Andreas Kisser quer deixar o passado para trás.

Isso não significa fingir que as grandes obras de sua banda, o Sepultura, não existem – várias músicas dos clássicos Chaos A.D. (1993) e Roots (1996) estão sempre presentes em seus barulhentos shows -, mas que a banda tem um presente do qual se orgulhar e um futuro para olhar adiante.

E no presente o quarteto formado por ele, Derrick Green, Paulo Jr. e Eloy Casagrande acaba de lançar seu décimo quarto disco de estúdio. Machine Messiah saiu na última sexta-feira e traz dez faixas que abordam a “dependência do homem em relação ao robô”, carregadas dos grooves característicos de um dos grupos brasileiros mais famosos no mundo.

Conversamos com Andreas sobre o novo álbum, as turnês nacionais e internacionais, a experiência de tocar com Lobão e muito mais. Leia abaixo!

Sepultura (foto por Rafael Mendes)
Sepultura (foto por Rafael Mendes)

TMDQA!: Vamos começar falando sobre o novo disco, Machine Messiah, que saiu na última sexta-feira. Sabemos que o tema geral é a dependência cada vez maior da sociedade em relação à tecnologia, mas como o clipe do single “Phantom Self”, a capa do disco e as letras se encaixam na narrativa do álbum?
Andreas: O conceito é mais ou menos esse mesmo. Não é uma ficção futurista, é o que vemos hoje: o mundo inteiro dependendo da tecnologia. Você percebe isso mais de perto em diferentes sociedades, que o robô está em tudo quanto é lugar, com mais ou menos força. Questionamos se o robô realmente está ajudando nosso cérebro. Ficamos deixando na mão dele para achar o caminho certo em uma cidade, para desenvolver relacionamentos… nos shows vemos mais gente filmando do que participando. Existe agora a realidade virtual. São coisas que estão tirando o convívio entre pessoas mesmo, e a ideia partiu daí, de buscar um equilíbrio entre até onde o robô pode ajudar e até onde nós mesmos temos que ir atrás de resolver. Não é um disco conceitual como o Dante XXI, é uma coisa mais livre. Falamos de alimentos transgênicos, aquecimento global, política do Brasil e dos EUA, intolerância política… ou você é de esquerda ou de direita, e está cada vez mais difícil aceitar ideias dos outros. Isso é um paradoxo, porque a internet veio com uma ideia de integrar mas acaba criando mais confusão. Há mais notícias fabricadas e mais distância entre as pessoas.

TMDQA!: Esse foi o maior intervalo entre discos da carreira do Sepultura. Como foi o processo de composição desse disco e como foi gravar com o Jens Bogren?
Andreas: O processo começou em 2013, mas nós não paramos nunca. Fizemos muitas turnês, tocamos em todos os grandes festivais, fomos pra países como a Geórgia e a Armênia, fizemos 16 shows na Rússia em regiões quase chegando no Japão, tocamos no Rock in Rio de Las Vegas com o Steve Vai, celebramos os 30 anos da banda, e temos o documentário que tem tudo pra sair por volta de abril ou maio. O disco era pra ter saído em outubro, mas a gravadora preferiu jogar pra agora. E de um jeito essa decisão foi benéfica, pois pudemos descansar um pouco em casa. E tudo isso que eu disse, as atividades e o descanso, serviu para coletarmos muitas ideias, influências, conhecer pessoas e lugares novos, e com isso nós sentimos que tínhamos adquirido experiência e bagagem para fazer um disco novo. Organizamos as demos no ano passado. Já tínhamos o nome do disco desde o começo do processo de composição, o conceito já estava amarrado porque a banda inteira gostou da ideia e da direção. Fomos atrás de um artista novo para a capa e achamos essa obra feita pela filipina Camile de la Rosa em 2010. Entrei em contato para usá-la e ela ficou muito feliz. As inspirações dela para desenhar a capa eram parecidas com as nossas para compor o disco, e por isso felizmente a capa encaixou como uma luva.

TMDQA!: Você participou da Semana Internacional de Música em São Paulo e falou sobre ser uma banda brasileira no exterior. A agenda de vocês já está cheia de fevereiro a julho com shows pela Europa e Estados Unidos. Como é, pra você, ver que conseguem marcar turnês mais facilmente lá fora do que por aqui? As coisas ainda andam mais devagar no Brasil?
Andreas: Não é questão de andar devagar ou não porque são duas coisas diferentes. Lá fora você toca de segunda a segunda e aqui, embora tenha progredido, isso ainda é quase impossível. No Brasil as bandas se apresentam de fim de semana. Para efeito de comparação, em cinco semanas da nossa turnê com o Kreator faremos 27 shows. Na Europa tem transporte público de qualidade, estradas boas, e a geografia em geral ajuda. Aqui, pra ir de São Paulo a Recife é um sacrifício. O Brasil não tem tradição de receber turnês de rock como as de fora. A linha férrea é debilitada, as estradas são perigosas. Mas temos tocado muito por aqui e temos tido a oportunidade de fazer trilha para séries de TV e filmes, de tocar com gente como o Zé Ramalho, então aproveitamos o Brasil de forma diferente dos Estados Unidos e Europa. Fazemos turnês por aqui desde 1989 e já melhorou muito – temos a possibilidade de tocar em lugares como o Paraguai, o Peru e a Colômbia quando antes era só Brasil, Argentina e Chile.

TMDQA!: Vendo o underground nacional ter uma ressurgência tão forte, tem alguma banda dessa nova safra que te chamou a atenção?
Andreas: Eu acompanho mais o mundo do metal. A gente rola desde Beatles até Napalm Death no nosso programa na rádio 89 FM de São Paulo, mas focamos no metal. Abrimos espaço para bandas se apresentarem lá. E estamos vendo a galera se organizando, indo para Europa com trabalhos independentes. O metal tem essa coisa de se misturar com os outros estilos: o Metallica se inspira no country americano, bandas como o Korn são influenciadas pelo hip hop… falando especificamente de algum grupo, o Claustrofobia lançou um disco muito forte e muito bem feito. É um thrashzão direto, mas muito bem tocado.

TMDQA!: Ao longo desses 30 anos de banda, foram 14 discos de estúdio e uma infinidade de shows no mundo inteiro. Como você acha que amadureceu como músico? Existe alguma lição muito importante que aprendeu nesse tempo, ou algum problema que te incomodava antigamente e que hoje você aprendeu a lidar?
Andreas: Todo o modo de aprendizado, no sucesso e nas perdas, na mudança de membros, na troca de empresário, gravadora, equipe… em tudo isso o importante é manter o foco, ser honesto consigo mesmo, ter uma mensagem e expressá-la honestamente. Acho que, ao fazer uma balada só para tocar em rádio e novela, ou fazer música para agradar fã de época A, B ou C, você acaba se perdendo nisso. Acho que é por isso que o Sepultura faz discos tão diferentes entre si. Nós viajamos muito, temos ideias novas, conhecemos gente nova, e a ausência do medo de arriscar na nossa arte, de fazer parcerias e usar instrumentos diferentes da norma são elementos que nos diferenciam das outras bandas. O business mudou muito mas o show, o palco, a galera são os mesmos de sempre e são os elementos que mantêm as bandas vivas. Não tem como lançar um álbum e esperar o cheque chegar. Música é palco, o resto é consequência do momento do palco.

TMDQA!: Vocês chegaram a fazer um dos shows que estavam previstos com o Lobão, depois os outros foram cancelados. O que achou da reação negativa de uma parte dos fãs? Você entende, concorda com as reclamações deles sobre vocês serem uma banda que tanto luta contra o sistema e que agora ia se juntar com uma espécie de símbolo da direita política, ou existe um lado que eles não estão enxergando ou entenderam errado?
Andreas: Eu respeito a opinião de todo mundo, mas acho isso completamente patético. O Brasil passa por um momento idiótico: ou você é A ou é B. Não tem discussão, ninguém ouve a opinião do outro, existe muita fobia, muita intolerância e desrespeito. O show com o Lobão em Belém foi sensacional, um show energético, com as bandas se dividindo no palco, uma hora só a gente tocando, outra hora só ele, outra hora juntos… mas nós já tocamos com a Ana Cañas, com o Zé Ramalho, e ninguém ficava questionando essas parcerias. Não tem plataforma política nisso. Nós defendemos a arte, o deixar o cabelo crescer, o fazer tatuagem, o exacerbar a sexualidade. Tudo isso é a arte mostrando caminhos diferentes. Nós não somos políticos, somos cidadãos. Vimos que o Brasil não está pronto para certas coisas. Vimos que no palco funciona, mas fora dele não. Infelizmente. Mas espero que role outra oportunidade.

TMDQA!: Você disse a uma revista australiana que não teria nenhum problema em ouvir as bandas do Max (Cavalera). No festival Amnesia Rockfest do ano passado, no Canadá, você tocou com o Sepultura – que naturalmente apresentou músicas do Roots – e, no mesmo festival, o Cavalera Conspiracy tocou um set inteiro com músicas do mesmo disco. O que você achou disso? Chegou a conversar com eles ou a assistir o show deles?
Andreas: Não, cara. Não conversei. Isso não tem nada a ver com a gente… não tenho muito o que comentar. As pessoas tocam em coisas do passado. Isso não vai mudar nada. O que importa é o que fazemos hoje, que estamos com um disco muito bom, acertamos com uma gravadora grande, e estamos muito felizes com isso. Temos que viver o presente.

TMDQA!: O Brasil vai entrar no circuito de promoção do Machine Messiah depois da Europa e dos EUA? Podemos esperar uma turnê no segundo semestre ou em 2018?
Andreas: Sem dúvida. O Brasil é a nossa casa. Lógico que agora temos as turnês com o Kreator na Europa e com o Testament nos EUA até agosto, mas estamos trabalhando nisso. Quem sabe não revivemos o Sepulfest esse ano? Talvez trazendo uma banda gringa. A edição de 2004 no Espaço das Américas (SP) foi fantástica.

TMDQA!: Você tem mais discos que amigos?
Andreas: Acho que todo mundo tem mais discos. Amigo se conta na mão. Meu filho está escutando bastante e aumentando nossa coleção de vinil. Ter uma coleção de discos é uma coisa viciante.