Em julho deste ano, o grupo paulistano RAKTA lançou III, o segundo álbum da carreira. Como óbvio, o título do disco não se refere à ordem dos lançamentos do RAKTA, mas à estreia em estúdio da banda como um trio sem guitarras, formado por Paula Rebellato (voz e teclados), Carla Boregas (baixo) e Nathalia Viccari (bateria).

III é um disco pulsante, 28 minutos de um pós-punk tribalístico e avassalador. Por essa qualidade transgressora e pelo reconhecimento internacional – em 2016 o RAKTA se apresentou nos Estados Unidos e no Japão – o trio virou um dos chamarizes da sexta edição do festival Novas Frequências, realizado no Rio de Janeiro durante esta semana (leia aqui o texto completo sobre os dois primeiros dias do evento).

O show do trio foi o ponto alto de um festival ímpar, precedido pela virulência explícita dos shows de Tantão + Godpussy + Lê Almeida e do duo húngaro Céh. No meio disso tudo, o RAKTA surgiu como um trator, e deu aos presentes uma catarse ardorosa não exatamente surpreendente – quem estava ali, sabia o que esperava – mas ainda assim, de impressionar. Depois do show, as três conversaram rapidamente com o blog sobre a apresentação, o aspecto ritualístico da música delas, e sobre a relevância do caos no contexto artístico. Leia abaixo, logo após uma sessão do RAKTA nos estúdios da rádio norte-americana KEXP.

Considerando o contexto do Novas Frequências, um festival que reúne artistas que são  transgressores de várias maneiras, quais foram as impressões de vocês sobre o show de hoje?

Paula Rebellato: Eu me senti confortável. A gente cria um espaço nosso em qualquer lugar que a gente vai. Uma atmosfera nossa, mesmo. Cada experiência é única, e acho que individualmente cada uma estava de um jeito. Eu sei como eu entrei, e sei como eu saí. Então eu consigo perceber o que o processo todo me causou. Consigo perceber mais de mim. E sutilmente senti o que estava chegando pra gente também, o que estava vindo de fora. E a gente costuma compartilhar o que a gente sentiu em relação à outra, em relação a cada uma… Mas em uma palavra, eu me senti “confortável” [no Novas Frequências]. Justamente pelo fato de ter tantas coisas que se comunicam entre si, mas que são tão diferentes umas das outras. Isso pra mim é muito rico, é um lugar em que a gente gosta de caminhar. O festival trouxe muitas coisas diferentes, energias muito diferentes – hoje foi uma energia muito diferente de ontem. Eu achei muito bom, me acrescentou muito. E esse último vídeo [a performance Cosmogonia, de Vincent Moon, Priscilla Telmon e Rabih Beaini, que encerrou o segundo dia do festival]… Meu Deus!

Nathalia Viccari: Eu achei curioso como tinha muita gente na hora que a gente foi tocar. Nas outras bandas [o galpão] não estava tão cheio. Quando eu subi na bateria e olhei, tinha gente até a porta. Fiquei meio “nossa, vieram para ver o show, não é só gente que veio pra ver o festival”. O povo tava curioso.

Da plateia, ficou muito claro o aspecto ritualístico do show de vocês, a música como parte de um ritual, de uma conexão com os presentes. Vocês percebem isso com clareza no som de vocês? Os cânticos, a força da percussão…

Carla Boregas: Essa é a intenção, mesmo.

NV: A gente tava conversando agora sobre isso, sobre rituais.

CB: Eu sempre encarei a música como um transe, tocar é sempre um ritual de transe. Não sei, essa é a minha relação com a música.

NV: Tudo é um ritual. Você acorda de manhã…

CB: Fala bom dia, boa noite, bom dia, boa noite…

NV: …escova os dentes, você tá fazendo o ritual da manhã.

PR: Mas eu acho que tem o ritual consciente e o ritual automático. O ritual é um ato poético. Uma ação poética, que é você trabalhar com símbolo, imagens, objetos, som… Sentido, cor, cheiro. É você manipular isso com intenção, consciência, e criar a realidade que você quer criar naquele momento. Para a gente, sempre é um ritual. sempre tem uma energia colocada conscientemente.

E como é fazer uma música em tantos sentidos transgressora em um país que vive uma crescente onda conservadora? Como vocês veem a criação artística em um momento político e social tão caótico?

PR: Acho que enriquece muito. Eu não sinto tanto isso nos shows, porque quem vai ao show, escolhe estar no show. Não sinto nenhum tipo de bloqueio ou dificuldade das coisas acontecerem por causa das pessoas. Acho que é algo de fora. E acho que todo esse caos ele traz uma ordem, de certa maneira, para o que você cria. Se você souber canalizar isso, esse caos que acontece.

CB: Eu acho que o caos no mundo tá reinando o tempo inteiro, como diria o Slayer (risos). Eu nunca soube quando o caos não esteve reinando. Vai mudando o assunto, mas parece que o caos vai reinando o tempo inteiro. Depende do que você vive, mas sempre quando você olha pra fora, no macrocosmos é só o caos que reina. Você pode estar no meio de uma floresta, mas você olha em volta e “nossa, o caos tá reinando”.

PR: Eu sinto que isso tudo traz muita pulsão de morte e de vida. Mas é como você absorve o que está acontecendo, né? Você pode transformar isso em uma coisa densa, você pode transformar isso em uma coisa sutil, você escolhe com o que você quer trabalhar. Mas eu sinto que esse ano foi de muita catarse, e obviamente isso vai estar exposto no que você faz. Eu sinto que as pessoas estão com uma ansiedade de fazer, de criar, de por pra fora. Cada vez mais as pessoas querem expurgar, expurgar, expurgar. E acho que ficar expurgando, expurgando, expurgando também não resolve muita coisa – se é que é pra resolver algo. Mas eu sinto que esse ano teve muito esse desespero.

CB: Tá todo mundo com necessidade de ser agressivo, eu acho. Esse ano eu fiquei dois meses no Japão, e quando eu voltei pra cá eu senti que aqui todo mundo tem muita necessidade de ser agressivo o tempo inteiro. Lá não, as pessoas podem ser agressivas em outro plano, mas essa coisa do ritual vem pra fazer as pessoas encontrarem um equilíbrio.

As pessoas no Brasil tendem a botar as coisas pra fora através da violência, da agressividade?

CB: De certa forma, sim. O Brasil é muito violento. Vários outros lugares também são, mas eu sinto que aqui existe essa necessidade dessa violência o tempo inteiro. Aqui, tudo tem muita violência em volta.

PR: Mas tem muita coisa boa, também. Muitas pessoas buscando trabalhar essa violência que todo mundo tem dentro de si. Eu vejo isso, também. Tem várias forças agindo, você escolhe com qual você quer travar.

E como a banda deve seguir em 2017? Há planos para um novo disco, novas turnês…?

CB: A gente tem algumas músicas novas, e devemos gravar um 7″ em breve. Depois, é continuar o movimento.

Ouça o novo disco do The Who!