Tim Bernardes
Foto por Marco Lafer
 
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Entrevista por Nathália Pandeló Corrêa

Não é de hoje que Tim Bernardes coleciona canções que não mostra pra ninguém. Algumas ele lançou com O Terno, e outras tantas foram parar numa gaveta, esperando a hora certa de vir à tona. O resultado foi o álbum Recomeçar, com o qual Tim se lançou em carreira solo este ano, paralelamente ao seu trabalho de frontman na banda. A receptividade foi imediata: parecia que muita gente se relacionava, de uma forma ou de outra, com os relatos sinceros de um jovem rapaz de coração partido.

 

Não por acaso, o disco ficou no top 3 da nossa lista de melhores lançamentos nacionais do ano. Desde então, Tim vem colhendo os louros dessa nova fase da carreira – sem abandonar, claro, o trio com o qual lançou outros três álbuns. Somam-se a esse currículo parcerias com David Byrne, Tom Zé e Paulo Miklos. Foi só com a maturidade proporcionada por alguns anos nos palcos que ele conseguiu dar o passo de se apresentar de maneira completamente nova: solo. Mais que um formato minimalista, o show de Recomeçar parte da vontade de criar uma ligação real entre plateia e artista.

 

O público de São Paulo vai poder conferir de perto essa entrega emocional. Nesta sexta e sábado (15 e 16/12), no Teatro do Masp, Tim Bernardes personifica no palco o compositor, intérprete, produtor e arranjador que deu forma a Recomeçar, se dividindo entre piano e guitarra, em um ambiente que lembra tanto o estúdio onde gravou o álbum, quanto seu próprio quarto. Um retorno às origens.

Entre um ensaio e outro, conversamos com ele por telefone sobre o atual momento, discos e amigos. Confira abaixo!

 

TMDQA!: Oi Tim, tudo bem? Rapaz, que jornada que é esse disco! Aliás, fica mesmo essa sensação que no início você tá entrando numa história e, como num filme, a gente acompanha começo, meio e fim. Era essa a sua intenção?

Tim Bernardes: Sim, de uma certa forma, sim. Eu quis nesse disco fazer o que não costumo fazer nos discos do Terno, que é juntar músicas semelhantes, de uma forma que tenha um arco – não narrativo, mas em que você sente uma atmosfera parecida ali. Nas músicas em si, nos arranjos, que se misturam. No Terno a gente quis que cada música se destacasse uma da outra. E que todas chamem atenção, por isso a gente sempre teve o cuidado de não colocar músicas parecidas juntas. No meu disco, não. Eu queria misturar tudo e que parecesse como uma longuíssima música (risos).

 

TMDQA!: É curioso ver um disco tão pessoal ter uma receptividade grande. O aspecto íntimo do que você botou no mundo chegou a te preocupar, de alguma forma, talvez pensando em como as pessoas receberiam aquilo? E como tem sido levar isso para o palco, compartilhar com outras pessoas assim, cara a cara?

Tim: Acho que não é à toa que fiz esse disco só agora. Essas músicas eu fazia, mas eram íntimas. Queria gravar, porém eu sabia que era uma coisa pessoal mesmo. O último disco do Terno mostrou muita coisa interessante pra mim, que as músicas mais pessoais e íntimas foram muito bem recebidas pelo público. Acho que justamente por ser assim, os ouvintes conseguem encaixar essas canções na própria vida. Agora, depois de lançar e fazer turnê com três discos, eu senti que tinha a confiança de me expor desse jeito com prazer. Não tem nenhum intermediário, não tem uma banda ou mise-en-scène. É de pessoa pra pessoa, mesmo.

 

TMDQA!: Sei que o palco tem uma onda do próprio Estúdio Canoa, e do seu quarto também. No disco, você gravou um monte de instrumentos sozinho. Como vai ser fazer isso no palco? Você tá solo mesmo?

Tim: O show é uma outra proposta. Com esse projeto, eu queria fazer duas coisas: um disco que pudesse ficar um tempão no estúdio, fazer todo os pianos, guitarras, bateria, todos os arranjos… E eu também queria fazer um show das minhas composições, de uma forma geral. E o show é como eu criei as músicas no meu quarto. Não queria ensaiar uma orquestra pra isso, sabe? São músicas cruas, como eu fiz ali no momento. Então no show sou eu com piano ou guitarra, e fica ainda mais essa coisa de eu falando com você. Não uma banda e sim uma pessoa falando cara a cara com o público.

 

TMDQA!: Falando em tocar um monte de coisa no disco, também teve um grupo de instrumentistas que você chamou pra completar essa sonoridade. Foi uma oportunidade que você teve de acessar outros músicos de quem é fã e trazer pra tocar junto, fora do contexto da banda?

Tim: De alguma forma, a maioria dos músicos – corda, sopros e harpa – eu já tinha chamado no Melhor Do Que Parece, do Terno. A gente trouxe outros instrumentistas para complementar nos arranjos. No meu disco, fiz sozinho a parte de base – tocando as coisas, com palmas minhas e tudo mais. Aí depois parti para fazer os arranjos grandes, com músicos com quem me dou bem, e que entendem o modo como eu crio.

TMDQA!: Eu vi que você tava guardando algumas dessas músicas há anos. Algumas delas conversam diretamente com outras coisas que vocês lançaram nos discos do Terno, tipo “Volta”, que eu estava ouvindo agora há pouco. Como que foi esse processo de escolher o que iria pra banda e o que ficaria na gaveta e depois viraria seu disco solo?

Tim: Acho que na hora que eu escrevo, já sinto. Tinha umas que eram íntimas e valeriam fazer sem a banda, outras eu achei que valeria fazer com a banda. E outras ficaram no meio do caminho e foi muito no acaso. De eu mostrar pro pessoal e eles animarem de fazer mesmo assim, e aí a gente desenvolveu um arranjo e ficou legal Acho que “Depois que a dor passar” foi assim, “Volta”, “Vamos assumir”. Os dois últimos discos do Terno foram compostos meio que simultaneamente, como dois lados do mesmo período. Um era mais íntimo, sem um personagem delineado. E o outro era mais filosófico, de certa forma.

 

TMDQA!: O fato de você ter lançado um disco com uma capa tão sincera, olho no olho, é uma boa forma de dizer, “Oi, eu sou o Tim e tem aqui um monte de música que eu escrevi em certos momentos da vida”. Porque muita gente te conheceu como “o filho do Maurício Pereira”, num primeiro momento, ou então “o vocalista do Terno”, mais recentemente. Acredito que você deva se orgulhar dessas duas alcunhas, mas como foi dar um passo fora dessas caixinhas?

Tim: Foi um momento que culminou pra isso, sabe? Eu já me sentia seguro com o Terno, eu tinha tempo pra ficar meses em estúdio, pra me dedicar só a isso. Como pessoa pública, eu já me entendo um pouco melhor também, a lidar com isso. Então foi a hora de me bancar, dizer “esse sou eu”, me expor sem banda.

 

TMDQA!: O Terno é uma banda que, entre muitas coisas, chamou atenção de muita gente pelos clipes, e com razão! Mas no único clipe que lançou desse disco, você respeitou esse clima íntimo das músicas. Já que agora vocês estão nessa onda de se superarem a cada novo vídeo, como foi pra você ir numa direção oposta, no sentido de fazer algo mais simples e agora assinando como diretor também?

Tim: Era isso. A gente sempre faz um clipe baseado no que a gente quer como projeto, no que a música sugere. O Terno tem a coisa da maluquice, do indie querer chamar atenção pela loucura, pela coisa inusitada. Nesse disco não cabia fazer um clipe que as pessoas dissessem “que loucura é essa”. Eu queria fazer um vídeo um pouco mais aberto, porque a música já dizia muito. Então acho que é mais emocionante do que impressionante. Tenho vontade de fazer mais clipes desse disco, já estou em conversas disso. E dá pra fazer o clipe com alguma maluquice que não atrapalhe um clima sereno do disco. É uma matemática que precisa achar o tom certo. Eu me dediquei muito ao disco e não quero desconstruir o clima que busquei ali por conta de um vídeo, uma foto. Estou buscando esse equilíbrio.

 

TMDQA!: O seu álbum ficou no terceiro lugar da nossa lista de melhores de 2017.

Tim: Caramba, que massa!

 

TMDQA!: Só ficou atrás do Far From Alaska e do Rincon! Então eu diria que nada mal, certo?

Tim: Com certeza!

TMDQA!: Bom, como o nosso site não tem esse nome à toa, a gente sempre pergunta pros artistas com quem conversamos sobre o que eles andam ouvindo. Enquanto o Recomeçar não saiu da playlist de muita gente, queria saber o que foi, pra você, o disco do ano, o que você mais ouviu.

Tim: Uhm… Desse ano? Ou pode ser mais antigo?

 

TMDQA!: Pode ser mais antigo, se preferir. O que você ouviu sem parar em 2017, no caso.

Tim: Ah, vou citar vários, ouvi tanta coisa! O Crack-Up, do Fleet Foxes, eu escutei bastante. Sou fã e estava esperando, acho que tinha uns seis anos que eles sumiram do mapa (risos). Gostei muito do novo do Dirty Projectors [Dirty Projectors], do Mac DeMarco [This Old Dog] também. E por conta do Recomeçar, muita gente começou a me recomendar coisas, diziam que me disco lembrava o clima de outros e tal. Aí me mostraram um de um cara chamado Colin Blunstone, se chama One Year. Ele é vocalista do The Zombies, e lançou esse disco no mesmo clima, tem a harpa, e eu achei muito bonito. Ah, e o que mais? Também ouvi muito o do Kendrick Lamar [Damn], o do Rincon Sapiência [Galanga Livre] e o da Luiza Lian [Oyá Tempo]. Enfim, é muita coisa boa! (risos)

 

TMDQA!: Tá ótimo, já temos boas dicas pra ouvir! É isso, Tim. Obrigada por seu tempo e bons shows!

Tim: Muito obrigado!

 

Serviço

Tim Bernardes apresenta Recomeçar @ Teatro do MASP – São Paulo
Data: 15 de 16 de dezembro, sexta-feira e sábado
Horário: 21h (nas duas datas)
Local: Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Teatro) – Avenida Paulista, 1578, Jardim Paulista, São Paulo – SP

Ingressos: de R$ 30 (preço único; meia-entrada) a R$ 60 (preço único; inteira), pelo site Ingresso Rápido ou na bilheteria do MASP (terça-feira a domingo, das 10h às 17h30; quinta-feira, das 10h às 19h30 e no dia do show até seu início)

Classificação etária: Livre.