Liderada pela repercussão internacional do Boogarins, a nova psicodelia brasileira tem alçado voos consideráveis nos últimos anos, apoiada nas asas de uma geração numerosa de artistas vindos de todas as regiões do país. E justo quando essa cena parecia prestes a cair no cansaço, na repetição das mesmas fórmulas, surge Cosmos, o disco de estreia do quarteto capixaba My Magical Glowing Lens.

Lançado em maio em uma parceria entre os selos Honey Bomb Records, Subtrópico e PWR Records, Cosmos é um disco de velocidade e ritmo próprios, inspirado tanto nos devaneios mais distantes do Pink Floyd quanto no cruzamento de referências da geração de Tame Impala e de outras bandas contemporâneas do MMGL no Brasil.

Amarrado por questões existenciais e conceitos filosóficos, o álbum é fruto da mente inquieta da vocalista, guitarrista e compositora Gabriela Deptulski, que fundou o My Magical Glowing Lens como um projeto solo, em Vitória, e hoje divide os palcos e os estúdios com Pedro Moscardi (sintetizadores), Gil Mello (baixo) e Henrique Paoli (bateria).

Para entender de onde vêm e para onde vão as propostas sonoras e questionadoras de Cosmos, o Faixa Título conversou com Gabriela sobre o momento atual da banda, a produção do álbum, e a relação da guitarrista com o feminino e o feminismo. Leia a conversa abaixo, logo após o clipe de “Raio de Sol”:

Faixa Título – O lançamento do Cosmos e os últimos shows de vocês repercutiram muito bem, renderam muitos elogios. Como têm sido esses últimos tempos à frente do My Magical Glowing Lens?

Gabriela Deptulski – Olha, são tempos de muito aprendizado, sabe? A gente fez uma turnê de um mês e meio, então a gente ficou muito junto durante muito tempo. Isso faz você aprender a lidar com as pessoas com quem você trabalha, e fez a gente crescer muito musicalmente, também. Entendemos que o meio musical é muito maior do que a gente pensava, muito mais complexo do que a gente pensava, e isso gerou novos planos, novas coisas pra gente fazer. E a gente entendeu que a gente tem que encarar isso como uma profissão, mesmo. Tem que trabalhar o dia inteiro se não a parada não dá certo. A gente conheceu muita gente, também. Pessoas incríveis que acreditam na música, mesmo. Que não querem fazer da música só um mercado, e sim uma coisa pra expandir a alma, pra gente conseguir ser um pouco mais feliz nesse mundo, que é tão cheio de crise, né? Tá sendo incrível, tá sendo muito legal.

Interessante você falar isso, porque todo o conceito do Cosmos veio do “Om”, o som primordial, não é isso? Você se vê como uma pessoa espiritual, religiosa, alguma coisa assim?

Depende, né? Religiosidade tem a ver com religare, que vem do latim. E religare é uma religação com essa coisa que a gente chama de Deus. Mas é difícil dizer que eu sou religiosa porque eu não tenho uma religião fixa. Eu adoro pesquisar sobre religiões orientais, leio muito sobre o budismo, acho foda. Pesquiso também sobre muitas religiões africanas, sobre as religiões que se misturaram, tipo candomblé, umbanda… E tenho uma espiritualidade sim, muito forte. Isso do “om” veio de um livro que eu li. Um livro do Herman Hesse, um escritor alemão que conta a história do Siddartha [Gautama], que é tipo o Buda. Ele faz uma releitura, porque várias pessoas contam essa história do Buda. Parece que ele viajou para alguma região da Índia, se interessou muito por isso e escreveu um livro fazendo a releitura dessa história do Buda, que é o Siddartha. O livro é a história de um rapaz que tem uma busca espiritual, que quer se elevar espiritualmente. E tem uma parte em que ele entra em contato com o “om”, que é a vibração do cosmos. E eu lembro que eu li antes de dormir, e fiquei muito confusa com essa história. E aí eu tive um sonho em que era tudo escuro e uma música ia tocando, que eu ia compondo uma música, e tinha umas luzes se mexendo com a música. E aí tudo isso foi montando um arranjo de sons que eu identifiquei que era esse “om”, esse som primordial, que é como se fosse essa vibração do todo, da unidade de tudo. Aí foi a partir disso que eu criei esse conceito do álbum.

Cosmos é um disco sem pressa, um disco que parece respeitar o próprio tempo. Como correu o processo de criação dele, desde as composições até o produto final?

Nossa, foi muito difícil. Eu sou super insegura com as coisas que eu faço. Eu sempre acho que não tá bom o bastante. Então quando eu juntei as onze músicas, [se perguntou] “cara, será que é isso?” (risos). Aí eu levei pra banda e todo mundo gostou, a gente começou a fazer. Na hora da gente gravar realmente não teve muita pressa, a gente gravou com muito cuidado. A gente gravou primeiro as prés todas, tocando todo mundo junto, analisou essas prés, e aí sim começou a gravar tudo separado. Foi tudo com muita calma, muita paciência. A gente gravou em casa, e nós mesmos fomos os técnicos de som. Gravar as baterias, por exemplo, foi incrível, porque o Paoli é muito criativo. Ele pregou um vinil na caixa pra gravar uma música, acho que foi “Não Há Um Você no Seu Interior”. Pra ficar com um som meio estragado, assim. Tem barulho de todo tipo de coisa, de um molho de chaves, tudo muito inventivo. Têm guitarras que eu gravei quatro, cinco vezes até atingir uma coisa espontânea mesmo, que eu nunca vou conseguir repetir.

Gabriel Deptulski (esq.) e Larissa Conforto (ao fundo, na bateria), em show do My Magical Glowing Lens no CCSP, em São Paulo. Foto: Theodora Charbel

O My Magical começou como um projeto solo seu, né? Em que momento você sentiu a necessidade de tocar com mais gente, de formar uma banda, mesmo?

Eu nunca encarei como um projeto solo. Mesmo quando eu compunha sozinha, eu ficava imaginando os integrantes na minha cabeça, meio que uns integrantes imaginários. Eu até comecei a escrever um livro sobre isso, sobre esses integrantes, para deixá-los mais reais. Eu sempre tive muita vontade de tocar com as pessoas, mas é difícil. Vitória é difícil. É muito machista, a galera não dá muito valor pra menina que toca. Então eu gravei sozinha mais por necessidade, não porque eu queria. E como eu fazia tudo sozinha, ficava muito sozinha, gravava tudo sozinha sempre, eu achava que ia ficar em casa mesmo. Pra sempre. Mas aí as pessoas começaram a me convidar pra tocar. “Não, tá muito bom, tá foda, vamos tocar ao vivo”. E aí tivemos várias formações até chegar nessa formação de quatro pessoas, que é o que eu sempre quis, que é a mesma formação do Pink Floyd [com guitarra, baixo, bateria e teclado]. Aí quando eu vi que tava todo mundo muito pilhado, eu falei: “vamos gravar então, como banda”. E assim aconteceu essa formação e o álbum.

E o livro sobre os integrantes imaginários, vai sair um dia?

Ah… será? Olha, ele é grande, viu? É um caderno daqueles tipo brochura, com 96 páginas, acho que quase completo (risos). Não sei… Acho que não. Ele é muito pessoal. Eu queria ser escritora, no passado. Eu fiz filosofia, lia muito. Eu escrevia pra caramba, mas nunca publiquei nada. Morro de vergonha. Acho muito íntimo.

Vindo de Vitória, que não é um grande centro como Rio ou São Paulo, como você vê a cena independente, hoje?

É muito difícil, tem muita glamourização. As pessoas acham que são rockstars. A gente vive duro, sem dinheiro, viajando por aí, dormindo em sofá. A gente faz porque a gente gosta muito, é muito dureza. Nossos cachês são sempre baixos… É foda. Mas ao mesmo tempo é maravilhoso. Mas é difícil.

A My Magical Glowing Lens é considerada uma das principais bandas nessa nova onda de rock psicodélico feito no Brasil, ao lado de muitas bandas que quase não têm mulheres. E recentemente você cancelou um show em São Paulo após denúncias de machismo que envolviam o dono da casa. Como ser mulher influencia a sua postura como artista?

É muito preconceito que a gente sofre. É como eu te falei, eu comecei a fazer a banda sozinha porque ninguém queria tocar comigo, sacou? E é isso mesmo, nessa cena psicodélica tem pouca mulher. As bandas que tão em evidência são todas de homens. Mas eu tendo a enfrentar as coisas. Eu tento recriar as frustrações que aparecem pra mim como se fossem algo que eu tivesse que ultrapassar, e que isso fosse bom pra mim. Então ao mesmo tempo que é ruim, por eu enfrentar esse preconceito, é bom porque me faz querer mudar as coisas. A gente cancelou o show na Casa do Mancha por um pedido de várias meninas que vieram falar comigo. Eu me senti uma representante das mulheres, sabe? E isso é muito bom, também. Porque as mulheres olham pra mim e falam: “se ela pode, eu também posso”. Então isso me dá força pra continuar. Eu gosto do enfrentamento, de enfrentar as regras sociais, de enfrentar as normas que foram colocadas pra gente só pra fazer esse sistema funcionar. Essa história de preconceito é muito pesada, e não só em relação à mulher, mas em relação aos homossexuais, aos negros, aos índios. Eu me sinto unida com essas classes que foram reprimidas para enfrentar essas regras. E isso é muito foda.