Rico Dalasam
 

Rico Dalasam está em um momento especial de sua carreira. Lançando seu novo trabalho nessa sexta (21/07), que sucede o elogiadíssimo Orgunga, ele continua uma busca natural dos sons do pop dentro dos caminhos do hip hop. Isso já fica claro no primeiro single “Fogo em mim”, com participação de Mahal Pita, e faz muito sentido depois do sucesso meteórico de “Todo dia”, com Pabllo Vittar.

Conversamos com Rico dias atrás, quando se preparava para uma tour no Canadá, sobre os rumos de seu trabalho, o novo projeto Balanga Raba, discos e amigos.

 

TMDQA!: Você enquanto homem negro e gay já deve ter passado por muita coisa nessa vida. Como você vê essa oportunidade de levar sua tour para outros países? Como você acha que o Rico de 10 anos atrás reagiria ao ver o que você anda fazendo?

Rico Dalasam: Não é a primeira vez que saímos para levar música, na primeira vez eu não tinha a dimensão e talvez a maturidade que tenho hoje. Minha percepção sobre show, produção musical e equipe aguçou mais. Hoje tem um alinhamento muito maior, de comunicação musical mesmo.

TMDQA!: Você esperava o sucesso tão grande de “Todo Dia”? O que você acha que causou a identificação tão forte das pessoas?

Rico Dalasam: Foi além das expectativas. Mas o importante era criar uma curva nova, onde eu tivesse uma proximidade maior com o pop. É algo que crio há um tempão mas que as pessoas só tinham visto eu mostrar os raps. Essa música tinha a intenção de preparar o caminho que vai poder ser conferido bastante na “Balanga Raba”.

TMDQA: Então você já está trabalhando em novas músicas pós-Orgunga? O sucesso com a Pabllo indica um caminho mais pop que seu trabalho pode percorrer?

Rico Dalasam: A gente nunca para de trabalhar, mas agora sinto que estamos mais próximos de contar uma história nova. “Balanga Raba” vem depois dessa história do primeiro disco e tem um papel tão especial quanto. Talvez não seja um disco, só um conjunto de músicas. Mas tem feito muito sentido para mim contar essa história do pop e do rap juntos, sacou? Algumas coisas a gente escreve com uma intenção lírica mais rebuscada, em códigos, outras trazem algo mais concreto, para ser legível de primeiro instante. Mas se você for analisar a minha obra em conjunto, está falando de um comportamento, do modo como um mesmo corpo existe e vive. Se ver o que escrevo em “Mandume”, com o Emicida, depois o que escrevi em “Todo Dia”, “Procure” ou “Riquíssima”… Até mesmo no novo disco do Curumim, que tem uma faixa minha… Vai dar para notar que é o mesmo corpo, em códigos novos.

TMDQA!: Você enquanto figura pública é uma postura política. Como você enxerga essa onda de conservadorismo que tem acontecido por todo mundo nos últimos anos? Música é um dos caminhos para mudança?

Rico Dalasam: É tudo cíclico, a história do mundo vai sempre passando por esse gráfico. E hoje é um instante mundial de retrocesso e, como sempre, as artes têm o papel de desanuviar isso aí; de construir ações afirmativas, guiar políticas públicas. As artes se encarregam disso, seja de algo organizado ou do impulso de uma geração. Acho incrível poder ser a outra ponta dessa história, em que, apesar de tudo, estamos construindo imaginários e possibilidades de existência. A gente dialoga com uma geração inteira que tem um apetite para transformar e isso acontece diariamente, não só no palco. Acho muito importante essa relação que se constrói nas ruas.

TMDQA: O nome do site é Tenho Mais Discos que Amigos!, o que é muito ligado com à relação de carinho que temos com algumas músicas. Você tem algum disco que é importante pra você, que você encara ele quase como amigo?

Rico Dalasam: Olha, tem vários discos, mas acho que o disco de 82 do Djavan (“Luz”) é uma coisa que nunca, nunca tá totalmente consumido, sabe? Apesar de ter ouvido muito. É o disco que carrega “Samurai”, aquela versão com o Stevie Wonder tocando gaita. É mágico pra mim.