Foto por Leo Aversa

Algumas pessoas são tão maiores que a humanidade que você se sente intimidado. Você não saberia conversar, não se sentiria à vontade. Falar com Alceu Valença é o completo oposto. Pela tela do Zoom, ele surge como essa mesma figura receptiva que nos últimos anos se consolidou como uma espécie de patrimônio nacional.

Muito além de clássicos como “Anunciação” e “La Belle de Jour”, Alceu faz de sua música uma celebração à união, a acreditar no amor e no poder da imaginação. Acostumado a arrastar multidões, ele é atração do Festival MUCHO! neste fim de semana, se apresentando de modo intimista como se fosse falar com cada ouvinte.

E com certeza, o festival que une atrações de todos os continentes para uma música sem fronteiras pode esperar uma viagem. O que eram 15 minutos de entrevista com Alceu viraram 30, que viraram 45 que se tornou um enorme EAD sobre o processo criativo do artista e como funciona o papel da memória e do sonho nisso.

Confira abaixo nosso papo com Alceu e confira o show dele no dia 25/04, a partir das 16 horas no canal do Festival MUCHO! no YouTube.

TMDQA!: Você vai se apresentar no festival Mucho!, que é um evento que tem como marca essa união tanto os artistas da América Latina quanto do Brasil, de buscar essa melodia comum. E eu sinto que muitas vezes o Brasil muitas vezes se fecha para nossos vizinhos, que conhecem muito mais da gente do que nós deles. Você acha que a música pode ser essa ponte que une culturas?

ALCEU VALENÇA: Eu acho que pode ser. Além do que trouxemos da África e o que já era produzido de cultura indígena, a cultura latina tem como ponto de união as culturas ibéricas. O mambo é muito mais perto do bolero e do samba-canção do que a música americana e a inglesa. Nós temos essa língua latina que nos aproxima e a musicalidade também. Uma música portuguesa e espanhola, por exemplo, é muito mais perto do Brasil que algo do Japão ou da Grã-Bretenha. Sinto que é por aí. Eu vou de tango sempre. Me faz muito mais bem à alma o tango do que uma balada.

TMDQA: E parecem que são melodias que já vem instaladas na gente e eu ouço muito que as suas melodias, as suas músicas já vêm instaladas no brasileiro. Ele nasce sabendo “Anunciação”, sabendo “La Belle de Jour”. Como você vê isso?

ALCEU VALENÇA: Eu vejo isso a partir de um certo momento. Quando eu vim pra cá (Rio de Janeiro), na década de setenta com o Geraldo Azevedo, não tínhamos espaço. A MPB tinha uma parte muito boa ali com o Chico (Buarque), tinha a parte com os (Novos) Baianos e a gente era outra coisa. A gente trazia outro tipo de música. E aquilo pra ser absorvido era muito difícil. As rádios e televisões eram muito centralizadas no que era feito no Rio e em São Paulo. A internet mudou muito isso, os canais são muitos. Na época, estando em Recife você era basicamente obrigado a ouvir a Jovem Guarda mas em São Paulo, que era de onde vinha a Jovem Guarda, não se ouvia Claudionor Germano, que é um cantor de frevo fantástico. Sinto que agora com as plataformas e as redes sociais isso mudou muito. Conheço muita gente do meu tempo, que eram grandes talentos, que ficaram perdidos no meio da indústria do disco. Hoje, você pode colocar no Spotify, no YouTube e encontrar as pessoas. Democratizou muito. E isso pra mim foi ótimo. Só pra ter ideia, sem eu ter feito nada sobre isso no YouTube tem 151 milhões de visualizações de “La Belle du Jour” e “Girassol” que quando saíram não tocaram nada! (Risos)

TMDQA: (Risos) Foram músicas descobertas então…

ALCEU VALENÇA: Exatamente! As crianças ouvem, ficam dançando. E não são músicas pra criança e elas adoram.

TMDQA: Pra você ver, eu tenho uma filha de um ano e 3 meses que já te conhece por causa do Mundo Bita!

ALCEU VALENÇA: Que maravilha!

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TMDQA!: E acho curioso como naquele contexto parece que sua música ganha um novo contexto. Eu posso estar viajando aqui mas como ouvinte sinto que você gosta de brincar com suas próprias músicas criando sentidos diferentes. Eu falo isso pois já te vi tocando com Orquestra, em show de carnaval, de festa junina e algumas músicas acabam se repetindo, mas parece que elas habitam um novo universo…

ALCEU VALENÇA: Quando eu estou tocando show de São João, boa parte do repertório é de baião, xaxado, música do sertão. No Carnaval, boa parte tem frevo, maracatu, ciranda. Num teatro, posso fazer sozinho com meu violão. Com a Orquestra Ouro Preto, viram suítes e me sinto meio (Enrico) Caruso e posso tentar cantar assim (começa a cantar em tom operesco) “nas brumas leves das paixões que vem de dentro”! (Risos) E vou me adaptando.

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TMDQA!: Sobre você dialogar com esses formatos, atualmente você está lançando uma série de discos minimalistas, só você e o violão. Essa ideia imagino que veio junto da pandemia…

ALCEU VALENÇA: Totalmente! Tive um disco que fiz em Paris, num ano que passei lá. Eu saía só à noite tocando todo dia e passava o dia todo tocando dentro do apartamento. O disco se chama Saudade de Pernambuco. E ele foi motivado por certa reclusão, não era a pandemia. E dessa vez foi algo parecido. Curiosamente, eu não costumo tocar muito o violão. Quando estamos na turnê, a gente chega quase na hora do show e meu violão vai antes, para passar o som. A gente se encontrava no palco. Dessa vez, eu fiquei – sobretudo à noite porque aqui de dia tem uma sinfonia de britadeiras e martelos de obras aqui ao redor – e eu ficava aqui tocando. Minha mulher me chamando pra ver série, pra ver filme e eu lá querendo tocar.

E eu ia tocando uma música e ela que chamava outra e aí vinha outra. E fui criando um roteiro.

TMDQA!: Um repertório mesmo?

ALCEU VALENÇA: Sim, e com um sentido. A primeira música é “La Belle de Jour”. Ela foi inspirada num dia que estava na casa de mamãe em Boa Viagem e eu vi, na frente da minha casa, uma moça dançando balé clássico. Aquela imagem ficou na minha cabeça. Uns dias depois, essa mesma moça com um vestido azul aparece quando eu e Paulinho Rafael (Paulo Rafael, guitarrista que o acompanha desde o início da carreira) estávamos tocando na frente de uma igreja. Ela tinha purpurina na cara, cabelo lilás, ela chegou deu um giro e desapareceu. Eu virei pro Paulinho e disse “essa deve ser uma mensageira dos anjos” e caímos na gargalhada. Depois eu fiz a música.

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Quando eu vejo a “Mensageira dos Anjos” eu me lembro de uma parte que escrevi para uma música que fiz com o Geraldo Azevedo e o Zé Ramalho: “Pela sua cabeleira, vermelha. Pelos raios desse sol, lilás. Pelo fogo do seu corpo, centelha. Belos raios desse sol”. O refrão não é meu, mas depois vem “Bela linda criatura, bonita. Nem menina, nem mulher. Tem espelho no seu rosto de neve”.. O espelho vem…

TMDQA: Do brilho da purpurina!

ALCEU VALENÇA: Do brilho! (Risos) Aí depois de passar por Boa Viagem, por Olinda, peguei esse táxi em direção à Lua. E quando eu estava nos Estados Unidos, em Harvard, estudando (Alceu fez um curso de direito na universidade) eu lembro da chegada do homem à Lua. E a memória me levou pra lá para esse “Táxi Lunar”. Pensando nisso, lembro de como estava em São Paulo quando escrevi “Estação da Luz”. Sabe, eu adoro trens. Eu ia sempre, com Geraldo, de trem pra São Paulo e o trem não existia mais. Então inventei o meu, que levava em si o verão. “Lá vem chegando o verão no trem da estação da luz com seu fogo de janeiro colorindo o mundo inteiro. Derramando seus azuis, pintor chamado verão, tão nobre é sua aquarela papoulas vermelhas. A rosa amarela e o verde dos mares, as cores da terra me faz bem moreno para os olhos dela”.

E eu tocando isso aqui, preso dentro da minha casa. Mas vivendo essa viagem, passo pelas praias, pelo verão de todos os lugares que passei. E esse meu trem para na frente do forte de Itamaracá, onde sigo com as cirandas e o carnaval. E me vejo atrás de minha casa, no Bloco da Pitombeira e vem aquele (cantarolando) “No carnaval me lembro dela, Rosa amarela e eu metido a beija-flor no carnaval na pitombeira”. E no fim eu emendo o (também cantarolando) “doce bailarina e seu vestido azul dançando ao som do baque e do maracatu” (citação de “Maracajá”, do disco “Maracatus, Batuques E Ladeiras”). Essa é uma canção nova, que invento unindo com aquela cena lá de trás. E de casa, onde estamos nesse ponto da viagem, começo a ver os blocos passando fico com saudade do carnaval, da rua.

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Digo isso pois sou meio andarilho. Na verdade, bastante. A minha mãe me chamava de “Meu óvni”! (Risos) Eu ligava pra ela e ela falava “onde você tá, meu óvni”. E eu podia estar em qualquer lugar, em Olinda, em Arcoverde, na Bélgica ou em Berlim. Esse caminhador, esse pirata pode ser só um passageiro deste trem. E isso está em “Pirata José”: (cantarolando) “Será que ele vem de Holanda? Quem sabe, de São Salvador? Lisboa, de Angola, Luanda em busca do seu grande amor”. E era esse pirata.

Quando Olinda passa do carnaval, é só silêncio. Só se ouve os sinos, as freiras cantando e são os pássaros que vem. Nessa imagem, nesse clima surge “Íris”: “Iris olhando as penas coloridas dos concrizes/Dos sabiás dos rouxinóis e das perdizes/Lembrei de ti oh linda íris/Quando vieres caçaremos arco-íris/E borboletas para tu te distraíres”.

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Eu sinto que esse disco, apesar de ser feito em casa, de ter memórias de São Paulo, sinto que é um disco mais litorâneo.

TMDQA!: Eu estou surpreso como você abriu aqui pra gente todo seu processo criativo e como tem esse peso da memória…

ALCEU VALENÇA: Da memória misturada com a invenção.

TMDQA!: É muito imagético, cinemático…

ALCEU VALENÇA: (empolgado) É imagético! É enrolão também. Sinto que a licença poética traz essa invenção, de criar algo que não existe. Tudo pra mim é quase sempre por imagem. Ontem mesmo eu tava falando com minha mãe que tenho umas memórias bem antigas, coisas de imagens soltas de quando tinha uns dois anos de idade. Lembro do meu pai, que tinha um cavalo me colocando na frente do cavalo e eu me lembro de olhar pra cima e ver o céu azulzinho. Essas memórias estão em algum lugar dentro da cabeça da gente. O meu filme “A Luneta do Tempo” é todo de memórias modificadas, de um um lado filosófico de um tempo. A parte dos cangaceiros vem do que meu pai contava. E tudo ficou guardado em algum lugar. A minha terra, minha irmã brincando, as brincadeiras de rua, a cor do vestido de minha mãe. Eu lembro de correr do guarda quando dava 9 da noite pra voltar pra casa. Lembranças de antigos carnavais. Eu sinto que tudo que faço vem assim, algo motiva e tudo vem. Tem uma música minha que diz (cantando) “o tempo se dilata como um fio” (de “Samba do tempo”). Eu fiz em Paris, pois quando vi o carrossel que tem em Montmartre me lembrei do que tinha em São Bento do Una. E pensei que a vida e o tempo giravam como esse carrossel.

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TMDQA!: Acho curioso que o que motivou nós falarmos hoje foi esse show virtual e muito da sua música tem muito da sua conexão com o público, com a banda. Como têm sido esses momentos de tocar assim sem essa ligação direta?

ALCEU VALENÇA: Eu voltei pra Paris. Eu estava em um auto-exílio em 1979. Eu pude sair por querer e eu não aguentei mais o que estava acontecendo. Eu fazia shows num teatro na Rue Campagne-Première (em Montparnasse) ao mesmo tempo que muitos eventos enormes começavam a aparecer no Brasil. E eu não posso fazer meu show de violão num evento grande. Aí eu penso em cada tipo de espetáculo, em cada tipo de público. Quando eu vou tocar um festival tipo o João Rock, eu pego uma banda mais pesada com um tipo de repertório diferente. Mas sinto que esse show com o violão acaba sendo mais teatral e sinto que estou fazendo algo parecido com o que fazia lá em Paris. Mas já estamos vendo até de turnê com esse espetáculo, já estamos com 45 possíveis datas.

E sinto que o povo tá doidinho pra ver isso da voz e violão.

TMDQA!: E gera uma intimidade, né? Sinto que as pessoas estão precisando.

ALCEU VALENÇA: Sim, é total intimidade. Bem diferente d’eu correr no palco, da explosão da alegria. Por enquanto, vou tocando meu violão fora da sinfonia das britadeiras. Como eu toco de noite, eu sinto que a noite me deixa criativo.

TMDQA!: E você tem conseguido criar? Pois tem muita gente que sente que nesses meses de pandemia tem sido complicado.

ALCEU VALENÇA: Consegui sim. A própria “Sem Pensar no Amanhã” veio desse momento. Eu já fiz dois discos nessa leva, e sempre desse modo natural, sem ser muito matemático, adaptando as canções. Atualmente trabalho em um terceiro álbum e tem um quarto por vir, mas dei um tempo pois eu fui vacinado…

TMDQA!: Que maravilha!

ALCEU VALENÇA: E eu quero também alertar pro pessoal levar a sério isso. Eu já peguei o Corona, já tinha anticorpos mas tomei minhas vacinas e ando com minhas máscaras. Tem horas que não sei se sou precavido ou paranoico, mas eu saio até com tipo um óculos que fecha aqui (Alceu simula uma espécie de face-shield) quando preciso sair pra ir pro clube e pra farmácia. Um dia, tu acredita, um imbecil negacionista me viu assim e falou assim “você é neurótico, é?”. Eu disse que era e que só ia parar quando tomasse minha vacina. Isso é um imbecil, né? Eu disse que se fosse a de Oxford (imitando sotaque inglês) eu tomava, se fosse a da Pfizer (imitando sotaque americano) eu tomava também. Se fosse a Sputnik, eu até vibrava. Aí quando foi a Coronavac teve gente falando pra mim “mas você vai tomar isso? Vai virar um jacaré”. Mas o único efeito colateral mesmo vai ser falar mandarim! (Risos).

TMDQA!: Só pra encerrar, o nome do nosso site é Tenho Mais Discos que Amigos. E isso diz muito sobre a relação que temos de carinho com música. Dos seus discos tem algum que você fala “esse aqui é meu parceiro!”

ALCEU VALENÇA: Todos, sem pensar duas vezes. Todos. Pois foram meus, fui eu que fiz. Todos são meus filhos e cada um reflete algum momento. E eu digo que são meus pois tenho orgulho de falar que eu faço o que eu quiser, eu gravo o que eu quiser. Eu fui de encontro a tudo pra ser artista, contra meus pais, contra os trabalhos que tinha e todo mundo era contra eu fazer música. Foi muito difícil fazer isso mas agora não tem dinheiro que vai me comprar. Eu vou fazer as coisas por que eu quero, pois eu que sou o artista.

 
 
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