Por Gabriel Gutierrez

Foto por Jeferson Delgado

Nas últimas três décadas, o Brasil mudou, o rap mudou e mudaram os Racionais Mc’s. Se quando começaram a carreira, em 1989, Edi Rock, KL Jay, Ice Blue e Mano Brown eram jovens periféricos com 20 anos se arriscando em rimas no Metrô da São Bento em SP, agora, em 2019, são artistas maduros perto dos 50 anos com uma carreira musical consolidada. Nascido nas margens das engrenagens econômicas da cidade mais rica do país, o grupo tem hoje sua própria produtora, alcançou reconhecimento de público, prestígio com a crítica e diálogo com diversos setores da música brasileira. Para celebrar este tamanho, os Racionais estão atravessando o país com um show que comemora três décadas de carreira. No último sábado, 24/8, foi a vez da cidade do Rio de Janeiro assistir ao maior nome do rap nacional passear pela trajetória de todos os seus discos, desde Holocausto Urbano, de 1990 até Cores e Valores, de 2014.

Para fazer jus à empreitada, o grupo transcendeu a orquestração típica do gênero, com DJ e Mc, e se deu ao luxo de montar uma grande banda para fazer rap, como uma espécie de The Roots. Regida por Lino Krizz, ela conta com três sopros, duas guitarras, dois teclados, percussão, baixo e bateria. Ao lado de KL Jay e do DJ Ajamu, nas pick ups, a banda produz uma massa sonora pesada e dançante. Dela nasce o clima George Clinton/Cassiano que serve de plataforma para Blue, Rock e Brown anunciarem sua poesia de guerra. Usando beats cortantes como os do The Brides of Funkenstein, baixos protagonistas como os do The Meters, guitarras funkeadas a la Isley Brothers e um naipe de metal cirúrgico no estilo do Parliament Funkadelic, os Racionais estão na estrada cantando as angústias e superações
daqueles que já viveram a vida dura da racializada realidade brasileira.

O show começa com as músicas da primeira fase do grupo, que vai de 1989 a 1993. “Tempos Difíceis”, “Pânico na Zona Sul”, “Beco sem Saída” e “Voz Ativa” são ainda poeticamente cruas e muito atreladas à conscientização e militância dos membros do grupo ao final dos 1980. Certamente, faixas como essas afirmam os Racionais como pioneiros de um rap nacional mais aguerrido, ao lado Sistema Negro, Tribunal Popular e GOG, e fascinam o público pela história que carregam. Mas revelam uma voz artística ainda em formação e um grupo de músicos em busca da alquimia entre beats, baixos, texturas e discursos que, dentro de poucos anos, se configuraria como um dos principais acontecimentos da música brasileira recente.

Racionais MCs no Rio de Janeiro, 2019
Foto por Jeferson Delgado

Em seguida, vieram as canções de Raio X do Brasil, disco de 1993 que inaugura um segundo momento da carreira. Com mais musicalidade e rimas abrangentes, versam sobre a realidade das periferias com um todo e fazem uma crônica afiada das encruzilhadas experimentadas pelos habitantes dos guetos brasileiros. As pedradas “Mano na Porta do Bar”, em cima de um sample de Curtis Mayfield, “Fim de Semana no Parque” inspirada em canção de Jorge Ben, e a clássica “Homem na Estrada” são exemplos perfeitos deste rap político de relato. Nesta última, em cima da levada ao mesmo tempo melancólica e suingada de “Ela partiu”, de Tim Maia, Brown narra com apuro, para delírio do público, a selva de
brutalidade que um ex-detento tem que enfrentar para reconstruir sua vida em liberdade.

À esta altura, o público já está mais animado, e conforme o show se aproxima do clássico disco de 1997, Sobrevivendo no Inferno, a performance ganha intensidade. Foi neste disco que o grupo começou a produzir com maestria crescente o virtuoso encontro entre a herança da música soul brasileira de Hyldon e Carlos Dafé e o flow combativo e gangsta do então emergente rap de Ice Cube e Chuck D. Adicionaram ainda, nesta mistura explosiva, uma ancestralidade musical pouco percebida como associada aos Racionais, mas que bebe na fonte de artistas como Fundo de Quintal, Roberto Ribeiro, Bebeto e Lecy Brandão (vale lembrar que os Racionais já gravaram com Belo e Netinho de Paula). Assim, o grupo tornou-se verdadeiramente popular no Brasil, transcendendo os limites estéticos do rap e as fronteiras geográficas das periferias. Há anos luz da nobreza da MPB universitária, a musicalidade de “Sobrevivendo no Inferno” conjuga a exuberância da música negra das Américas à construção de uma narrativa insubordinada acerca das contradições brasileiras. Como um James Brown do Atlântico Sul, ainda mais cachorro louco que o godfather do soul dos EUA, Brown se inspira na figura de Marighella para apresentar formas possíveis de se sobreviver com dignidade à desigualdade, violência e desesperança produzidas pelo capitalismo brasileiro do final dos anos 1990.

Racionais MCs no Rio de Janeiro
Foto por Jeferson Delgado

Aqui, o show se aproxima do seu auge. Do esplêndido caldeirão forjado pela força de todas essas músicas saem as rajadas “Tô Ouvindo Alguém me Chamar”, “Fórmula Mágica da Paz”, “Rapaz Comum” e “Mágico de Oz”, que definitivamente levantam o público carioca. Inspirado no “Ike’s rap II”, de Isaac Hayes, Brown se arrisca a cantar a elegante melodia de “Jorge da Capadócia”, de Jorge Ben – um dos principais patronos do grupo. Em meio ao clima gospel e gótico de “Sobrevivendo”, a plateia emociona-se com o hit maior alavancado pela MTV da época, “Diário de um Detento”. Testemunha, depois de muito tempo, Brown cantar a perturbadora “Capitulo 4, versículo 3” inteira. Desafiando os formatos da música pop, Brown, Rock e Blue cantam músicas de mais de 7 minutos como um Al Green que prega a insubordinação. Apresenta sua arte furiosa entre samples de Too Short e Almir Guineto, Ohio Players e Consciência Humana, e ajuda seus ouvintes a terem autoestima ao som do melhor Marvin Gaye.

Racionais MCs no Rio de Janeiro
Foto por Jeferson Delgado

Mas apesar do hype em cima de Sobrevivendo, é o disco de 2002, Nada como um dia após o outro que é considerado pelo grupo, o melhor. Dele saem músicas como “Negro Drama”, “Vida Loka 1” e “A Vida é desafio”, que encontraram na plateia de sábado saudação imediata e condensam em si a estética dos Racionais na sua melhor forma. Nascidos como resultado direto do ambiente cultural dos bailes black do final dos anos 1970 em SP, a música dos Racionais faz a fusão entre a festa e a luta. Com a batida, prepara o corpo para a batalha cotidiana que é alcançar grandeza no Brasil tendo vindo de onde eles vieram. Com a poesia, apresenta uma civilização inteira num disco. Ouvindo “Vida Loka 2” e “Jesus Chorou” ao vivo você entende por que a música deles toca em cerimônia de enterro e toca em festa de aniversário. Entende porque KL Jay costuma dizer que pessoas o param na rua para dizer que depois de ouvir os discos do grupo, voltaram a estudar.

Com 30 anos de jogo, os Racionais entregam nesta turnê um show profissional e estruturado. Da dimensão de um público que vai das periferias do Brasil inteiro às camadas médias das grandes cidades. No sábado, tocaram para uma audiência colorida e heterogênea na Zona Oeste do Rio, num clima de voltagem política morna. Havia fãs de rap, da música brasileira e admiradores do grupo. Todos estavam perante o palco em que estes 30 anos de música foram apresentados, a partir de um setlist impecável (apesar das reclamações de que faltaram “Eu sou 157” e “Da ponte pra cá”). Puxando o fio que une Tupac à Tim
Maia, os Racionais mostraram que seu discurso musical segue vivo.

Gabriel Gutierrez é jornalista e pesquisador da música feita nas Américas.

   
 
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