Haikaiss
Foto: Divulgação / Som Livre
   

De acordo com a astrologia, a “Era de Aquário” é o conceito de uma era cósmica, definido a partir de uma relação entre os movimentos da Terra e as constelações do zodíaco. Existe uma crença de que que esse momento seria responsável por uma nova fase para a humanidade, marcada especialmente pela busca pelo esclarecimento.

Apesar de não haver um consenso sobre o início e o fim dessas eras, alguns dizem que já estamos nesta época. Isso pode ser exemplificado pela comunicação mais rápida que marca nosso cotidiano atual. Desde os anos 60, isso tem sido amplamente discutido e antecipado por aqueles que acreditam na influência zodiacal na vida humana (a exemplo do grande clássico do The 5th Dimention), o que traduz a nossa ansiedade por respostas para as nossas dúvidas.

Mas como seria esse momento e o que o qualificaria? O consagrado grupo Haikaiss tentou trazer um pouco dessa discussão para seu mais recente disco, intitulado justamente Aquário. Neste álbum, o sexto do quarteto formado por Pedro Qualy, Spinardi, Spvic e DJ Sleep, são colocadas em pauta discussões sobre pontos de vista, vivência e evolução. Vale destacar também que é o primeiro disco do grupo lançado por uma grande gravadora, a Som Livre.

 

“É uma outra fase, especialmente para mim, que tive uma filha”

Na visão do grupo, a tal era chegou em boa hora, já que vivemos um momento de reflexão mundial diante da pandemia do coronavírus. E, para facilitar essa reflexão, temos à nossa disposição ferramentas tecnológicas que ilustram nosso avanço rumo ao esclarecimento.

Tivemos a oportunidade de conversar com Spvic sobre os conceitos da Era de Aquário. O papo também contemplou discussões sobre a atual cena do rap brasileiro, sobre as influências para as novas músicas, sobre amadurecimento e muito mais!

Confira abaixo:

TMDQA!: Aquário diz muito, e de diversas formas, sobre futuro, comunicação e imposição. Como foi desenvolver essa proposta e no que ela difere da narrativa do Teto Baixo, de 2017?

Spvic: Foi de maneira muito natural, pelo menos a meu ver. Talvez isso tenha a ver com o fato de que estamos chegando aos 30 anos. Consideramos o Teto Baixo um outro momento, porque ainda éramos independentes. O Aquário é o primeiro álbum com uma grande gravadora, então foram mais de três anos para entendermos esse novo mundo. O tema foi algo que eu propus. A gente tem esse lance de cada um tomar a frente do conceito de um álbum. Fotografia de um Instante (2014), por exemplo, foi o Spi (Spinardi), Teto Baixo foi o Qualy e agora o Aquário fui eu de novo. Cada um visualiza o que quer passar em um álbum, convence o grupo e fazemos o trabalho em grupo. O que difere mais do nosso disco anterior é o amadurecimento mesmo. É uma outra fase, especialmente para mim, que tive uma filha.

TMDQA!: A capa ficou incrível e acho que traduz de forma sintetizada o que vocês falam nas letras. Como surgiu a ideia da capa e o que ela representa?

Spvic: A ideia da capa foi minha também! Eu estava com essa ideia há um tempo, de falar sobre a Era de Aquário. Quis que a capa tivesse uma arte com o Leandro Dexter, que é um ilustrador com quem já trabalhei. Eu imaginava que ele fosse conseguir alcançar esse lance mais futurista que eu propus, trazendo como referência o disco Reanimation, do Linkin Park. Queria uma estética mais de animação, pensando o Haikaiss no futuro.

Capa de "Aquário" (Haikaiss)

Capa de "Reanimation" (Linkin Park)

A Era de Aquário é do futuro. É algo que ainda está por vir. O disco foca nas transformações que ocorrem nesse processo, como se fosse o nível de esclarecimento que a sociedade está criando para chegar nessa era, a era da compreensão. A capa mostra a raça humana como se fosse uma raça híbrida, com outros seres ali de fundo. Tem vários outros detalhes também. Eu queria fazer ilustrar também o lance das pessoas quererem ir mais a fundo, de refletirem se aquilo se trata de uma raça específica. Eu queria essa profundidade na capa.

O DJ Sleep, por exemplo, desenha também, e tem um personagem que ele criou, que virou até tatuagem no corpo dele. Eu trouxe essa coisa pessoal dele. O Spinardi trouxe a parada do Gray Wolf, que é uma parada mais íntima da experiência dele. É como se a capa tivesse a melhor versão de cada um de nós.

 

“Um disco entrega muito mais do que o simples desejo de entreter”

TMDQA!: A gente vive tempos cada vez mais corridos. Para a indústria, parece que faz cada vez mais sentido um artista investir no lançamento de singles ao invés de um disco completo. Dito isso, eis que chega o Haikaiss e lança um disco com mais de uma hora de duração, completamente fora até mesmo dos padrões de discos, que hoje ficam majoritariamente entre 30 e 40 minutos. Seus discos costumam ser mais longos, mas isso é alguma espécie de afronta ou era tanta coisa a ser dita que não teve como “resumir”?

Spvic: Eu acho que é o lance de a gente estar mais maduro. Estamos nos aproximando dos 30, então eu acho que a gente é apegado ainda a esse lance do álbum. Para um artista, um disco entrega muito mais do que o simples desejo de entreter. Existem artistas que têm esse objetivo, de apenas entreter as pessoas com singles para colocá-los no topo das paradas. Com o Haikaiss, a gente sempre teve um apreço muito maior pelo o que compomos e produzimos.

Não daria certo o Haikaiss trabalhando em um formato como esse. A gente sente a necessidade de realmente entregar algo grandioso, e achamos que só um disco cheio entrega isso. E vamos continuar trabalhando assim! A gente também trabalhou com singles em vários momentos da nossa carreira, mas achamos que o álbum é o que traz o chão, esse pé de realidade. Traz um pouco do que está acontecendo, sabe? Aquário, por exemplo, vai fazer todo mundo vai lembrar desta época, em que estamos literalmente vivendo em aquários.

TMDQA!: O disco conta com algumas participações especiais. E o mais interessante de ver é que são parcerias dos mais variados estilos: tem hip hop, tem pop… Mas a escolha de artistas do funk e do pagode surpreendem e chamam a atenção. Como foram pensadas essas parcerias?

Spvic: Teve muito a questão da afinidade. Mas, sendo o primeiro disco com a Som Livre, foi importante pensarmos em participações grandiosas. Calhou de conseguirmos o Ferrugem, o MC Pedrinho, o Vitão e o Projota, artistas dos quais já éramos fãs. Calhou de encontrarmos esses caras naturalmente e desenvolvermos um sentimento em comum pelas composições. A gente não programou, pensando em chamar os caras mais “bombados”. Cada um veio com uma ideia a partir de seu gosto pessoal, e deu tudo certo!

 

“O mundo já tinha que mudar e, infelizmente, precisou ser desse jeito”

TMDQA!: Vocês lançaram o Aquário em tempos de isolamento social. Como está sendo essa experiência para vocês?

Spvic: Está sendo uma via de mão dupla. Mudou todo o planejamento que a gente tinha junto da gravadora, fazendo com que tivéssemos de cancelar muita coisa. Não apenas para o Haikaiss, mas também para todos os artistas. Por outro lado, aproximou todo mundo de suas famílias. Eu, particularmente, estou conseguindo passar muito mais tempo com a minha filha. Eu sempre viajei muito, então está sendo bom passar um tempo a mais com ela. Mas vale lembrar que estamos vivendo um momento sinistro. É algo surreal que vai mudar a forma como o mundo opera. A verdade é que o mundo já tinha que mudar e, infelizmente, precisou ser desse jeito.

TMDQA!: O final de “Viveiro” conta com uma discussão que achei muito interessante. Vocês discutem se a arte tem preço e se a arte tem validade, mas não chegam a uma resposta certa. Qual seria, na visão de vocês, o veredito, dada a experiência do grupo?

Spvic: Foi proposital. A ideia foi mostrar que certas discussões não precisam estar submetidas a um senso comum, porque cada um tem a sua opinião. Quisemos mostrar que precisamos dar a liberdade necessária para cada um mostrar o que pensa. A gente quer mostrar o que é ser humano, que cada um tem a sua posição.

 

“A geração, em geral, está chegando com tudo”

TMDQA!: Uma coisa que chama muito a atenção no Haikaiss é fato de ser um grupo. Hoje em dia, a maioria absoluta dos nomes nacionais do hip hop são artistas solo, como Baco Exu do Blues, Filipe Ret, Djonga… Como é a vivência de um grupo de hip hop, em termos de convívio, composição e aparição na mídia?

Spvic: Eu considero é algo que mostra bastante maturidade, porque é difícil. Não só fazer um grupo como conseguir mantê-lo, por causa dessas questões da ambição pessoal de cada um, de não estar muito sujeita a ouvir os outros… O Haikaiss, como toda boa família, construiu uma relação. A gente pensa bem em grupo e toma todas as decisões junto. Um já sabe o que o outro pensa, o que facilita bastante as coisas.

Sobre isso de a maioria da cena ser composta por artistas solo, eu não sei porque acontece. Não sei se é lance de ego, mas nós acreditamos muito na ideia do grupo, até por causa do hip hop e de tudo que envolve essa estética. Quem acompanha a gente desde o início sabe que todo momento inclui algo que envolva o hip hop. Não são só os toca-discos ou ter grafiteiros nos clipes. Agora, por exemplo, estamos fazendo bastante coisa com dança, especialmente o Qualy. A gente sempre inclui o hip hop em tudo, porque está presente nas nossas vidas.

TMDQA!: Desde o início do Haikaiss até hoje, a cena de hip hop cresceu no Brasil de uma forma incrível. Desta galera nova, quem vocês mais admiram? Que artistas recomendariam pra gente?

Spvic: Vou ser sincero: eu admiro todos! Toda essa geração nova é incrível. Tem um ou outro que é meio doido da cabeça e acha que o Brasil é a gringa, sabe? Sempre tem uns que são sem-noção, mas a geração, em geral, está chegando com tudo. Trabalhando muito, escrevendo bem, montando seus estúdios e fazendo seus corres… Admiro muito todos eles. Citando nomes, tem uma galera, desde o Jovem Dex na Bahia até o a rapaziada do Rio de Janeiro, como o NGC Daddy, o [NGC] Borges… A própria galera do Cortesia da Casa, que são grandes parceiros nossos. Tem também o Salvador da Rima, o Kant, o Matuê… Isso sem falar na galera mais consagrada, como Djonga, Froid e BK.

TMDQA!: Aproveitando o assunto da cena, que nomes nacionais e/ou internacionais serviram de inspiração para o Aquário? Ao longo do disco, vocês citam nomes que vão desde Busta Rhymes até John Frusciante, o que eu acredito de dê alguma perspectiva sobre essa amplitude musical do grupo.

Spvic: Acredito que temos muitas inspirações no nosso inconsciente, mas o Haikaiss acaba sempre tentando imprimir uma cara que seja nossa nos trabalhos, mais nossa do que outras coisas que a gente ouve. Se eu for citar o que a gente estava ouvindo na época, às vezes as pessoas nem vão achar parecido. Eu particularmente estou em uma fase onde escutei muito Tuxedo, Anderson .Paak… Também escutei bastante aquele disco do Arthur Verocai com participação do Criolo e do Mano Brown, o Voo do Urubu. O Qualy, por exemplo, escuta muito Bruno Mars, Moka Only, Ila Jay… O Spi curte muito Old Cast, Busta Rhymes… Tem muita gente! Na hora de fazer o nosso disco, a gente vai mais para o que a gente conhece. Já temos o nosso tato para o que deve ser Haikaiss.

 

“Foi uma caminhada linda e elegante”

TMDQA!: Olhando desde o início das atividades do Haikaiss até hoje, como vocês enxergam a evolução do grupo, em tanto em termos profissionais quanto pessoais?

Spvic: Eu enxergo esse crescimento com muito orgulho. A gente passou por muita coisa, desde trabalhar junto em empresas que não tinham nada a ver com a gente só para ganharmos grana até fazer manualmente os CDs, comprando gravador, CDs virgens, material para fazer a capa para vendermos a dois reais. A gente já fez de tudo! Foi uma caminhada linda e elegante. A gente amadureceu muito nesse processo, em todos os sentidos.

TMDQA!: Alguma contribuição final?

Spvic: Quero aproveitar o espaço para dizer que eu tenho muito mais discos do que amigos (risos). Quero mandar um abraço para todos aqueles que ouviram o disco. Quem ainda não ouviu, que vá ouvir para tirar suas próprias conclusões e acompanhar este começo, meio e fim da Era de Aquário!

   
 
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