Desde o lançamento de “This is America”, o ator Donald Glover, conhecido musicalmente como Childish Gambino, fez um alarde impetuoso por causa da canção.

Com isso, a sua parceria de longa data com Hiro Murai, que assina a direção do clipe, rendeu (até então) mais de 48 milhões de visualizações e vem carregada de referências e detalhes minuciosos que têm deixado todos os olhos voltados para o artista.

Além de uma melodia inicialmente alegre em um solo de violão, “This is America” é por si só tão densa quanto as batidas que são exploradas no decorrer da música. E isso é basicamente uma sintonia do que a obra visual explicita.

Em seu contexto geral, o clipe sintetiza como a mídia mantém as pessoas alheias à realidade, com mensagens superficiais, deixando-as indiferentes ao terror que tem acontecido, principalmente na questão da população negra americana. As imagens racistas e cenas violentas por trás das danças dão a ideia bem exata disso.

As referências e os detalhes

No início do clipe, um homem negro sentado em uma cadeira começa a dedilhar o violão ao som de uma música alegre, que categoriza o contexto histórico da música negra americana, tendo seu início em gêneros como o blues, emergidos como forma de resistência e utilizados como base para diversos outros estilos, incluindo o Rock And Roll.

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A caminho do músico, Gambino mostra a faceta de Uncle Ruckus, da animação “The Boondocks”, que passava no bloco Adult Swin do Cartoon Network. O personagem antagonista é um velho negro que afirma ter tido uma doença quando bebê, que o transformou de branco em negro e considera Michael Jackson um sortudo por ter tido o oposto disso.

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Na sequência, a simbólica pose feita por Gambino representa Jim Crow, personagem do ator branco Thomas D. Rice criado em 1828, que retrata os estereótipos racistas dos Estados Unidos principalmente dando a entender que os negros são bons apenas para a música e para a dança.

 

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Jim Crow

Logo nessa primeira cena há um elemento importantíssimo que será reproduzido outras vezes durante o clipe: aqui, as armas são mais bem tratadas do que as vítimas delas, tanto que logo após usar a pistola para matar o músico com um tiro na cabeça, Childish Gambino a entrega para um rapaz que a recolhe de forma quase cerimonial, com um pano e cuidando para que ela não caia no chão. Já o músico morto é arrastado pelo set e retirado dali de qualquer maneira.

A mensagem é de que na sociedade americana as armas têm mais valor que as vítimas.

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Outro momento em que isso fica bastante claro é em uma das cenas mais icônicas do clipe, a do Coral.

Mais uma vez em uma melodia alegre, Gambino reproduziu o caso de Dylann Roof, responsável pelo massacre de nove negros em uma igreja da cidade de Charleston, na Carolina do Sul.

Um detalhe importante aqui é o figurino de Gambino: uma calça parecida com a usada pelos integrantes da Confederação, grupo de seis estados do país que buscavam independência para impedir a abolição da escravatura. A referência pode ser atribuída ao uso da bandeira confederada que, além de ser usada durante a Guerra Civil, se tornou centro de polêmica após aparecer também em fotos do atirador da igreja de Charleston.

Aqui, mais uma vez, a arma é retirada cuidadosamente enquanto os corpos são arrastados.

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Calças dos Confederados

Juntamente com os elementos da performance e as variedades de expressões faciais do artista, o grupo que acompanha Donald Glover usa da dança como distração da histeria que acontece no background. Isso representa a forma como a sociedade quase que literalmente dança enquanto as questões políticas e sociais estão explodindo por aí sem ganhar a devida atenção.

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Há também uma passagem importante que pode não ser percebida pelo espectador, mostrando os adolescentes que estão distantes e filmam todo o caos, salientando na letra “This a celly, that’s a tool” (Isso é um celular, isso é uma ferramenta), como os smartphones têm sido usados para filmar e denunciar a violência policial. Também é um retrato de como em muitos casos as coisas estão pegando fogo mas as pessoas preferem se ausentar e apenas assistem a tudo e/ou gravam tudo em seus smartphones. Outra mensagem é de que as crianças estão sempre vendo tudo que os adultos fazem e, consequentemente, absorvendo tanto as ações ruins quanto as boas.

Seguindo em frente, uma das principais referências usadas no segundo plano retrata a leitura bíblica de Apocalipse 6:8. A figura encapuzada em cima do cavalo branco acompanhada por uma viatura policial simboliza, respectivamente, a morte como um dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse e o inferno. O cavalo branco é uma interpretação envolta da falsa religião, que no clipe pode ter um conceito de uma falsa proteção acerca da segurança pública.

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Em outro momento, acredita-se que Childish Gambino esteja fazendo uma menção a Richard Pryor, humorista negro que batia de frente com as questões raciais e a violência policial, e no disco The Anthology 1968-1992 participou de uma sessão de fotos onde uma delas é muito parecida com a cena abaixo.

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Chegando ao final, a dança sobre o carro teria sido uma ideia do próprio diretor japonês Hiro Murai, já que na cena final aparecem vários automóveis, sendo vários deles da marca também japonesa Toyota.

Aqui pode existir uma crítica à apropriação feita pelos americanos por acharem que a marca seria local e, além disso, o fato dos carros serem antigos passa também a ideia de que o racismo está aí há muito tempo e não é uma coisa de hoje.

A participação da cantora SZA como Estátua da Liberdade é uma mensagem visual sobre uma falsa sensação de “liberdade”, que assiste passivamente a tudo enquanto silencia e abusa do lado oprimido da sociedade.

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Liberty .

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A última cena parece fazer referências ao filme de terror Get Out (2017) e também deixa o recado principal de tudo isso que falamos para o final: de forma assustadora, os negros ainda estão sendo perseguidos em pleno ano de 2018 nos Estados Unidos.

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Quando um artista vive sob holofotes, é necessário estar atento sobre qual visão ele quer propagar para o mundo. É bem evidente que Gambino, ao expressar sua aflição acerca da população negra, traz voz àqueles que não tem, e manifesta essa preocupação da forma mais desafiadora possível.

“Eu acho que de muitas maneiras o que Glover está tentando fazer é realmente trazer nosso foco e nossa atenção para a violência negra, o entretenimento negro e o modo como eles são justapostos na sociedade. Eles parecem se anular na consciência pública”, afirma o jornalista Rodney Carmichael, em uma matéria para a NPR Music, reiterando sobre as inúmeras referências do clipe já citadas.

Assista ao clipe de “This Is America” abaixo, e confira o quanto essa obra incrível se faz tão relevante atualmente.

Logo abaixo a gente deixa alguns links que têm ótimas reflexões sobre o tema e também apontam diversos pontos vistos nesse clipe: