Nick Cave no Primavera Sound 2013
Foto de Nick Cave via Shutterstock
   

Já tem algum tempo que Nick Cave lida com um sofrimento muito grande em sua vida: a perda de seu filho adolescente Arthur, de apenas 15 anos, em 2015.

O tema foi abordado pelo lendário músico em diversas canções lançadas desde então e ele já teve discussões abertas com seus fãs sobre todos os sentimentos envolvidos nisso, em especial pelo seu site Red Hand Files, onde possui um canal aberto de comunicação.

Foi por lá que, em 2018, uma fã chamada Cynthia lhe fez uma pergunta:

Eu já lidei com a morte do meu pai, minha irmã, e do meu primeiro amor nos últimos anos e sinto que tenho alguma comunicação com eles, majoritariamente através de sonhos. Eles estão me ajudando. Você e a Susie [esposa de Cave] sentem que o seu filho Arthur está com vocês e se comunicando de alguma forma?

Na época, o questionamento intrigou Cave e ele deu uma resposta super intrigante (que você pode conferir traduzida abaixo). Mas, como se não bastasse, esse relato acabou inspirando o surgimento do single Grief, disponível por enquanto apenas em vinil de 7″ e contendo duas faixas, “Letter to Cynthia” e “Song for Cynthia”.

Você pode ouvir uma prévia pela publicação no Instagram ao final da matéria e comprar o disco por aqui.

Nick Cave e a inspiração de Grief

Querida Cynthia,

Essa é uma questão muito bela e eu sou grato por você tê-la feito. Parece para mim que, se nós amamos, nós lamentamos. Esse é o acordo. Esse é o pacto. Lamentação e amor estão para sempre interligados. O lamento é o terrível lembrete das profundezas do nosso amor e, como o amor, o lamento não é negociável. Há uma vastidão ao lamento que se impõe aos nossos individuais minúsculos. Nós somos pequenos, trêmulos aglomerados de átomos subsumidos dentro da incrível presença do lamento. Ele ocupa o centro de nossas existências e se estende através dos nossos dedos aos limites do universo. Dentro desse giro turbulento todas as maneiras de loucuras existem; fantasmas e espíritos e visitações em sonhos, e tudo mais que nós, em nossa angústia, desejamos que exista. Esses são presentes preciosos que são tão válidos e reais quanto precisemos que sejam. Eles são os guias espirituais que nos levam para fora da escuridão.

Eu sinto a presença do meu filho, por todo lado, mas ele pode não estar ali. Eu o ouço falar comigo, me aconselhar, me guiar, ainda que ele possa não estar ali. Ele visita Susie em seu sono regularmente, fala com ela, a conforta, mas ele pode não estar ali. A dor do medo segue os rastros de fantasmas brilhantes. Esses espíritos são ideias, essencialmente. Eles são nossas imaginações paralisadas reacordando após a calamidade. Como as ideias, esses espíritos falam de possibilidades. Siga suas ideias, porque do outro lado da ideia está a mudança e o crescimento e a redenção. Crie seus espíritos. Chame-os. Faça eles serem vivos. Fale com eles. São as suas impossíveis e fantasmagóricas mãos que nos levam de volta ao mundo do qual fomos ejetados; melhores agora e inimaginavelmente mudados.

Com amor, Nick.

 

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