Resenha:
 

Resenha: "Kurt Cobain - A construção do Mito", de Charles R. Cross

“O último grande ícone do rock de que se tem notícia”. É essa a afirmativa que o biógrafo oficial de Kurt Cobain, Charles R. Cross, tenta provar em seu último/terceiro livro sobre o ex-líder do Nirvana. “Kurt Cobain – A Construção do Mito” (Here We Are Now: The Lasting Impact of Kurt Cobain) foi lançado mundialmente em Abril de 2014, vinte anos após o suicídio, e contextualiza o impacto de Cobain e sua obra não só no cenário do rock, mas também como tem influenciado, desde então, a moda, o papel dos gêneros, o feminismo, a forma com que o mundo encara o suicídio, o vício em drogas, e o papel de Seattle e do grunge na cultura pop.

A obra chegou ao Brasil pela Editora Nova Fronteira. O livro tem 176 páginas e é dividido em capítulos nos quais o autor discorre sobre determinado aspecto da cultura ou segmento da sociedade como, por exemplo,  a influência de Aberdeen, cidade natal de Kurt, em sua formação artística; ou o suicídio e como o caso foi parar em vários estudos científicos até modificar a forma com que a psiquiatria trata um possível suicida. De leitura ágil e corrida, a obra é daquelas que você não consegue deixar de lado e lê de uma vez só.

Ao contrário do que fez na cultuada biografia “Mais Pesado Que o Céu” (Heavier Than Heaven, 2001), em seu novo trabalho Cross faz uma análise em primeira pessoa a partir do momento em que recebeu a notícia da morte em 1994 – quando editor da The Rocket, uma publicação musical de Seattle – até hoje. Não se trata da vida do astro, mas do que veio depois dela. Além de ter sido um dos primeiros jornalistas a ter esse ‘furo’, Cross foi um dos primeiros a ouvir e avaliar Nevermind e, acima de tudo, era muito fã da banda. Enquanto na biografia o narrador escamoteia-se a fim de mostrar a vida do artista em seus detalhes, aqui, o autor entra no texto para trazer uma experiência singular que todo fã não só de Nirvana, mas de música, vai querer saber.

No final dos anos 1980 e início dos 1990, o rock and roll estava entregue às bandas de “hard rock” como Bon Jovi, Twisted Sisters e, dentre tantas, o Guns n’ Roses. Aqui e ali pipocavam alguma coisa do pop, hip hop, e o que se definiu como rock alternativo, com nomes até muito bons como o Sonic Youth, banda líder nas vendas de discos em 1990. Ainda assim, nada naquele momento tinha tanta força quanto o que surgiria com o Nirvana e, em sua rabeira, o Pearl Jam, Alice in Chains, Soundgarden e todo o grunge. A música precisava de fato de algo novo, algo que colocasse as coisas no lugar novamente, ou que revirasse tudo de vez, o que sem dúvida aconteceu. A maneira com que Charles nos conta como o mundo estava encarando o surgimento do grunge faz crer que sim, um mito se erguia dali em diante. Mesmo que para cair de forma tão rude.

Assim como aconteceu com John Lennon, Jim Morrison e até mesmo com Ian Curtis, suas obras tornaram-se míticas e inquestionáveis postumamente. Com Kurt Cobain não foi diferente. Mesmo que alguns críticos tenham ignorado o legado musical deixado por ele, todos se redimiram depois. A inovação no cenário roqueiro não foi apenas sonora, Kurt Cobain desafiou o mainstrean e a maneira como a indústria fabricava seus astros de rock e seu rock de rádio. O Nirvana fez sucesso sem tocar nas rádios e antes mesmo de estrear “Smells Like Teen Spirit” na MTV, o que balançou toda a lógica então vigente. Mesmo não querendo ser visto e estando muito incomodado com a fama, soube usá-la enquanto pôde: seja em seus discursos contrários à homofobia, à intolerância ou à violência contra mulheres. Em seus shows, o machismo e alguns velhos costumes muitas vezes presentes no rock não eram bem vindos.

Enquanto o leitor se deleita sobre uma série de argumentos, tentar confrontá-los é uma experiência interessante e curiosa. A pergunta que fica é a seguinte: os astros que vieram depois poderiam ter alcançado o mesmo status de Kurt Cobain? Talvez sim, talvez não. É difícil pensar na combinação descrita por Cross sobre Kurt e encontrá-la em outro: “carisma, talento, ambição, atitude, angústia e genialidade para compor.” A coisa fica ainda mais complicada quando pensamos que a tecnologia modificou completamente a maneira com que o mundo passou a consumir música e colocou de ponta cabeça a indústria do entretenimento como um todo. A internet, o streaming, o iTunes talvez tenham posto fim à era dos grandes ícones, das grandes bandas. Essa combinação toda talvez seja o motivo pelo qual Kurt Cobain tenha sido “o último grande ícone do rock de que se tem notícia”. Mas só talvez!