ACruz Sesper: conversamos com Alexandre e temos uma inédita do vocalista do Garage Fuzz

ACruz Sesper
 

Alexandre Cruz é um nome bastante conhecido do underground nacional.

Há alguns bons anos ele é a voz da mega influente banda Garage Fuzz e agora está lançando um novo trabalho solo como ACruz Sesper.

O novo registro do trio formado por Alexandre Cruz (guitarra, vocais), Fernando Denti (baixo) e Giuliano Belloni (bateria) será um EP chamado No Song As A Trio, a ser lançado em 20 de Janeiro em todas as plataformas digitais.

Nós conversamos com Alexandre sobre esse novo projeto e também descolamos a audição exclusiva da inédita “Invisible Lines”, que você pode conferir logo abaixo enquanto lê a matéria.

Divirta-se!

TMDQA!: Após tantos anos dedicando-se ao Garage Fuzz, como surgiu a ideia de gravar esse trabalho solo e como você optou pela escolha dos músicos que estão te acompanhando? Você chegou a cogitar uma nova banda por completo, com outro nome, ou sempre teve a ideia de seguir com o seu?
Alexandre Cruz: Eu tocava guitarra e cantava no começo do Garage Fuzz, quando montei a banda em 1991, fazendo umas bases de três acordes, e fiquei tocando até 1992/1993. Depois disso a formação da banda mudou, eu fui para o vocal e fiquei um bom tempo sem tocar em uma banda real, então durante o final da década de 90 e 00, eu montei vários projetos lo-fi que muita gente nem sabe que existe: LoFi Experiments com o Carlos Dias em 1996, 5 Gas Question que o Fernando Sanches tocou bateria incidental em 1997, teve o Fliptop com o Aaron Staufer do Seaweed quando ele ficou no Brasil em 1999, Introspective que era um dub punk que fiz em 2002 e saiu agora em cassette e digital e o Vallejo Sunset que fiz em 2009 com o Sergio Lopes. Em 2011 eu comprei novamente uma guitarra e montei um set up próximo do que tinha em 1993, e ai comecei a gravar várias coisas caseiras sem nenhuma pretensão.

Um dia no meio de 2014 o Lucas Cabu e o Mateus Mondini da Nada Nada Discos, falaram que estavam com um projeto voltado para as arte gráficas de músicos que também fossem artistas visuais chamado Rolo Seco e perguntaram se eu não queria gravar umas músicas para lançar em compacto e customizar manualmente todas as 150 cópias do vinil, o que eu topei. Gravei todos os instrumentos no estúdio de um amigo no bairro e pintei todas as cópias durante uma semana no meu atelier e meio que assim surgiu a historia do Acruz Sesper.

Acho que é um projeto que leva meu nome porque sempre esteve integrado ao lance de artes plásticas e musica, não porque eu me achava um super músico. Tudo que fiz e lançamos sempre teve esse apelo, com música e arte autoral.
No início eu não tinha intenção de fazer shows ao vivo levando em consideração que eu tinha gravado todos os instrumentos, bateria minimal, baixo, duas linhas de guitarra e voz. Eu entendi que não seria uma tarefa fácil de executar, então nos primeiros shows a minha filha mais nova, Abigail, tocou um surdo minimal e fizemos uma versão bem resumida do que tinha gravado no compacto.

Em 2015 eu gravei e mixamos mais 10 músicas em 16 horas que viraram o Not Count For Spit que foi lançado em vinil de 10 polegadas pelos selos Rolo Seco Discos, e aí entra o Fred e a Submarine Records na jogada, que entenderam muito bem o que estava rolando e a Submarine assim como o Rolo Seco são bem fora da curva, acreditaram muito no lance e me incentivaram demais. Se a coisa toda andou foi por causa desses caras e do Gustah que gravou o disco na época.

Aí chegaram as 500 cópias que vêm com uma arte original exclusiva pintada à mão em cada unidade, o que caracterizou mais trampo integrado de arte e música.

Fizemos um lançamento em uma exposição que eu estava fazendo em 2016 na galeria Fita Tape, lançamos um box exclusivo com camiseta, poster , k7, 10” vinil, arte original, bottom e vendemos todas as 65 unidades no lançamento.

Nesse show de lançamento eu já fiz um set mais complexo onde eu tocava algumas músicas sozinho e a outra metade do set com a minha mulher, Ale Briganti e minha filha Abigail.

Paralelo a esse período eu estava finalizando e gravando o disco Fast Relief do Garage Fuzz, já estava também tocando em um outro projeto que é o The Pessimists junto com a Camila Leão (Futuro) e com a Nathalia (Rakta) e estávamos lançando um material em vinil e entrando em uma tour de 45 shows pelos Estados Unidos, então nesse momento não achei que o lance do projeto solo teria a necessidade de um formato banda.

Durante o fim da tour do The Pessimists eu fiz uma gravação sozinho tocando em uma floresta em San Francisco e esse foi o momento que eu encarei um setlist do projeto solo realmente organizado, emendando as musicas e entendendo qual dinâmica entre elas combinava. Voltei para o Brasil fiz mais uns 3 shows tocando sozinho e aí veio o lance de ter a galera tocando junto, quando o Fred da Submarine Records me chamou para abrir um show do Hurtmold.

Eu achei que não teria condições de abrir um show deles sozinho porque os caras são muito brutais ao vivo e apesar de conhecê-los há décadas eu ainda os vejo como músicos de outro mundo, amarelei de ir sozinho e aí chegou o momento para o formato trio mais pesado (risos). Eu não escolhi ninguém pensando em super grupo ou coisa parecida, eu chamei meus amigos que estavam próximos e tinham comentado que tocariam um dia caso rolasse um formato banda, o Fernando Denti estava na tour com o The Pessimists tocando com o Sem Hastro e antes dele ir embora,conversamos que voltando poderíamos fazer uns ensaios com o Giuliano (ex-Futuro / B.U.S.H / Static Control) e foi assim.

 

TMDQA!: Para alguém que nunca ouviu o som das suas músicas solo, como descreveria essa nova aventura? Que paralelo você pode traçar com o Garage Fuzz tanto nas composições das letras quanto das canções?
ACruz: Bom, nos primeiros momentos que abordava alguém tentando explicar do que se tratava o som e a ideia do projeto, tanto os selos quanto as outras pessoas soltavam um “Ah legal!” (cara de interrogação) … e quando sai o Garage Fuzz novo? (risos)

Aí teve a galera que já escutou via digital ou formatos físicos que já vinha com o seguinte comentário: “Po tu viu o cara do Garage lá, o ‘farofa’, tá mal né ?! Deve ter voltado a depressão…  escutou as músicas que ele gravou?”

Foi isso durante quase um ano e foi engraçado porque me fez ter noção de que, bom… se vou querer seguir em frente com isso é bom já sacar o que me espera (risos). Que a galera não vai ter perdão em criticar, que vai ter no máximo 10 doidos nos shows, é praticamente começar do zero com um som que não é muito o que a base de fãs do Garage Fuzz tá querendo escutar.

Eu não consigo nem comparar o que faço no projeto solo com o Garage Fuzz. A energia e complexidade na execução e elaboração das musicas da banda é outro patamar e ali eu to gravando sozinho todos os instrumentos onde não sou realmente um expert. Na verdade no Garage Fuzz eu toco com quatro psicopatas e durante anos eu me senti muito inferior como músico comparado a eles.

Alguém pode falar algo como “Ah, você deveria ensaiar mais” ou “Ah, você deveria ter umas aulas de voz”, mas eu acho que já estou no meu limite de evolução e também vim de uma cena que era mais rústica: berrando, tomando café preto e fumaça quente para conservar a voz. Não tinha toda essa sofisticação dos dias de hoje (risos); show bom é show sem retorno de voz (risos). Mas aprendi muito ou praticamente tudo com eles, principalmente com o Fabricio que sempre me puxou no lance de cantar melhor e compor as melodias de voz nas músicas quando já estava o instrumental finalizado.

Se meu som é um lance mais depressivo e introspectivo? Sem dúvidas! Eu queria tocar um lance mais minimal mesmo, repetição minimal de bases com poucas notas lembrando quando escutava Spacemem 3 em 1990 ou Young Marble Giants ou Rid Of Me da PJ Harvey,  E também posso escrever e falar o que penso e sinto sem ter que me expressar por outros músicos que às vezes não estão na mesma sintonia de sentimentos e ideais, então quando estou em um trabalho coletivo tenho que me policiar mais com as mensagens.

Ali no “Not Count for Spit” eu fiz letra de amor para minha mulher, fiz duas músicas para minhas filhas, fiz analogias com atitudes de artistas na cena de arte e música, posso falar como é difícil ter crises de pânico, depressão, ansiedade, posso falar da vida moderna, posso falar de usar drogas, coisas que até falo nos últimos discos do Garage mas acho que no meu lance acaba ficando mais pessoal.


TMDQA!: – Você chegou a pensar em compor em Português para esse projeto?
ACruz: Eu queria que o projeto fosse instrumental e tenho até algumas versões instrumentais de todas as músicas nas plataformas digitais. Mas sim, uma vez eu me tranquei e brinquei: vou fazer um som em Português. Fiz e fiquei com medo e vergonha ao mesmo tempo porque achei que ficaria muito oportunista e realmente mais comercial, algo naquele esquema “agora vou cantar em Português para ver se ‘dá certo'”, mas como não encaro minhas escolhas ou meus trabalhos anteriores como “Algo que não deu certo” optei em continuar fazendo meio que o que sempre fiz na vida.

TMDQA!: A partir do dia 20, quando o EP estará nas plataformas digitais, como segue o plano de divulgação? Quais serão os lançamentos e como você irá trabalhar a carreira solo na estrada?
ACruz: Nossas bandas titulares são a nossa prioridade, então não temos muitos shows como trio marcados, devemos fazer um show legal em São Paulo tocando o “Not Count For Spit” inteiro e o EP “Samuel” com um amigo secreto tocando a segunda guitarra! Eu curto a ideia de tocar sozinho no chão em espaços não convencionais.

Na sessão que gravamos no estúdio Quadrophenia com o Sandro Garcia (The Charts / Continental Combo) registramos 9 músicas, 5 que vamos soltar agora no formato digital e cassete são versões do “Not Count For Spit” e as outras 4 inéditas saem no primeiro semestre em vinil 7” pelos selos Rolo Seco e Submarine.

TMDQA!: Entre o Garage Fuzz e essas experimentações solo, que outros tipos de atividade você tem exercido no meio tempo em sua vida?
ACruz: Continuo com o meu trabalho de artes plásticas que executo há mais de 20 anos (para quem quiser conferir o site é www.sesper.com) / e também mantenho vivo o meu selo de fitas cassete / editora de fanzines / distro chamado “OutPrint” desde 2011 (outprint.iluria.com).
TMDQA!: Hoje em dia o underground brasileiro pulsa como há muito tempo não acontecia. Ainda assim, parece que o mainstream simplesmente ignora tudo que está acontecendo no rock nacional independente. Como alguém que está no meio há décadas, como você enxerga as cenas todas hoje e o que acha que deve acontecer em um futuro próximo?
ACruz: Na real nem sei o que acontece no mainstream nacional quanto a bandas e selos, nem procuro me informar a respeito. Sei que vai ter aquele produtor Mafioso fodendo tudo para fazer dinheiro sugando a alma de quem cai nessa. Eu não tenho grandes expectativas de “sucesso” quando faço qualquer coisa, funciona meio que assim: vou me divertir criando e fazendo e curtir o processo porque depois de feito você não sabe o que vai acontecer, então acho que em determinados momentos durante a última década muita gente ficou frustrada por  não alcançar algumas miragens que o mainstream projetava.

Claro que tenho sonhos de estar em selos, parcerias ou tocando em certos lugares, e acho que a dinâmica atual é muito mais realista do que já foi na década de 80/90 . A partir de 2000 com a entrada da internet, as mídias digitais e novas plataformas de áudio, a coisa realmente mudou. Mas também depende do tamanho do sonho, hoje em dia eu me sinto realizado se vendo 100 unidades de uma tiragem em fita cassette, 300 cópias de um compacto de 7” , 500 cópias de um 10” ou 12” vinil, 1000 copias de um CD e 50.000 plays em plataformas digitais. No meu patamar de sonho isso já é um disco de platina.

E atualmente isso é viável de alcançar em um período de 1 ou 2 anos, então na realidade atual eu posso ficar fazendo isso o resto da vida, tem os altos e baixos do mercado por causa das crises financeiras, mas acho que no tamanho da cena que estamos inseridos atualmente isso é uma bênção e sei que tem uma galera que curte e quer estar em absolutamente tudo que existe rolando no momento: ativos em todas as mídias sociais, tocando em todos os festivais, selos, plataformas digitais e sites bombando o tempo todo via assessoria de imprensa. Acho que pensando assim eles vão ter bastante trabalho e é bom ter em mente que nem tudo que plantamos nós colhemos, e depois não é justo ficar reclamando que tudo e todos são uma merda, pois sabemos que nada é fácil e tem que ter uma dedicação real como em qualquer década passada ou nos dias atuais.
Mas acho que atualmente a cena mundial vive realmente um momento muito criativo e democrático como há muito não se via!

TMDQA!: Que bandas, nacionais e internacionais, você tem ouvido ultimamente?
ACruz: Cara, das nacionais que eu curto eu poderia citar algumas que lancei pelo meu selo de fitas cassete, a Outprint: Mahmed, Bloomtrip, Lê Almeida, Herzegovina, Damn Youth, Hierofante Púrpura, Continental Combo, Ordinaria Hit, Futuro, O inimigo, Bode Holofonico, Guilherme Granado, Bloody Mary una chica band.
Internacional no momento tá assim: Raspberry Bulbs, Perverts Again, o disco novo do Spectres, Super Unison, CHEW de Chicago, Paranoid Time de Seattle e Commando.

TMDQA!: Você tem mais discos que amigos?
ACruz: A porcentagem já esteve mais desigual, os discos ganhavam de lavada (risos). Mas ultimamente eu comecei a pensar mais sobre a vida e tenho certeza que bons amigos vieram pelos discos também.

  

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