! Você usou a melhor palavra. É um respiro, é um parênteses (risos). AmarElo são parênteses que protegem a gente do resto do texto, que não está legal.

TMDQA!: Eu fico imaginando o quão importante pode ser para uma pessoa ouvir, por exemplo, que “o sol só vem depois” ou que “você vai sair dessa prisão e correr atrás desse diploma”… É como, literalmente, pedir para a pessoa respirar. Algo como “Você está fazendo a sua parte e é isso que importa”.

Emicida: Os nossos pais e avós vivenciaram momentos dramáticos, tristes e violentos na história do país. Eles viveram histórias que pareciam filmes de terror. Ainda sim, eles conseguiram segurar na nossa mão e, através do afeito, fizeram com que a gente tivesse a visão de mundo que a gente tem hoje. Eu não posso permitir que a mesquinhez e a pobreza de espírito acabe com a grandeza desses homens e dessas mulheres que fizeram a gente chegar sereno até aqui. Eu não posso permitir que uma coisa tão grandiosa seja sequestrada pela pobreza de espírito. Nesse sentido, a serenidade que essas pessoas me passaram é algo revolucionário. É nisso que estou acreditando. Se eu conseguir fazer com que as pessoas se acalmem, respirem e olhem para o outro, eu acho que a gente começa a construir uma parada muito bonita.

TMDQA!: É isso mesmo! O que aconteceu de ruim não tirou as coisas boas que nos unem.

Emicida: Inclusive, quando você joga luz nas coisas boas, você faz as pessoas terem motivos para lutar para que elas aumentem. A ideia é que mais pessoas tenham acesso às coisas boas. Eu bato muito na tecla do ódio sequestrar a nossa linha de raciocínio. Nas redes sociais, o ódio engaja muito mais do que o amor. O mundo inteiro está vivendo uma experiência digital exagerada. Estamos presos dentro de um ambiente onde a linguagem é o ódio. Você passa a crer que aquilo é a única coisa que existe agora. A gente precisa sair um pouco, dar um passo para trás para respirar.

 

“Essa saudade dolorida, esse sonho de vitória, de vencer…”

TMDQA!: Temos como exemplo a própria história rica da música brasileira. Acredito que seja da vontade da grande maioria dos artistas lutar para enriquecê-la ainda mais.

Emicida: Quando você olha a música brasileira, ela conseguiu criar, nessa atmosfera que permeia todo o disco, com uma maestria gigante! Vai escutar o Cartola! Vai escutar Chico Buarque, Caetano [Veloso], Luiz Carlos da Vila. Clementina de Jesus, Clara Nunes, Elis Regina, Elizeth Cardoso… Essa sensação do samba dolente, essa saudade dolorida, esse sonho de vitória, de vencer… Esse lugar que essas pessoas almejavam em suas composições. Por mais que atravessassem tempos difíceis, eles sonhavam com vitórias muito pequenas. Por isso que temos uma música chamada “Pequenas Alegrias da Vida Adulta“.

A gente está com a visão cheia de nuvens. Proibiram-nos de ver as coisas que importam de verdade. A gente já percebeu isso várias vezes, e a música, que para mim é a grande bússola e o grande livro de história deste país, já apontou para esse lugar várias vezes. Faz as pessoas pensarem de mil maneiras a respeito de uma situação. É isso que eu quero fazer. Eu cresci ouvindo esses caras. O que eu quero é fazer um disco que dê orgulho para os meus netos.

TMDQA!: Acredito que a nossa geração realmente estava precisando disso. A própria faixa exclusiva do Deezer tem essa proposta. Em um mundo onde todo mundo quer ficar falando o tempo inteiro, o silêncio é basicamente uma atitude transgressora, onde você consegue refletir.

Emicida: Sabe aquela mina Marina Abramović? A arte dela tem muito isso da observação. A relação é algo que está muito presente no disco como um todo, porque fala de como você se relaciona com coisas simples, que muitas vezes são entendidas como desnecessárias para quem está querendo ter dois milhões de seguidores. Eu queria que as pessoas olhassem para as plantas nascendo de novo, porque é fascinante admirar o ciclo da vida.

Sobre a “Silêncio“: sabe aquele maestro, o John Cage? Ele tem um movimento chamado “4’33”“, onde ele não toca. Ele entrava no palco, as pessoas aplaudiam e ele as observava. As pessoas ficavam ansiosas pelo espetáculo, mas o ponto ali não era a canção. Era a reação das pessoas, era ver como elas se relacionavam com o silêncio. Quando você fica em silêncio, você começa a escutar outras coisas. Primeiro a gente sente uma ansiedade desgraçada, porque não conseguimos hoje ficar 30 segundos sem receber uma informação. A gente precisa acalmar de novo. Calma, parça! Só se conecta. Ouve você mesmo. Sente. Essa é a porta de entrada para a atmosfera do AmarElo. Você precisa se acalmar. Só escuta e “vamo que vamo”.

 

“O Brasil possui histórias grandiosas”

TMDQA!: Queria que você me falasse mais sobre as participações. Nos seus discos anteriores, isso já foi um elemento muito bem explorado. Em AmarElo, no entanto, sinto que isso foi potencializado. Cada participação tem um papel fundamental e profundo, indo desde nomes pop Pabllo Vittar até a inusitada participação de Fernanda Montenegro. Como essas ideias foram aparecendo?

Emicida: Eu sempre me concentro na história e na sensação que eu gostaria de passar. Quando eu comecei a elaborar, por exemplo, a “Principia“, eu pensei em nomes que pudessem trazer essa atmosfera da fé, da grandiosidade. É bonito pra caramba a gente botar um bando de macumbeiro tocando junto com um pastor, porque no fundo eles são iguais. E aí tem também as pastoras lá da Igreja do Rosário, e o estúdio inteiro se transforma em uma igreja. E isso tudo está registrado de um jeito tão profundo que, quando as pessoas escutam, elas se arrepiam, choram, se emocionam, porque sentem a espiritualidade delas aflorando, sem necessariamente passar por nenhuma instituição religiosa.

Fernanda Montenegro é a maior atriz viva que a gente tem. Quando ela empresta a voz dela para contar uma história, o que ela está fazendo é mostrar para as pessoas, nesse tempo em que estamos vivendo, como o Brasil possui histórias grandiosas. Tanto ela, quanto o Emicida, quanto o Afonso de Guimarães, quanto o Nave (produtor do disco) são daqui. Se a gente consegue produzir algo tão grandioso e sofisticado, como que a gente se deixa ser sequestrado pela pobreza de espírito?

TMDQA!: O disco vai desenvolvendo uma certa auto confiança, quase que de forma narrativa mesmo. Parece que as mais “dedo na ferida” ficaram para o final. Ele começa com o eu-lírico pensando em Buda calmo, enfatizando que “tudo que nós tem é nós”, e termina com a provocação “se o gueto acorda, o resto que se foda”. Foi essa a intenção mesmo?

Emicida: É isso (risos). Quem pode derrubar alguém que acredita em si? A partir do momento em que temos amor, fé e serenidade, a gente se transforma em um gigante, mano. Do começo de “Principia” até a última frase do disco, é isto, o disco é um mapa. Não é um ponto de reflexão ingênuo que não se conecta com a realidade. É um treinamento de mestre de kong fu na mais alta montanha do Tibete (risos). Você vai se conectar consigo mesmo e com o universo, e aí sua grandiosidade vai aflorar. Você vai racionar a essência humana de novo e entender a humanidade como sentimento de grandeza.

     
 
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