Nick Cruz
Crédito: Bleia

O Brasil é o país que mais mata LGBTs no mundo. Embora esse tipo de frase seja exaustivamente repetida ano após ano, essa triste realidade não muda.

De acordo com dados recentes do Grupo Gay da Bahia (GGB), de Janeiro a 15 de Maio deste ano, foram registradas 141 mortes de pessoas LGBT nos estados brasileiros.

Segundo o relatório da entidade, deste número, 126 tratam de homicídios e 15 de suicídios, o que representa a média de uma morte a cada 23 horas. Sem dúvidas, a população transexual, ou transgênera, é o maior alvo dos homicidas.

Hoje, temos um dia para conscientizar o povo: 17 de Maio. É nesta data que acontece o Dia Internacional de Combate à Homofobia e Transfobia, com ações afirmativas ao redor do globo com foco na luta contra o ódio e discriminação destas minorias.

Dito tudo isso, nem é preciso lembrar que o Brasil não dá suporte à pessoas LGBT nos mais diversos setores, incluindo na música. Existem raríssimas referências de artistas inseridos neste contexto que conseguem espaço para mostrar seus talentos.

Um deles é o cantor capixaba Nick Cruz, que agora faz parte do catálogo da Warner Music Brasil, e liberou recentemente o clipe feito para a faixa “Até de Manhã”.

Transgênero, o jovem de 22 anos discute a temática LGBTQIA+ na sua arte e também na vida. Seu primeiro single, “Me Sinto Bem”, foi lançado no ano passado e já passou a marca de 1 milhão de visualizações no YouTube.

Ele, que foi selecionado pela Warner depois de se apresentar em um stand da gravadora no Rock In Rio 2019, mescla o pop nacional com sonoridades do rap, trap, funk e hip hop.

Entre as inspirações de Nick na música estão Paramore, Justin Bieber e Caetano Veloso, provando sua versatilidade. O TMDQA! conversou com o artista sobre diversidade, transição de gênero, sucesso, projetos, e claro, esperança em um mundo melhor.

Confira o resultado deste bate-papo a seguir.

Nick Cruz
Crédito: divulgação

TMDQA!: Você é um cantor trans batalhando pelo seu espaço em um mercado brasileiro com poucas referências de diversidade. Como você enxerga esse contexto? É um desafio?

Nick Cruz: É um desafio muito grande dar a cara a tapa no mercado brasileiro sem ter tido um exemplo masculino para seguir. Lógico, temos muitas cantoras trans, travestis e drag queens que levantam a mesma bandeira que a minha e que me abriram portas para estar hoje na Warner Music Brasil hoje. Sou novo, e assim como todas elas passaram, o início é sempre solitário e penoso. Mas só de ter uma gravadora sonhando e batalhando o mesmo sonho que o meu, já é muito potente.

TMDQA!: Para o nosso público te conhecer melhor, como foi seu processo de transição? Quem é o Nick Cruz?

Nick Cruz: Ainda estou no processo. Fisicamente falando, estou me adaptando a todas as transformações que o meu corpo vem sofrendo com a hormonização. E, emocionalmente falando, é bem delicado, porque surgem muitas dúvidas, muitos complexos… mas é um processo muito valioso, muito profundo.

Estou feliz por estar passando por isso e por ter estrutura para manter a minha transição. E eu sou esse mix de sentimentos, experiências e vivências. Sou uma grande janela aberta para tudo.

TMDQA!: Seu primeiro single pela Warner Music Brasil, “Até de Manhã”, vem gerando grande alcance (o vídeo se aproxima de 700 mil visualizações no YouTube). Como tem sido a receptividade das pessoas?

Nick Cruz: Estou muito contente com o resultado de “Até de Manhã”, o público gostou bastante do trabalho. Sinto que, aos poucos, estou conseguindo inspirar outras pessoas, já recebo mensagens afetivas me agradecendo por estar ocupando esse espaço, e isso é o que mais me deixa motivado a continuar.

Quero alcançar o maior número de pessoas possível com a minha música, pois sei na pele o quão importante é se sentir representado na mídia. O meu objetivo é servir de exemplo, mostrar a construção da minha carreira e falar que podemos realizar qualquer sonho possível nesse mundo. Então, já receber esse retorno tão positivo do público, não tem preço.

TMDQA!: Seu nome surgiu na indústria em meio a uma pandemia de proporções gigantescas. Como você tem se adaptado? Há a preparação de uma agenda de shows pós-coronavírus?

Nick Cruz: Sim, o meu nome surgiu literalmente nessa pandemia, que, por mais lamentável e triste que tem sido tudo, estou tendo o privilégio de usar o meu tempo de uma forma muito boa. Estou me conhecendo mais, estudando o meu próprio gosto musical, buscando referências e me enriquecendo.

Já que a música é uma coisa tão íntima, estou indo a fundo para explorar áreas novas, produzir coisas novas. E essa agenda ainda não surgiu, infelizmente. Ainda mais com essa segunda onda que parece que está voltando.

TMDQA!: Atualmente, você trabalha em algum novo single? Quais são seus próximos projetos?

Nick Cruz: Sim! Estou trabalhando em um novo single agora, chamado “Então Deixa”. É a musica que mais me toca, então acho que será a que mais vai tocar as pessoas também. E o meu projeto é continuar produzindo. Tenho um repertório já fechado, mas não paro de compor, então tudo pode mudar, hahah. “Então Deixa” vai ser lançada em Dezembro!

TMDQA!: Quais artistas são as suas inspirações na música? Com quem você gostaria de fazer uma parceria?

Nick Cruz:  O que eu não paro de ouvir atualmente é a Gloria Groove. Cada entrevista que eu assisto dela eu descubro um novo universo. A linguagem da Gloria Groove é a mesma que eu quero dar na minha carreira. Então, com certeza, é com ela com quem eu gostaria de fazer uma, duas, três, dez parcerias, hahaha. Me sentiria muito realizado.

TMDQA!: Para finalizar, enquanto artista trans em um país marcado pelo preconceito, o que você espera para o futuro?

Nick Cruz: Eu espero um futuro com mais empatia, com menos desmerecimento e menos preconceito. Eu acompanhei as eleições e vi que várias mulheres transexuais e travestis se elegeram, então sinto um ar de mudança. Eu quero mais professoras travestis, mais artistas trans, eu quero que a diversidade seja mais aceita em todas as áreas.