BK
   

O mês de Janeiro vai chegando ao fim mas nosso Artista do Mês, o rapper BK’, ainda tem muito o que falar aqui no TMDQA!

Na terceira e penúltima parte da sua entrevista com Tony Aiex, o músico falou sobre racismo, a influência de nomes como Kendrick Lamar e Jay-Z em O Líder Em Movimento e planos para o futuro.

Você pode assistir ao vídeo logo abaixo e se quiser, após dele, ler a entrevista transcrita.

Divirta-se!

“Mudando o Jogo”

Em tempo, hoje o rapper lançou uma nova música chamada “Mudando o Jogo”, que você já pode ouvir na playlist oficial do TMDQA! no Spotify.

Artista do Mês: BK’

Veja as duas primeiras partes da entrevista com BK’ nos links abaixo:

TMDQA!: Falando na questão do racismo, especificamente, me chamou muito a atenção a faixa “Visão”, que tem umas passagens bem fortes. Duas delas são, “À noite eles sonham e nós nem dormimos / Isso é um pesadelo” e “Se eles veem nós surfando, querem fazer uma piscina / Se veem nós lucrando, querem fazer uma chacina”. E isso deixa bem clara a questão do racismo estrutural em vários aspectos. Você já disse que luta contra isso através da arte, mas como você vê essa discussão no Brasil de hoje? Para o Rap e para além do Rap, também.

BK: Cara, o que eu tenho mais analisado de uns tempos pra cá conversando muito com amigos, é como esse sistema opressor fez o oprimido ter vergonha de lutar pelos seus direitos e não querer sofrer mais. Pensando até no caso do jogo com o Neymar, [quando o Paris Saint-German parou a partida por conta do racismo de um árbitro], e depois ele postou aquilo do “black lives matter” no Twitter dele. E aí tinha um monte de gente comentando que “todas as vidas importam”, e até vários irmãos mesmo falando isso. O sistema fez isso, cara. O sistema fez esse mano que apanha do sistema ter vergonha de falar que apanha do sistema. Porque quando ele olha o cara que é referência de poder, que é um cara branco, o cara vai falar pra ele que isso é vergonhoso e ele vai querer ser igual aquele cara.

Por isso que a gente fala tanto de referências, cara, de ser referência pros manos. Isso é importante. Porque quando o cara vê um mano na situação de poder, ele vai se identificar. Eu falo muito disso nas minhas músicas, do cara se identificar comigo, porque não quero um irmão com inveja de mim, quero um irmão que se identifica comigo e se inspira pra alcançar as coisas dele. Só que isso, no sistema opressor, não é assim. Ele vai mostrar que o cara do poder é o cara branco e o cara branco vai falar que “todas as vidas importam, isso é mimimi”, e o mano vai reproduzir esse argumento, esse papo, tá ligado? Isso que me assusta.

Ver que apesar de toda luta, todo esforço de pessoas não sei quantos anos da gente, o sistema…nem gosto de falar desse jeito, mano, mas olha como o sistema é perfeito. Eu não vejo como quebrar isso, tá ligado? Eu não vejo o fim do racismo.

É um sistema bilionário. Um sistema de poder. Quem tá ali no topo desse poder não vai deixar que o sistema mude. Podem até fazer alguma coisa ou outra pra fingir que o mundo está melhorando, mas se a gente for ver as estatísticas, elas não mudaram.

TMDQA!: Não mudaram e não é como se isso fosse novidade, né? Se quisessem realmente mudar o sistema pra melhorar as coisas, com os recursos que temos há anos, isso já teria sido feito. Uma das formas que teríamos de mudar são as eleições, mas aí o sistema também coloca a mão e impede que a coisa vá pra frente. 

BK: Total. É um sistema de bilhões, é um sistema de poder. Ninguém que tá no topo do poder quer mudar isso. Quem tá no topo sabe que, se mudar, ele sai de lá. Claro que não seria de uma hora pra outra. Não é isso. Se começasse a aproximar as coisas, aproximasse tudo, ficasse mais democrático de fato… O próprio sistema de cotas mostra isso, cara.

Quem é contra as cotas? Quando a coisa começa a empatar e ficar justo, a gente vê quem está reclamando. ‘O cara que veio de escola pública, veio não sei de onde, agora vai entrar na faculdade e virar médico?’ São essas as coisas que a gente escuta, tá ligado?

TMDQA!: Faz todo sentido do mundo, cara. Conversamos dia desses com os nossos amigos do Black Pantera, um trio de Rock com homens negros e que fazem um som incrível, e eles nos falaram a mesma coisa. Voltando a falar sobre o disco… a última faixa, “Universo”, me chamou bastante atenção. Nela eu senti que você quis falar mais sobre você mesmo, dar uma descansada da batalha e refletir sobre o futuro. Já te ouvi dizendo, também, que o “Líder em Movimento” é dois discos em um, dá pra ouvir tanto de começo ao fim, como do fim ao começo. Queria ouvir de você como rolou essa ideia toda aí e, também, como você enxerga o conceito do disco nesse momento “tão Spotify” que a gente vive. 

BK: Cara, onde eu vi isso a primeira vez foi com o Kendrick Lamar, no DAMN. Aí eu falei, “mano, eu vou ter que fazer isso também”. Eu achei genial e coloquei na cabeça que ia ter que fazer.

Então isso contou muito no processo de composição, foi pesquisando e testando pra dar certo, porque eu acho genial. Vale dizer que eu tenho muita influência do DAMN. nesse meu disco, assim como o 4:44 do Jay-Z.

E respondendo sobre a questão dos discos, eu gosto muito desse rolê mesmo, tá ligado? E não é criticando as playlists não, cara, eu tenho as minhas playlists, mas eu gosto mesmo é de mergulhar em um trabalho só. Me dá prazer mesmo, entender o conceito, viver o disco. Mano, quando o DAMN. e o Flower Boy [do Tyler, The Creator] saíram, eu ouvia o dia inteiro, várias vezes. Eu gosto muito de entrar nesse universo, de perceber camadas de um disco, isso me dá prazer na hora de estar ouvindo a música ali e eu tento sempre reproduzir no meu trabalho e tento trazer a pessoa para aquele mundo ali. Ficar pegando as teorias, pegar a interpretação, reconhecer os samples, eu gosto disso mesmo. Quando eu me entrego no estúdio eu quero passar essa sensação pra galera.

Eu sinto que, quando você pega um disco pra prestar atenção mesmo, você começa a ficar íntimo do artista, tá ligado? A entender um pouco dele também. Eu quero passar isso nos meus discos também. Deixar a galera próxima da minha cabeça.

TMDQA!: Falando nisso, você faz muita referência à cultura Pop mesmo, coisa do dia-a-dia, coisa de redes sociais, tudo mais. Muita gente tem medo de deixar as músicas cafonas com isso, mas você faz algo tão natural e orgânico que funciona — dá pra ver que é uma homenagem às coisas que você ama, que você cresceu vendo. Como que é isso pra você na hora de compor?

BK: Ah mano, a vida é cultura Pop, né? Tem gente que acha que o Rap tem que ser muito inteligente, sério, uma parada de outro plano — eu não gosto dessa parada. Quanto mais você mostra coisas ali que todo mundo vê no dia a dia, mais você se aproxima da galera. Todo mundo quer ser genial, mas não, eu quero me comunicar, tá ligado? Ser genial é se comunicar. Até porque o gênio morre e só é reconhecido anos depois, eu não quero ser gênio não, eu quero é me comunicar (risos).

E eu acho que nesse disco eu consegui me comunicar melhor, ser menos metafórico também. Eu acho que eu consegui ser mais direto porque é um disco com bastante informação, eu passo muita visão. Se você quer passar a visão para as pessoas, você tem que ser claro no que você está falando. Não precisa querer ser genial pra se comunicar. Não preciso deixar tão difícil o que eu estou falando ali se eu quero passar uma visão.

TMDQA!: É muito bom ouvir isso de um artista com um alcance como o teu e que poderia deixar isso subir à cabeça. Queria falar em mais detalhes agora sobre a sua versatilidade. Além dos seus discos, você também tem uma carreira ligada ao projeto Poesia Acústica, que é gigante na internet, e ali é uma coisa bem mais good vibes, bem diferente do que você faz. Além disso você também participou do Hip Hop Machine, que foi até mais pro lado do Jazz, e tua aparição ali me chamou muita atenção. Como rola isso pra você, de transitar em tantos gêneros e projetos? Você se importa quando a galera reclama dessas mudanças?

BK: Pior que eu ouço esse tipo de coisa mesmo (risos). “Pô BK, disco maneirão, mas faltou a love song” ou “Pô BK, nada a ver você no Poesia Acústica”.

Eu até me afastei um pouco da internet por conta disso, nem posto mais tanto. Você acaba ficando muito próximo das pessoas na Internet e qualquer um pode falar o que quiser de você e você vai ler. E aí você não pode dar uma porrada, xingar (risos).

Mas agora falando sério, eu me afastei um pouco. Tem muita gente maneira na Internet mas tem muita gente ruim. Eu adotei uma parada que é não responder haters, só meus fãs.

TMDQA!: E o hater é quem vai odiar qualquer coisa que você faça, né? Não dá pra ter uma conversa civilizada.

BK: Pois é, cara. E além de fã e de hater, é muita coisa, ainda mais no Twitter. Eu quero até voltar e estar mais presente, mas precisei de uma respirada, ainda mais nesse ano [2020] que tá sendo um ano esquisito pra todo mundo.

TMDQA!: Fez muito bem mesmo. Tem uma máxima pra gente que cria conteúdo que é, “não leia os comentários”. Se você fizer isso, você não vive. 

BK: Total. E voltando um pouco a falar da música, eu sempre consumi de tudo mesmo, ainda mais a cultura urbana, vamos chamar assim. Funk, pagode, sempre ouvi de tudo. Eu consumi muito isso. Consumi muito funk a minha vida toda. Eu quase fui MC de Funk. Então na hora de fazer algo que seja mais puxado pra esses lados, não é difícil pra mim, tá ligado? Porque sempre tive isso muito presente. Quando comecei a escrever, eu queria mesmo era conseguir escrever sobre todos os assuntos e falar bem sobre eles. Quando eu for falar sobre amor, quero falar bem sobre amor. Quando for falar sobre guerra, quero falar bem sobre guerra.

E o Rap se alimenta de muitos lugares, do Jazz, do Blues, de muita coisa. Eu cresci com isso, com minha mãe ouvindo muitas coisas. Isso deixa o estilo até mais versátil, essa cultura faz isso. O Hip Hop é uma cultura de samples e isso vai te ajudando na versatilidade.

A gente vai juntando tudo isso e testando, testando. Pra 2021 eu tô chegando com várias paradas muito diferentes de tudo que eu já fiz, mano. Vamos testar coisas novas, porque o Rap te possibilita isso.

 
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