Hoje o mundo acordou com mais uma triste notícia de que parece estar se repetindo com uma frequência cada vez maior e cada vez mais dolorosa.

Anthony Bourdain, chef, escritor e apresentador de televisão foi encontrado morto na França e a causa da morte foi determinada como suicídio.

Aos 61 anos de idade, o nova-iorquino vinha apresentando um programa de televisão na aclamada CNN chamado Parts Unknown, onde mostrava a cultural local de diversos países do globo através da culinária.

Acontece que a sua maneira de mostrar as coisas era o principal ingrediente na receita das atrações televisivas que ele apresentou durante a vida, e se em grande parte dos programas de gastronomia o que a gente vê é muito luxo e requinte, aqui era o contrário.

Anthony Bourdain sabia como poucos cativar as pessoas que participavam do seu show, e basta ver as reações de nomes como Iggy Pop e Josh Homme, que se emocionaram ao falar sobre a sua morte, para saber que ele era querido por todos que encontrava pelo caminho.

Sua abordagem era simples: ao invés de visitar restaurantes cheios de luxo e charme, ele preferia ir aos mais básicos, que traduziam bem o espírito da cidade que ele visitava. Foi assim no Brasil, por exemplo, onde Bourdain fez questão de mergulhar de cabeça na nossa cultura e comer muita comida de rua.

Foi assim também com Barack Obama, ex-presidente dos Estados Unidos, em Hanói, no Vietnã, em uma ocasião lembrada hoje pelo político com muito afeto:

‘Banco de plástico baixo, macarrão barato porém delicioso, cerveja gelada de Hanói.’ É assim que eu me lembro de Tony. Ele nos ensinou sobre comida – mas, mais importante, da forma como ela pode nos unir. Para nos deixar com um pouco menos de medo do desconhecido. Sentiremos a sua falta.

 

Nova York, Punk Rock e Suas Origens

Muito da forma como Anthony Bourdain, Tony para os íntimos, se relacionava com as pessoas vinha das suas origens em Nova York.

Até 2000, quando ele já tinha 43 anos de idade, o cozinheiro tinha uma certa fama, mas estava longe de ser uma celebridade, e contava com uma coluna no New York Times chamada “Não Coma Antes de Ler Isso”.

A coluna se transformou em livro e Cozinha Confidencial mostrou os bastidores nada elegantes das cozinhas de restaurante por onde Tony trabalhou.

Além de mostrar detalhes ligados à própria indústria gastronômica e falar sobre como uma cozinha de restaurante tem pouco ou quase nenhum glamour, ele também expôs as suas próprias dificuldades pessoais e falou sobre problemas que enfrentou, inclusive com as drogas.

Bastante sincero, ele expôs um mundo que muitas vezes é visto de outra forma pelo grande público, e chegou a dar algumas dicas da indústria dos restaurantes, como por exemplo não comer peixes às Segundas-feiras pois há grandes chances de ser sobra do fim de semana. Anthony também não recomendava comer carne bem passada já que muitos cozinheiros se aproveitam do ponto para usar produto de segunda nos pratos.

A honestidade de Bourdain e a conexão com as pessoas vinham desde o tempo em que ele era moleque na difícil Nova York dos Anos 70.

Em um artigo escrito para a SPIN, novamente ele subverteu o sentido das coisas e disse que enquanto muitos enchem de brilho o ano de 1977 na cidade norte-americana, ele viveu tudo que aconteceu por lá em ambiente nada saudável:

Não deixe ninguém te falar o contrário: 1977 não foi um bom ano. Não foi uma boa década, não foi um período bom para Nova York. Me lembrando agora, é fácil elogiar tudo que aconteceu no período – o ano nos deu, afinal de contas, a primeira importante explosão do Punk Rock e do Hip Hop. Se você não estava lá, através do prisma da ironia, até as roupas poderiam parecer descoladas. Mas na verdade, 1977 foi um período vergonhoso e embaraçoso para se estar vivo.

A música e os músicos que começaram a tocar e a se encontrar no CBGB formavam uma reação apropriada para os sentimentos gerais de desesperança, absurdo, futilidade e desgosto de morar em Nova York na época.

Foi nesse ambiente duro, cursando a escola de culinária em 1977, que Anthony Bourdain encontrou força nas pessoas e na cena punk, passando a frequentá-la.

Logo jovem, o chef acabou absorvendo características que carregaria para a vida toda e, de fato, o tornariam a pessoa adorada que ele foi até o último dia de sua vida, com sinceridade, afeto, simplicidade e, acima de tudo, a vontade de mostrar como as coisas são na realidade, sem filtros. No processo, fez com que muitas pessoas, principalmente as “deslocadas”, se identificassem com toda a verdade que viam ali na telinha.

Vai fazer falta.