Charlie Brown Jr. e Florence + The Machine

Muitos estudantes, na hora de fazer uma redação, preferem deixar o título para o final. Eles escrevem o texto, deixam a imaginação e a criatividade fluir, e chegam de repente em um caminho que, muitas vezes, não era o esperado no início da produção. O mesmo pode ser visto na música.

O título de uma canção é o seu “cartão de visita”. É, na maioria das vezes, o primeiro contato que o ouvinte tem com a música. De alguma maneira, o título ideal deve resumir o conteúdo da obra.

A questão é que muitas vezes o caminho percorrido ao longo da produção da canção pode resultar no mesmo título de outra música. Isso não desqualifica o valor de uma canção ou de outra, mas é algo interessante a ser observado.

Anteriormente, já fizemos uma lista com 100 títulos de música que fazem parte do repertório autoral de diferentes bandas e artistas. Agora, vamos focar em músicas diferentes que possuem o mesmo nome ou nomes semelhantes em inglês e português.

Uma pode parecer uma tradução literal da outra, mas você vai ver que não é bem assim. Tanto artistas brasileiros quanto internacionais chegaram ao “mesmo título” de formas muito diferentes e é isso que vamos analisar aqui.

Divirtam-se com estas escolhas da equipe do TMDQA!:

 

10 – “Evidence” (Faith No More) e “Evidências” (Chitãozinho & Xororó)

Já vamos começar com o hino nacional! Dentre tantas músicas que marcaram a história musical do Brasil, nenhuma até hoje conseguiu unir as tribos tanto quanto “Evidências“.

Chitãozinho & Xororó, quando lançaram a música em 1990, certamente não imaginariam o sucesso que ela teria, especialmente entre as novas gerações. E nós ainda fazemos questão de exportar a música para fora do país, com muito orgulho! Trata-se de uma história de amor sincera que promove uma reflexão sobre os impulsos do coração e questiona-se se existe alguma necessidade de se disfarçar os sentimentos.

Cinco anos depois o Faith No More lançou “Evidence” como uma das faixas do álbum King for a Day… Fool for a Lifetime. A música mescla elementos de funk, soul e jazz em uma levada sensual que fez da música o terceiro single do lançamento.

Menos inocente do que a dupla sertaneja, a faixa do FNM fala fala sobre uma traição. As evidências citadas na músicas são justamente as evidências que devem ser escondidas para não entregar o que aconteceu. O eu-lírico ainda tenta se justificar no refrão, alegando que ele não sentiu nada, e aquilo que aconteceu não teve qualquer significado.

O mais bizarro é que o frontman Mike Patton fez uma versão da música traduzida justamente para o português. Será que Mike já ouviu falar em Chitãozinho & Xororó?

 

9 – “Let Me Go” (Avril Lavigne feat. Chad Kroeger) e “Me Solta” (Nego do Borel)

O pop rock internacional e o funk 150BPM combinam? Não mesmo, mas Avril Lavigne e Nego do Borel chegaram basicamente na mesma mensagem, mesmo que de formas completamente diferentes.

Em “Let Me Go“, uma das principais faixas de seu homônimo quinto álbum de estúdio, a cantora canadense fala sobre términos, sobre deixar alguém ir e sobre pedir para alguém te deixar. A faixa conta também com a participação de Chad Kroeger (Nickelback), seu ex-marido.

O pedido por liberdade chegou de uma forma diferente (e evidentemente mais agressiva) para o carioca Nego do Borel. Usando o fenômeno do funk 150BPM (a maior mudança sofrida pelo gênero nos últimos anos), Nego pede espaço para dançar livremente na faixa “Me Solta“. A faixa veio acompanhada por um polêmico clipe, que foi muito comentado na internet.

 

8 – “Only For A Night” (Florence + The Machine) e “Só Por Uma Noite” (Charlie Brown Jr.)

Aceitar os próprios sentimentos pode ser algo difícil.

Em 2002, Chorão tentou ir contra isso e pediu para esquecer uma determinada pessoa, pelo menos durante uma noite apenas. Mesmo assim, ele reconheceu que vê essa pessoa em todos os lugares, e que não para de pensar nela. “Só Por Uma Noite” é uma declaração de amor meio conturbada e se tornou um dos maiores sucessos do Charlie Brown Jr., com direito à participação de Paulo Miklos no clipe.

Nove anos depois, Florence Welch usou (quase) o mesmo título para ser dado à faixa de abertura do elogiado segundo álbum de estúdio do Florence + The Machine, Cerimonials. Menos romântica que a composição de Chorão, “Only For A Night” é uma canção sobre a avó de Florence, que morreu quando ela tinha apenas 11 anos. De acordo com a cantora, sua avó surgiu para ela em um sonho anos depois. Um sonho que pareceu real, onde a cantora recebeu conselhos sobre sua carreira. A tristeza nisso tudo foi o fato de o sonho durar apenas uma noite.

 

7 – “You’re Beautiful” (James Blunt) e “Você É Linda” (Caetano Veloso)

Cá estamos nós com mais um par de canções cuja versão em inglês veio depois da versão em português! Será que temos um padrão aqui?

Brincadeiras à parte, aqui temos as canções mais românticas da lista. O britânico James Blunt foi para o topo da Hot 100 da Billboard em 2005 com “You’re Beautiful“. A canção é uma trágica declaração de amor, mas mistura também inferioridade e tristeza.

O clipe deixa a mensagem da música ainda mais clara. Blunt se vê incapaz de conquistar o amor de sua vida, e o sentimento de tristeza fica claro através de um cenário frio e vazio. Uma interpretação plausível é o pensamento de que o personagem está tirando sua própria vida, seguindo uma tradição japonesa de se tirar os sapatos e outras peças de roupa antes de pular de uma grande altura.

Em 1983, Caetano Veloso usou a expressão “Você É Linda” para nomear um de seus maiores sucessos comerciais. Também se trata de uma declaração de amor, mas sem citar a desilusão sobre não conseguir chegar à pessoa amada. Na música, Caetano se mostra um eu-lírico mais observador, encantado com a beleza e o jeito simples e apaixonante de sua pretendente.

 

6 – “The Four Seasons” (Antonio Vivaldi) e “As Quatro Estações” (Sandy & Junior)

Achou que funk 150BPM e pop rock seriam a combinação mais bizarra desta lista? Achou errado, otário!

Originalmente nomeada “Le Quattro Stagioni”, a composição “The Four Seasons” é o trabalho mais famoso do italiano Antonio Vivaldi, composta em 1721. Parte do concerto Il cimento dell’armonia e dell’inventione (Julgamento da Harmonia e da Invenção), a canção descreve sons como características de cada uma das quatro estações. Os mais de 40 minutos destacam, em forma de momentos, a felicidade da Primavera, a liberdade do Verão, a serenidade de Outono e a dualidade do Inverno.

Mas quem também teve uma ideia brilhante (pelo menos em relação aos padrões da indústria fonográfica nacional do fim dos anos 90) foi a dupla Sandy & Junior. Em 1999 foi lançado o álbum As Quatro Estações, cujo principal single foi a faixa-título. Em quatro minutos, a música é capaz dar características de cada estação, de uma maneira bem didática. O medo do frio do Inverno, o calor do amor durante o Verão, a calmaria e tranquilidade da Primavera e o Outono, em que as folhas caem mas o amor continua intacto (por ser imortal).

Isso tudo sem citar a baita estratégia comercial que foi lançar, em 2000, o álbum Quatro Estações – O Show. Por conta deste lançamento, muitos jovens da época adotaram o hábito trimestral de trocar a capa do álbum por uma das 4 disponíveis (cada uma indicando uma estação do ano diferente).

Não conseguimos dizer quem foi mais genial!

Quatro Estações - O Show, de Sandy & Junior
Foto: Divulgação

 

5 – “Perfect Illusion” (Lady Gaga) e “Cilada” (Molejo)

Ok, o nome dessas músicas não é uma tradução literal, mas queremos destacar os refrães dos dois componentes do par em questão:

“It wasn’t love, it wasn’t love. It was a perfect illusion.” (Lady Gaga, 2016)

“Não era amor. Ôh, ôh, não era. Não era amor, era cilada” (Molejo, 1996)

A ideia das músicas é quase a mesma: desilusão amorosa. Enquanto em “Cilada” o personagem da música do Molejo é convencido a ir na casa de sua pretendente para realizar serviços domésticos, Lady Gaga fala, em “Perfect Illusion“, sobre os altos e baixos de um relacionamento.

O paralelo entra as músicas viralizou. Mesmo com mais de 20 anos de existência, a procura por “Cilada” aumentou exponencialmente nas plataformas de streaming. O próprio Molejão brincou com as comparações e realmente fez uma cover ao vivo da “versão” de Gaga.

 

4 – “Stop Crying Your Heart Out” (Oasis) e “Acabou Chorare” (Novos Baianos)

Essas também não são traduções literais. Afinal, o termo “chorare” não é uma palavra comum para os brasileiros, uma vez que surgiu de uma conversa entre João Gilberto e os membros dos Novos Baianos.

Quando pequena, Bebel Gilberto, filha de João, usava a expressão-título para acalmar seus familiares quando ela se machucava. Foi essa a inspiração para a composição da música “Acabou Chorare“, que virou também o título de um dos álbuns mais importantes da história da música brasileira. No entanto, diferentemente da maioria das canções do álbum (que misturam baião com rock psicodélico), a gravação original da faixa-título conta apenas com o acompanhamento do violão e de craviola. Bonita por sua simplicidade, a letra nos remete à tão característica pureza das crianças.

Já em 2002, o grupo britânico Oasis lançou a balada emotiva “Stop Crying Your Heart Out” como o segundo single do quinto álbum de estúdio, Heathen Chemistry. Motivacional, a letra conta com mensagens de apoio, visando a possibilidade de fazer o ouvinte se sentir mais leve. Liam Gallagher canta que “você nunca conseguirá mudar o que já aconteceu”, que “seu destinou ainda o manterá quente” e pede para que o ouvinte “pegue o necessário, siga seu caminho e pare de desperdiçar lágrimas”.

 

3 – “Yesterday” (The Beatles) e “Ontem” (CPM22)

O par de músicas que ficou com a nossa terceira colocação tem exatamente o mesmo nome, mas as letras são completamente diferentes entre si.

Uma das canções é “Yesterday“, uma das músicas mais regravadas da história. A gravação original dos Beatles, na voz de Paul McCartney, conta com uma bela letra que cultiva o sentimento da saudade (por mais que os britânicos não tenham uma palavra exata para expressar isso). Trata-se da nostalgia ao lembrar de um dia ou época em que parecia mais fácil amar, e em que os problemas pareciam estar longe.

Já a letra do CPM22 para “Ontem” vai em outro sentido. Enquanto McCartney explorou a saudade, o vocalista Badauí canta sobre arrependimento. Algo feito pelo eu-lírico em seu passado não foi considerado certo pelo próprio, o que o leva à vontade de voltar atrás e corrigir o erro. O presente não está certo por conta de um erro cometido “ontem”.

 

2 – “Crazy” (Gnarls Barkley) e “Loka” (Simone & Simaria Part. Anitta)

CeeLo Green e o produtor Danger Mouse criaram o duo soul Gnarls Barkley na primeira metade dos anos 2000, e ganharam o mundo com o single de estreia.

Intitulada “Crazy“, a canção se mostrou mesmo bem doida: um clipe inteiro inspirado em testes de mancha de tinta, a mistura entre música eletrônica e neo soul… Mas existe alguma sensatez nela, uma vez que o eu-lírico se questiona se realmente é maluco ou se é manipulado, tocando em uma ferida social sobre o conceito de “loucura” nos dias atuais. No decorrer dos refrões da música, CeeLo muda sua auto-reflexão sobre seu estado mental de loucura, trocando sua resposta de “possivelmente” para “provavelmente”.

Já a abordagem da dupla Simone & Simaria e da cantora Anitta acerca da loucura é diferente, mas também muito interessante! Na parceria “Loka“, as três encaram a loucura como uma forma de superação. Trata-se de uma mensagem a uma mulher frustrada com um relacionamento fracassado.

Não é para ficar em cima do muro. Não é para esperar uma mudança que não tem futuro. A vida é uma só e precisamos aproveitá-la. Portanto, conheça pessoas novas, curta a noite e, principalmente, fique louca!

Ambas as canções têm como ponto comum a ideia de que a ser louco não é algo errado.

 

1 – “Let It Happen” (Tame Impala) e “Deixa Acontecer” (Grupo Revelação)

Convenhamos: “Deixa Acontecer“, do Grupo Revelação, também seria um forte candidato a hino não-oficial do Brasil.

A canção foi responsável pela explosão do Revelação como um dos expoentes do pagode no novo milênio. No entanto, parte significante de seu sucesso também diz respeito à mensagem da música. A ideia é simplesmente deixar fluir de forma natural. Aliás, um relacionamento forçado, às pressas, nunca daria certo, nem mesmo nos tempos agitados de hoje em dia. O eu-lírico tem lá suas razões ao ser traumatizado por relações anteriores, mas ele está disposto a se deixar apaixonar de novo caso as coisas aconteçam naturalmente.

Alguns anos depois, em 2015, o mundo já se vê engolido pela revolução tecnológica e social causada pela internet. É tudo cada vez mais rápido. As pessoas se cobram cada vez mais. E eis que, tentando dar uma “freada” nesses barulhos todos, surge “Let It Happen“, do grupo Tame Impala.

Single principal do álbum Currents, a música é um dançante e frenético synth-pop. Enquanto isso, a reflexiva letra nos leva a pensar sobre “os barulhos” que nos cercam diariamente. Para reforçar os conceitos do lema “deixa acontecer”, a canção usa metáforas como um moinho de vento, uma noite de insônia e vozes dissonantes.

Pare, respire e deixe acontecer naturalmente!

 

E aí, curtiu a lista? Deixamos algum par de músicas de fora da lista? Deixe sua opinião nos comentários. Vai que fazemos uma nova lista com as sugestões de vocês?

NOTÍCIAS MAIS QUENTES no RESUMO DA SEMANA

Fique por dentro das notícias mais quentes do mundo da música, bem como dos lançamentos nacionais, ouvindo o Resumo da Semana, programa do Podcast Tenho Mais Discos Que Amigos!