Nick Cave no Primavera Sound 2013
Foto de Nick Cave via Shutterstock
 

Nick Cave tirou tempo de sua agenda mais uma vez para responder à carta de uma fã, como tem feito bastante nos últimos meses.

O cantor recebeu uma mensagem de uma garota de 16 anos chamada Bárbara, que mora na Itália, e está com problemas de autoestima. Em sua mensagem a Cave, a menina disse:

Eu me sinto muito mal sobre mim mesma. Não vejo nada de positivo no meu corpo, odeio me olhar no espelho e isso me faz sofrer muito. Sinto que todo mundo é melhor que eu, apesar de ter feito coisas muito importantes para alguém de apenas 16 anos de idade. Como devo me comportar? O que devo fazer comigo mesma?

Mostrando toda sua sensibilidade e sabedoria, Nick confessou que buscou ajuda de algumas amigas mulheres para poder responder a adolescente. Em sua carta resposta, Cave ainda agradeceu pela coragem da menina em compartilhar sua experiência.

Ele disse:

Tomei a liberdade de discutir isso com várias amigas e não houve uma delas que não tenha ficado tocada por sua honestidade e que não entendesse exatamente do que você estava falando. Parece que você não está sozinha em achar que o espelho é seu inimigo, mas é única em ser tão aberta e sincera quanto à sua relação com ele.

Para mim, a pergunta me levou de volta à minha adolescência e ao relacionamento conturbado que mantinha com minha própria imagem refletida, e aqueles anos adolescentes que foram pesadelos em frente ao espelho. Receio dizer que essa autoavaliação constante não diminui significativamente à medida que você envelhece, mas se torna mais fácil de lidar. Atualmente, vivo principalmente em hotéis e, com cautela, entro em um banheiro diferente a cada noite, com seus espelhos angulares e iluminação impiedosa, e fico diante do espelho na minha posição mais indefesa e exposta, e a observo fazer seu pior.

Muitas vezes me pergunto quanta miséria acumulada um espelho de hotel deve ter, pois reflete de volta para nós o que parece ser nosso eu essencial. Mas, é claro, o que o espelho projeta não é nosso verdadeiro eu, mas apenas nossa casca externa refletida. O que é praticamente impossível ver dentro de um espelho é que a própria essência de nossa humanidade, nossa vulnerabilidade e fragilidade, é a coisa mais bonita que possuímos.

[…]

Barbara, fico feliz em saber que você já fez coisas importantes aos 16 anos de idade, porque geralmente é o que fazemos que afasta nossa atenção do que pensamos ser ou da maneira como pensamos que somos. Esse pingo de orgulho em suas palavras pode ser aquilo que a levará para casa, onde você volta através da superfície refletida do seu corpo para o seu eu autêntico. Sua pergunta cheia de dor tem uma grande esperança, porque, para nos conectarmos de maneira significativa com o mundo, precisamos ter algum entendimento de sua tragédia inata.

Paradoxalmente, a fragilidade de sua pergunta é uma força imensa e diz algo muito profundo sobre você como pessoa; algo muito bonito brilha através de suas palavras infelizes. O corpo em que você não consegue ver nada de positivo possui um coração extraordinariamente corajoso, honesto e inteligente. Sua pergunta é uma prova de sua especialidade e, ao perguntar, você tocou a todos nós.

Que fofo, não?

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