Danislau

Literatura rock’n’roll. É assim que poderia descrever “Hotel Rodoviária”, novo livro de Danislau. Talvez você conheça ele pelo seu trabalho com a banda mineira Porcas Borboletas. Mas esse livro vai te surpreender. Com influência beatnick e do velho safado Bukowski, o livro cria um retrato muito bacana de um universo marginal.

Conversamos bem rapidinho sobre música e sobre o livro, que foi lançado no último dia 22 na Balada Literária, em São Paulo.  Para mais lançamentos, fique ligado no site do livro.

TMDQA – Como surgiu a ideia do livro?

Danislau – Esse livro não pintou como resultado de um projeto, de uma programação. A primeira leva de parágrafos veio de uma vez, mais ou menos 6 anos atrás. Fui escrevendo, dando umas risadas, escrevendo mais. Quando vi, havia um cara ali. Um personagem. Dei asas, deixei o personagem viajar um pouco. Essa primeira parte do trabalho foi assim. Despretensiosa. Faz lembrar o verso do Fernando Pessoa: “Todo começo é involuntário”. Depois disso comecei a lapidar a pedra, dar uns tapinhas aqui, outros ali. Esse foi o processo: primeiro um processo espontâneo. Depois, um processo dirigido.

TMDQA – Seu trabalho como músico influenciou na criação? Dá pra sentir uma forte influência beatnick tanto na estética quanto na temática.

Danislau – O palco, o rock, a coisa toda, influenciaram muito. O palco é um espaço de radicalidade, de urgência, de saúde, de vigor. O texto do Arnaldo Antunes (essa vai ser a última vez que me apoio em poemas dos outros, prometo) canta essa pedra muito bem: “Sempre é pouco quando não é demais”. Isso está no rock: se não é muito, se não é tudo, é pouco. Fiz questão de ligar o Hotel Rodoviária nessa tomada. A tomada 330 volts do rock e do palco.

TMDQA – Você já está trabalhando em algum novo projeto? E a banda? Como anda?

Danislau – Tenho um projeto bem adiantado. Pretendo mostrar pra quem ainda não viu no segundo semestre de 2015. É uma opera rock solo intitulada CARNIÇA. O Porcas Borboletas tá indo muito bem. Completamos, em 2014, quinze anos de banda. Possivelmente vamos compor um disco novo em 2015.

TMDQA – Qual livro você indicaria para quem curtiu seu trabalho?

Danislau – Eu indicaria o livro que meu parceiro Enzo Banzo tá lançando agora, junto comigo. Livro lindão de poemas. É o POESIA COLÍRICA.

TMDQA – Sempre perguntamos, nessa coluna, sobre a relação do artista com formatos de consumo de música. O que ele acha da volta do vinil, do streaming e tal. Gostaria de saber a sua também. Qual formato você mais ouve? Como você consome música? Mas, além disso, como você enxerga o livro digital?

Danislau – Amo o vinil. O vinil, pra mim, é um suporte que apresenta o som de uma maneira miraculosa. O som consta na sala como um dado físico, real, palpável, até. Ele ocupa o espaço como se fosse um sofá. Essa experiência me parece insubstituível. Mp3 eu adoro também. É uma conquista. Andar com muita música no bolso, colocar trilha sonora nas andanças, coisa mais linda. Do CD, gosto do som. É bem superior ao mp3, em termos de amostragem, e soa bem diferente do disco de vinil. O que eu não gosto do CD é que eu acho a mídia meio poluente. Feia. O que se pode fazer com um CD estragado? Não há artista plástico que dê aproveitamento pro tal do compact disc.

TMDQA – Você tem mais discos que amigos? E mais livros?

Danislau – Na época do vinil, eu tinha mais amigos que discos. Depois veio o mp3, passei a ter mais discos que amigos. Mas quando pintou o facebook, a coisa ficou empatada. Livros, tenho pouquíssimos. Acho que livro é um tipo de objeto que não se submete à lógica da propriedade. Por mais que se escreva o nome no livro, pra demarcar território, o objeto permanecerá sem dono. Livro é pra voar. Deixo os meus voarem. Engraçado que jamais os reencontro. É como se diz em alguns lugares do Brasil: deu, tá dado.