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Mais frequentemente que o contrário, os artistas não têm dimensão de como a música deles toca os fãs. Por mais que eles e elas também tenham ídolos, também se ajoelhem diante de outros criadores, também se emocionem com outras canções, é praticamente impossível compreender o impacto que o fruto de profunda exploração interior traduzida em música tem em dezenas, centenas, milhares, milhões de outras pessoas. A cada ouvido, a cada reinterpretação, cada canção se multiplica em infinitas outras, amalgamando-se em algo que números de vendas, plays, ou views são incapazes de medir.

Prince nunca soube da minha existência, e nunca estivemos a menos que alguns milhares de quilômetros de distância, creio eu. O mais perto que cheguei dele foi ser um dos primeiros 600 seguidores dele no Instagram, ou de compartilharmos o tiquezinho de conta verificada no Twitter. Para Prince, eu fui menos que um número. Fui uma massa disforme que ocupou um ínfimo espaço do terreno oficialmente chamado de Brasil, em algum lugar da América do Sul, e ele nem ficou sabendo. Ainda assim, Prince mudou a minha vida.

Lembro da primeira vez que ouvi Prince. Foi na maravilhosa cena dos balões de gás do riso protagonizada por Jack Nicholson em Batman (1989), aquele primeiro, dirigido pelo Tim Burton. Enquanto as sombras de Gotham City eram invadidas pela gangue do Coringa, uma guitarra limpa conduzia o groove de “Trust?”, delineada pelos vocais sussurrados de Prince. Não era e não é um ponto alto da discografia dele, mas aqueles segundos iniciais da faixa pertencem ao meu subsconsciente de maneira tão impactante quanto a cena em que o Bruce Wayne de Michael Keaton sobrevive a um tiro no peito com uma bandeja de metal escondida embaixo da camisa, ou o beijo de Vicki Vale no braço coberto pelo paletó roxo de Nicholson. Assisti àquele filme trocentas vezes, e sempre balbuciava os versos iniciais de “Trust?”, um suingue quase melancólico, o tema ideal do vilão anárquico.

BATMAN 1989 VS PRINCE TRUST from Denis Gilbert on Vimeo.

Depois disso, demorei para me reaproximar de Prince. Menos palatável a grandes audiências que outros ídolos da geração dele, e frequentemente ofuscado pelo contemporâneo Michael Jackson, Prince não serviu como trilha para as crianças e pré-adolescentes que cresceram nos anos 90 no nosso país. Prince baniu todo o catálogo dele do YouTube, e recentemente me obrigou a usar o péssimo Tidal para ouvir o último álbum dele. Só me reencontrei com Prince aos 17 anos, quando baixei Musicology (2004), disco alardeado como um retorno à forma depois de anos perdidos entre a mudança de nome para um símbolo impronunciável e e certa desorientação artística em meio à explosão dos ídolos pop pré-Internet. Eu nunca havia ouvido algo como aquilo.

Musicology foi o que todos prometiam, mas ainda assim é ausência certa entre os maiores clássicos de Prince. Eu não entendia o porquê. Como algo tão bom podia ser tão subestimado? E aí eu resolvi começar do começo, e baixei os três primeiros álbuns de um dos performers mais incríveis de todos os tempos. E aí eu entendi.

Por engano, comecei por Prince (1979), o segundo disco, e pulei For You (1978). Sorte a minha: estava tudo ali. O balanço hipnótico de “I Wanna Be Your Lover” abriu as portas para uma nova percepção musical dentro de mim, o início de uma busca incessante que depois resultou em análises demoradas de grandes hits da Sun Records, de hit singles da Motown e em passeios cada vez mais frequentes pelo universo da música eletrônica, todos ligados, de alguma forma, às raízes fincadas por Prince no solo fértil da música pop. Segui: comprei, porque sim, duas cópias em vinil de Dirty Mind (1980), de tanto que eu queria o disco. Ouvi 1999 (1982) outro zilhão de vezes e reverenciei Purple Rain (1984) como um fiel religioso que pune a si mesmo pelas mazelas e credita toda e qualquer benfeitoria ao divino. Não havia algo mais impactante.

Eu poderia continuar a descrever minhas explorações subsequentes, ou poderia seguir num estudo desenfreado sobre a importância de Prince e a influência cultural dele, mas não. Hoje, 21 de abril de 2016, dia em que Prince foi encontrado morto no estúdio dele, o mundo não precisa de textões e palavras perdidas. O mundo precisa de música, que é o que transformou um baixinho da região Norte dos Estados Unidos em uma das vozes mais importantes da história. Que fez com que eu e ele nos conhecêssemos, e que ele, sem saber, ditasse alguns rumos que minha vida tomou. Por isso, escolhi um momento que, para mim, resume o poder e a mágica da qual Prince foi capaz.

Aos 11 minutos e 40 segundos de uma versão bombástica de “I Wanna Be Your Lover”  que você vê abaixo, filmada em 30 de janeiro de 1982, Prince se ajoelha no palco. Prince põe a Telecaster imponente no colo e mexe a pélvis com as mãos atrás da cabeça. Delicadamente, ele toca a palheta nas cordas da guitarra, deixando o delay soar com liberdade. Lentamente, enquanto contorce a boca e atrai olhares da plateia atônita, ele aumenta a intensidade, até tocá-la com mais cuidado outra vez, alternando tempo e força sobre a base funk que contorna aquele espetáculo privado. Aos 15 minutos, Prince lambe os dedos e alisa o braço da guitarra com a saliva quente, segundos antes de trocar os dedos pela própria língua, em riste pelas cordas e por toda a extensão do instrumento. O que poderia ser mais um solo tornou-se antônimo ao pudor, um ato sexual felizmente registrado por várias câmeras em fitas preto e branco. A guitarra vira um prolongamento do órgão sexual dele, e a mão esquerda, de cima a baixo, provoca, aos 16 minutos e pouco, um orgasmo a princípio simulado, mas que não duvidaríamos ser real.

Prince, como David Bowie e tantos outros que nos deixaram recentemente, transformava música em algo mais, em algo muito maior, impossível de se transcrever em artigos ou em partituras musicais. Sobra o sentimento, e a saudade de quem a gente nunca viu. Descanse em paz.