Duke Ellington & John Coltrane
 
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Eu me apaixonei pela obra de Duke Ellington quando ouvi a trilha de Paris Blues (1961) pela primeira vez, com a melhor versão da história para o standard “Take The ‘A’ Train”. Eu ainda era adolescente, e no fervo pós-descoberta do jazz, clássicos do swing como “Take The ‘A’ Train” eram a porta de entrada perfeita para uma exploração mais profunda do estilo. Daí vieram Ellington at Newport (1956) e Money Jungle (1961), dois álbuns muito mais conceituados da segunda fase da carreira de Ellington, um dos compositores mais regravados da música americana. Mas pra mim era só o começo.

A exploração seguiu em frente, até esbarrar no Kind of Blue (1959) de Miles Davis. Um álbum incontestavelmente maravilhoso, uma obra-prima sonora. Em Kind of Blue, notei pela primeira vez as linhas rebuscadas, virtuosas e magistrais de John Coltrane, e não demorou até começar a estudá-lo a fundo: Blue Train (1957), Giant Steps (1959) e My Favorite Things (1961) foram os cartões de visita, e quando cheguei a A Love Supreme (1965), meu mundo se transformou. Se Kind of Blue era uma obra-prima harmônica, A Love Supreme conseguia o mesmo através de estruturas complexas, um conceito mais elaborado e performances ainda mais ousadas. Perplexo, tive a sensação de ter perdido algo pelo caminho, de ter pulado alguns degraus na evolução dos solos afiados de Giant Steps à espiritualidade sublime de A Love Supreme. E aí descobri Duke Ellington & John Coltrane (1963).

Gravado em uma única sessão, Duke Ellington & John Coltrane faz parte de uma série de álbuns “fáceis” gravados por Coltrane no início dos anos 1960, junto com o belíssimo Ballads (1962) e John Coltrane and Johnny Hartman (1963), gravado com Hartman, um subestimado vocalista. Não é o álbum clássico de nenhum dos dois, e seu forte apelo comercial pode sugerir que seja apenas mais um caça-níqueis. Felizmente, não é. Naquele tempo, Ellington era um um ícone do jazz que celebrava um retorno à forma após anos de baixa durante o pós-guerra, e forneceu um canvas limpo a Coltrane, um saxofonista ainda novo, mas já entre os maiores de todos os tempos.

Duke Ellington & John Coltrane é um disco absolutamente fenomenal por ser despretensioso e espontâneo, mas ainda assim sublime, como evidenciado de cara pela impecável faixa de abertura, “In a Sentimental Mood”. Sucesso de Ellington dos anos 1930, aqui a canção ganhou sua versão definitiva, mesmo comparada com regravações por Ella Fitzgerald, Django Reinhardt ou Stan Getz. Ellington flutua ao piano, e Coltrane dialoga com as teclas com a maestria singular pela qual ficou famoso, sempre nos limites da técnica, mas distante do exibicionismo.

Coltrane, aliás, tomou o disco para si. Apesar de oficialmente ser um álbum de Ellington no qual ele atua como convidado especial, Coltrane toca como quem entra na casa de um conhecido, tira os sapatos, deita no sofá e pede uma cerveja ao anfitrião. Em absolutamente todas as faixas o destaque são as melodias ora furiosas, ora encantadoras sopradas por ele, como em “Big Nick”, onde Coltrane quase leva o sax soprano à combustão, ou na suave “My Little Brown Book”, onde passeia por cima dos acordes classudos e livres de Ellington.

Outro destaque do álbum é o baterista Elvin Jones, que toca em quatro das sete faixas. É interessante reparar nas levadas quase abstratas de “In a Sentimental Mood” e na precisão absoluta mesmo nas quebradas de “Take the Coltrane”. Integrante do seminal quarteto de John Coltrane que o acompanhou na primeira metade dos anos 1960, Jones foi peça-chave na progressão do saxofonista no caminho a A Love Supreme por construir o alicerce ideal para as experimentações de Coltrane. Aqui, mesmo limitado a canções tradicionais, sem o destemor de outros álbuns, complementa divinamente as digressões de Ellington e Coltrane.

Um clássico, e uma excelente introdução à obra de dois dos mais respeitados artistas da história da música popular.