Laure Briard no clipe de Jorge
 

Por Nathália Pandeló Corrêa

Laure Briard trabalha com música desde 2005, lançou dois álbuns e virou nome reconhecido na cena europeia. Mas talvez seja só agora que o público brasileiro se torne de fato familiar com sua voz. Em junho, como você já viu aqui no TMDQA!, a artista francesa lançou o EP Coração Louco, com produção de Benke Ferraz (Boogarins) e dedicado a uma de suas maiores inspirações: Jorge Ben. Hoje, Laure entrega o primeiro clipe do trabalho, para a canção “Jorge”. Abaixo, você confere o vídeo e uma entrevista exclusiva com ela.

O EP gravado em Mogi das Cruzes, com a ajuda dos músicos brasileiros Dinho Almeida (violão, guitarra e vozes) e Ynaiã Benthroldo (bateria e percussão), também do Boogarins; e de Danilo Sevalli (teclas), da Hierofante Púrpura, tem uma aura brasileira retrô. Todas as músicas são cantadas em Português e, como entrega a própria Laure, “Jorge” é a verdadeira declaração de amor para Ben, em versos como “Jorge, o meu coração treme por você / Sinto uma união cósmica com você…”.

O clipe, porém, bebe de outras fontes: a gravação aconteceu em Lisboa e ficou a cargo da também cantora Michelle Blades, com quem Briard fazia uma turnê no meio do ano. “Não tínhamos um plano para o clipe, mas assim que eu vi esse prédio, de um amigo que estava nos hospedando, eu vi que iríamos conseguir imagens bonitas com aquela linda iluminação, cores e a forma de Laure olhar para a câmera”, conta Michelle.

O EP Coração Louco mostra uma guinada no trabalho de Laure, que conta ainda com os discos Révélation (2015) e Sur la piste de danse (2016). Antes disso, em 2013, lançou seu primeiro EP com a ajuda de Julien Barbagallo, do Tame Impala.

Confira o clipe de “Jorge” e, logo abaixo, a entrevista com Laure Briard!

TMDQA!: Coração Louco é o seu primeiro trabalho “oficial” em português, mas imagino que sua relação com Jorge Ben e a música brasileira venha de bem antes disso! Como esses dois caminhos distintos se cruzaram?

Laure Briard: Eu tenho um amigo, Julien Gasc, que um dia, alguns anos atrás, me emprestou seu tocador de MP3. Ele é um super pesquisador, me fez descobrir tantas bandas obscuras. E, no MP3 dele, tinha muitas músicas de Vinicius de Moraes e Tom Zé. Foi assim que descobri a música brasileira. Depois disso, comecei a procurar coisas por conta própria. Eu fiquei louca por Astrud Gilberto e outros artistas, inclusive Jorge. Há algo nessa língua que é muito poderoso e bonito. Aprendi, assistindo muitos documentários, a história do samba, da bossa e da Tropicália. Me sinto muito conectada a isso, e não sei explicar porquê. Talvez tenha algo a ver com minhas vidas passadas.

TMDQA!: Pra construir essa aura psicodélica que é retrô e bem orgânica ao mesmo tempo, você trouxe o Benke Ferraz, do Boogarins, um representante dessa nova safra psicodélica brasileira. Como foi buscar uma ponte entre o passado da obra do Jorge Ben e o cenário atual, sem deixar de lado a sua própria identidade?

Laure: Não buscávamos algo em especial. Eu cheguei com algumas canções que gravei sozinha, no meu apartamento em Toulouse. Com o meu toque. Eu disse ao Benke que poderia ser ótimo trazer um som diferente para esse EP, que não fosse um clássico Laure Briard. Eles (Benke e os Boogarins) me trouxeram uma vibração muito especial de samba psicodélico. E o modo como Benke fez a mixagem é também muito importante e deu o toque final. Combinou muito bem, e tudo aconteceu de forma fácil e muito natural.

TMDQA!: Embora o EP tenha uma aura brasileira vibrante, o clipe de “Jorge” foi gravado em Portugal. O que você e Michelle encontraram em comum entre dois países que compartilham tanta história, mas também são bastante diferentes entre si?

Laure: Estávamos em turnê em maio. Eu pedi à Michelle se ela estaria disposta a levar uma câmera e registrar algumas imagens. Ela disse sim. Não tínhamos um cenário e nem ideia do que queríamos fazer. Passamos alguns dias de folga em Lisboa, em um lindo apartamento que o produtor local, Rodrigo, nos emprestou. E na hora ela achou o lugar muito especial e meio gráfico. Gastamos duas horas. Michelle tem uma visão das coisas.

TMDQA!: Você comenta na música que sente uma relação cósmica com Jorge Ben, do tipo que tem poderes de aquecer um dia frio. Acredita que essa ligação, em pontos tão diferentes do tempo e espaço, pode ser íntima entre dois artistas – mesmo que eles nunca se conheçam?

Laure: Acho que sou uma pessoa muito espiritual. Às vezes, até demais, eu sei… Eu vejo ligações e símbolos com muita frequência. E senti isso com Jorge. O jeito que a música dele influencia a minha mente e espírito é muito forte.

TMDQA!: Sempre perguntamos aos artistas com quem conversamos sobre o que eles andam ouvindo. Pode nos indicar um disco de música francesa que pegou seu ouvido recentemente e um de música brasileira, além do Jorge Ben, que está sempre nas suas playlists?

Laure: Tenho ouvido música marroquina e argelina ultimamente, coisas antigas. Sou louca por um disco que eu não conhecia, se chama “La voglia, la pazzia, l’incoscienza, l’allegria”, de Toquinho, [Vinicius de] Moraes e [Ornella] Vanoni, uma mulher italiana com dois grandes chefes. Bem antigo também! E adoro artistas franceses como Halo Maud, Sarah Maison e Norma.

 
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