Som & Pausa - Capa

A cena musical carioca sempre foi muito rica.  Mas qualquer pessoa que curte música pode afirmar nos últimos anos toda uma nova geração de criadores, com ideias novas, tem jogado novas luzes para o que está acontecendo na cidade. E isso não só no rock, que é a nossa prioridade por aqui, mas no samba, na música tradicional, no hip hop e na MPB.

É um momento que no futuro talvez seja lembrado com muito carinho. E por isso merece ser registrado de algum modo. Esse caráter de registro de um momento marcante é o que mais me saltou aos olhos ao folhear o incrível livro “Som & Pausa”, editado pela Editora Guarda-Chuva, e organizado com curadoria da jornalista Fabiane Pereira.

Som & Pausa - BNegão

Fabiane, que já foi entrevistada aqui pro TMDQA, é uma das pessoas que mais entendem e vivem essa cena que conheço e fez um trabalho incrível ao selecionar 50 artistas e propor um desafio: cada um tinha que definir o que eles sentem por música, por esses sons e pausas.

O resultado é uma rica coletânea de textos, poemas e intervenções visuais que criam um panorama bem legal do pensamento artístico de cada um. De Alice Caymmi até Domenico, de BNegão até o Cícero, de Castello Branco até Lucas SantTana. Tudo isso em uma edição primorosa no formato de um compacto de vinil.

Para quem ficou interessado, dá para comprar aqui, ou garantir o seu na 14° Feira de Discos de Vinil do Rio de Janeiro, que acontece nesse domingo (14/06) no Flamengo. Mais informações aqui.

Conversamos um pouco mais com a Fabiane sobre o projeto e você pode conferir abaixo.

Som & Pausa - Cícero

TMDQA: Como surgiu a ideia pro “Som & Pausa”?

Fabiane Pereira: Minha intenção foi marcar esta safra da música independente construída em torno de casas como a saudosa Cinemathèque, o Circo Voador e mais recentemente Audio Rebel e Comuna num livro porque livro é registro histórico. Por isso, além dos artistas, produtores, pesquisadores e agitadores culturais também estão presentes no livro formando uma espécie de mapa musical carioca dos anos 2000.

TMDQA:  Tinha alguma regra para o material publicado ou foi livre?

Fabiane Pereira: Completamente livre. Inclusive poderia ser texto, foto, ilustração… a única ‘exigência’ era que a temática fosse música e os momentos de sons & pausas de cada um.

TMDQA: Na apresentação do livro, você compara antologias com um recorte de um tempo. Poderíamos esperar outros projetos parecidos no futuro? Com outro momento cultural?

Fabiane Pereira: Hoje, o que posso dizer é que vai rolar uma edição do livro Som&Pausa com a turma de São Paulo, outro mais abrangente pegando Brasil e, finalmente, um documentário falando um pouco desta cena contemporânea pós 2000. Sobre outras épocas, não posso dizer.

TMDQA:  A cena carioca está muito plural nos últimos anos. Qual foi o critério para selecionar quem estaria no livro?

Fabiane Pereira: Não estão todos os personagens aqui, e nem caberiam. O que o leitor encontra é um “frame-coração”, brincando com a expressão cunhada pela cantora paulista Tulipa Ruiz, resultado de minhas escolhas objetivas, subjetivas e afetivas. Não há uma tentativa ou pretensão de reunir os melhores, os mais fundamentais, ou os mais destacados da cena musical. A ideia é construir um retrato que possa fazer parte do álbum ‘geração’.

TMDQA: Você é um dos expoentes da cena carioca, de certo modo? É possível viver de cultura por aqui?

Fabiane Pereira: Não me considero uma expoente da cena carioca. Sou uma pessoa que olha com bastante interesse para a cena musical da minha geração. É muito difícil viver de cultura no Brasil, por aqui, sobrevivemos.

TMDQA:  O livro traz muitos amigos, certo? Isso faz com que você tenha mais amigos que discos?

Fabiane Pereira: O livro não traz muitos amigos pessoais. O Miguel Jost, co-curador do livro comigo e pesquisador musical que assina a apresentação, é um amigo pessoal e foi importantíssimo neste processo mas os outros 50 são pessoas realmente importantes ‘na’ e ‘para a’ cena musical contemporânea carioca.

Posso afirmar com certeza que tenho mais discos que amigos…o número de discos que recebo chega a quase 100 por mês, já os amigos… São poucos mas indispensáveis!