Por Nathália Pandeló Corrêa

Steve Aoki é uma presença constante na música há mais de 20 anos. Seja na fundação de seu selo, Dim Mak Records, passando por bandas de hardcore e punk até alguns dos maiores sucessos da música eletrônica e pop dos últimos anos, o americano de 41 anos continua sendo um dos artistas mais requisitados nos palcos mundo afora e quebrando recordes. Entre eles estão os curiosos “mais glowsticks balançados no ar” e “grito mais longo feito por uma multidão”, reconhecidos pelo Guinness.

Essa energia é sinônimo nos seus sets, seja nos festivais de música eletrônica mais nichados, seja nos palcos mais visados da música pop. Um deles é o Lollapalooza, onde o DJ e produtor aporta em São Paulo, após uma breve passagem por Salvador, onde será atração de um camarote durante o Carnaval. Ele leva essa mesma versatilidade para a série de álbuns “Neon Future” – a terceira parte foi lançada em 2018 e será o mote do repertório por aqui.

 

Conversamos com Steve Aoki por telefone sobre seu início como guitarrista, a importância da representatividade asiática na cultura de massa e as mudanças no cenário da música de 1996, quando fundou a Dim Mak, até aqui. Confira!

 

TMDQA!: Oi Steve, obrigada por seu tempo! Sei que você está ocupado, então vou tentar ser breve. Acho que um dos motivos pelos quais existe um documentário sobre o quão ocupado você é [I’ll Sleep When I’m Dead, da Netflix] e por que está tocando em todos os lugares é que não se limita só a tocar EDM ou house ou trap, o que atrai públicos mais diversos. E você vai vir tocar no Lollapalooza, que é mais voltado para uma cena rock e alternativa, mas também se apresenta no Tomorrowland e esses festivais eletrônicos gigantescos… Seria essa uma forma de deixar as turnês mais interessantes e diferentes pra você? E como você brinca com o set, dependendo de onde vai tocar ou pra quem vai tocar?

Steve Aoki: Boa pergunta… É muito importante como DJ não perder isso de vista, de quem está te ouvindo tocar. Quando eu penso no Brasil, eu imagino uma coisa. Quando penso no conceito do Lollapalooza Brasil, imagino outra. Tocar no Carnaval, outra. Então tudo depende. Sei que meus fãs brasileiros sempre comparecem, então tenho certeza que energia boa vai ter. O Lollapalooza é um festival de público bem diverso, então eu vejo como uma boa oportunidade de mostrar meu som para pessoas que normalmente não me ouviriam, sabe? Às vezes as pessoas estão no festival, já ouviram falar do meu nome, mas não conhecem nenhuma música. Ou às vezes reconhecem algo que eu toco e ficam pro show. E ainda mais agora que eu vou levar a turnê do meu disco mais recente, Neon Future III, e ele tem um pouco para cada gosto. Chamei artistas super diversos – tem blink-182, Mike Posner, BTS, Daddy Yankee… Muita gente que fala com públicos diversos também.

TMDQA!: Verdade. Falando em gêneros diferentes, a série Neon Future é um reflexo do quão eclético você é. Vai de blink-182 a Lady Antebellum, de Daddy Yankee ao cientista Bill Nye! Você diria que esse é um retrato fiel de quem você era de 2014 a 2018, ou foi basicamente uma desculpa para colaborar com um monte de gente que você admirava? (risos)

Steve Aoki: Eu diria que é um pouco dos dois (risos). Eu usei esse disco para abordar artistas de quem sou muito fã. Tipo o Linkin Park, o Chester Bennington, sempre foi o meu maior sonho fazer algo com eles. Esse disco é um projeto que me permite ser livre, colaborar com quem eu quiser, seja alguém da música ou não. O próprio conceito de Neon Future é bem científico, então eu queria alguém da ciência falando sobre o futuro, sabe? Então chamei o Bill Nye. E tem o Lady Antebellum, que fez uma colaboração linda à música [Our Love Glows], e isso é tão raro, ver artistas do country se unindo à eletrônica. Então veio muito dessa vontade de explorar elementos completamente diferentes.

 

TMDQA!: Já vi você falar bastante da filosofia faça-você-mesmo que encontrou na cena hardcore e como isso te ajudou a construir sua carreira e seus negócios. Ser um artista independente se tornou um pouco mais fácil ao longo dos anos e cada vez mais é um mercado próprio, com liberdade criativa e músicos realmente ganhando dinheiro e ditando os termos. Já que você é um dos artistas que estavam lá no início dessa mudança de como fazemos e consumimos música, queria saber como enxerga o mercado hoje para artistas e DJs independentes, e se teria um conselho pra quem está começando agora.

Steve Aoki: Eu lembro quando costumava falar sobre isso, lá no começo de 2010 – nossa, quase 10 anos atrás. E era tipo, “uau, agora os artistas não precisam assinar um contrato com grandes gravadoras”. Havia todo esse poder de mudança, as redes sociais permitiam você divulgar sua empresa da palma da mão, você não precisava do capital, e sim de um bom conteúdo ou serviço, e estava totalmente sob seu controle. Agora, o que acontece? A saturação no mercado cresceu exponencialmente. Há tantas pessoas dizendo isso, que farão algo sozinhas porque podem, que virou um mar de conteúdo que é muito mais difícil de atravessar. Então eu digo que hoje em dia, pra entrar nessa, você precisa se certificar que a sua música não é só boa. Ela tem que ser incrível, maravilhosa. Você tem que assumi-la e poder defender o seu som. Por outro lado, hoje há tanta gente fazendo e ouvindo música, que surgem também subgêneros e subculturas, então você pode crescer ali dentro de um nicho, o que também é incrível. E até do ponto de vista de um selo ou gravadora, com os artistas já mostrando seu conteúdo online, fica mais fácil de recrutar novos talentos. Ou seja, acho que todo mundo sai ganhando.

 

TMDQA!: Você comenta sobre começar justamente no hardcore e no punk porque não se encaixava em nenhum outro lugar, e essa foi a galera que te aceitou como um deles, um dos párias. A gente publicou recentemente um post sobre esse momento na sua vida, por isso estou comentando! Qual foi a importância pra você naquele momento de se expressar com uma guitarra nas mãos? E agora que você quebra recordes como DJ e produtor, você diria que essas bandas serviram de degraus pra você galgar e se tornar de fato quem deveria ser?

Steve Aoki: Acho que a lição mais importante que ficou pra mim é que no fim das contas, o trabalho duro supera todas as coisas. Ele é a sua ferramenta mais importante. Só através dele é que você vai saber o que funciona e o que não funciona, vai falhar, cair, perder tempo, dinheiro… Mas o que importa mesmo é como você vai levantar, como isso vai te deixar mais forte. Foi essa noção que me fez ir adiante, independente de ser numa banda punk, de ser prestando um serviço. Seja música, arte, moda, o importante é seguir em frente. Eu sigo esse pensamento desde que eu era um adolescente, e agora estou com 41 anos. Foi isso que me fez ir além. E entender que todo sucesso é relativo. Se você só se compara com pessoas que têm muito mais dinheiro que você, por exemplo, sempre vai sair perdendo. O importante é se comparar com o seu último fracasso, ou com o seu último sucesso, e ver como evoluiu a partir dali.

TMDQA!: Você se uniu ao BTS e ainda somou o Ken Jeong, por via das dúvidas, no clipe, e o resultado foi outro sucesso. Mas acho que talvez signifique mais do que isso, quando você pensa na representatividade asiática na mídia de grande alcance ao longo do último ano – o próprio Ken estava no filme Podres de Ricos, por exemplo. Como um dos artistas mais bem sucedidos com origem asiática-americana na última década, como você vê os paradigmas que quebraram e o que ainda precisa melhorar, no sentido do protagonismo asiático?

Steve Aoki: Eu diria que parece uma renascença asiática, em todos os setores. Você acaba pensando na cultura onde está inserido, né? No meu caso, eu sou japonês-americano, sou asiático-americano, e acabo representando pessoas que são como eu, querendo ou não. A minha percepção é que estamos num bom momento para essa representatividade. Se você olha para Podres de Ricos, foi algo massivo e num momento ótimo. Acho que o tempo das coisas fez toda a diferença. Waste It On Me veio logo após o filme. E ao mesmo tempo, tem a minha marca de roupas, Dim Mak, significa “o toque da morte”. Em 1996, eu fundei meu próprio selo, e mais de 20 anos depois, estou aqui lançando uma linha de roupas toda temática do Bruce Lee, autorizada pela família dele. 40 anos atrás, ele fazia algo que dominava o mundo, inspirava pessoas do planeta inteiro. Todos o conheciam, muitos eram influenciados por ele. E eu era uma criança e o admirava, porque pensava “uma pessoa asiática tem o poder de inspirar o mundo”. Agora passaram 40 anos e você tem o BTS, que faz parte do que eu chamo do “fenômeno Bruce Lee”. É algo raro você ter pessoas da Ásia com um alcance global como eles. E é incrível que tudo isso esteja acontecendo ao mesmo tempo. Essa renascença, ou como quisermos chamá-la, com BTS, “Podres de Ricos”, minha linha de roupas… Tudo vai somando e é incrível poder viver nesse momento. Sinto que artistas asiáticos estão ganhando voz e falando de suas experiências, e isso é demais.

 

TMDQA!: Com certeza. Esperamos que isso nunca acabe.

Steve Aoki: Tomara!

 

TMDQA!: Bom, sei que você é um cara de guitarra, mas vem comigo nessa ideia: como DJ, você reconhece uma boa batida quando a ouve. E quando você pensa em quão percussiva é a música brasileira, talvez você curta, não sei. Você pensaria em fazer algo novo com música brasileira quando você estiver por aqui, tipo escolher uma música mais tradicional e dar a ela o seu estilo?

Steve Aoki: Sim, com certeza. No Neon Future III, eu usei “Baile de Favela” e transformei em algo meu, mais EDM mesmo. É uma música que eu adoro e adorei recriar. Eu penso também em fazer um disco inspirado pelo funk, talvez usando as mesmas batidas. E quando eu estiver aí pro Lollapalooza, acho que vamos estar divulgando uma música minha com o Alok, que vai sair em breve.

       
 
Compartilhar