FBC explora o dance music no single
Foto por Fabio Augusto/Reprodução/Instagram

Entrevista por Felipe Ernani e texto por Lara Teixeira

Depois do sucesso do disco BAILE ter acompanhado o rapper FBC nos últimos dois anos, o músico está pronto para apresentar aos fãs seu próximo projeto e provar que não tem medo de arriscar em novas sonoridades.

Com o lançamento do single “Químico Amor”, que teve produção do próprio FBC ao lado da dupla Pedro Senna e Ugo Ludovico, o artista mineiro oferece a primeira prévia do que podemos esperar do seu novo disco, previsto para ser lançado em julho.

Em papo exclusivo com o TMDQA!, o rapper conta que, apesar de achar que as pessoas vão definir seu novo som como house, acredita que estará entregando um disco de dance music. Para o novo single, por exemplo, FBC conta que se inspirou nos trabalhos do rapper americano Channel Tres e do cantor e compositor brasileiro niLL.

Além disso, ao falar sobre os estudos para o sucessor do álbum que ficou no topo da nossa lista dos melhores discos nacionais de 2021, o músico comentou para quem o disco pode ser dedicado:

Sempre será uma homenagem aos grandes mestres da música, tanto a música feita nos Estados Unidos e a música brasileira também, que acredito que as pessoas vão perceber. É demais que muito do que tem ali no disco foi inspirado nessa minha paixão por Jorge Ben Jor, sabe? Esse meu estudo, eu escutei todos os álbuns, eu vi dezenas de entrevistas, eu me aprofundei mesmo na obra do Jorge e isso refletiu nesse trampo, que as pessoas vão ter oportunidade de curtir em breve.

Na entrevista, FBC também compartilhou sua visão sobre a valorização do DJ e da cultura Hip Hop, e explicou mais detalhes sobre a ideia de enviar a música “Químico Amor” em formato .wav aos DJs que solicitassem.

Além disso, ao comentar sobre seu processo de experimentação com outras sonoridades, como a inclusão de um solo de guitarra no novo single, o rapper revelou que teve uma banda cover do Nirvana em que era baterista e contou de que maneira o rap foi se tornando o grande protagonista da sua carreira musical.

Leia nosso papo na íntegra abaixo e confira ao final o clipe de “Químico Amor”, que apresenta referências estéticas inspiradas na produção audiovisual de “Casio”, single da banda britânica Jungle.

TMDQA! Entrevista FBC

TMDQA!: Oi, FBC! Primeiramente, é um prazer falar contigo depois de você nos presentear com o disco nacional do ano em 2021. BAILE foi um passo muito grande na sua carreira, mas você já vem mostrando que não está apegado a continuar na mesma estética pra sempre. Nesse sentido, o que “Químico Amor” representa para o futuro da sua carreira?

FBC: Bem, oi, tudo bem? É muito bom estar aqui de novo. E já tem dois anos que essa música tá feita e hoje eu já penso no próximo trabalho. Eu gosto muito do resultado desse próximo disco que vai sair agora, mas eu já tô estudando o próximo. “Químico Amor” vai mostrar pra galera que tá esperando algo parecido com BAILE, ou algo parecido com Outro Rolê, ou Dias Antes do Baile, que a linha mudou, né? Porque todos os meus outros trampos antes de BAILE são linhas que se cruzam em vários momentos, né? BAILE é uma linha paralela que não cruza em nenhum momento com os outros trampos, mas é uma linha paralela dentro do hip hop. Esse já não, é outra linha, né? É uma parada que eu acredito que as pessoas vão chamar de house, mas na minha concepção eu tô entregando um disco de dance music. E é isso que as pessoas podem esperar.

TMDQA!: Sinto que a faixa é quase como uma homenagem, de certa forma, à cultura disco e do sample que é tão importante pra toda a cultura Hip Hop. De onde veio esse pensamento nesse momento da sua carreira?

FBC: Há dois anos, em abril de 2021, eu fui convidado pelo MC SID para gravar uma faixa em Brasília com alguém da gravadora dele e tinha o Pedro e o Ugo, que eu achei o trampo deles fantástico e eu pedi uma contrapartida. Pô, vou gravar aqui um estilo que eu não tô mais fazendo, né? Que eu quero pegar outra parada da minha carreira, que eu fiz uma música de trap, é uma coisa que eu não tava fazendo, eu não queria fazer, para também mostrar pro meu público que já tava tendo uma mudança. Aí, essa contrapartida foi “Químico Amor”, foi um house. Falei, vamos fazer um house. Eu estava me inspirando muito em Channel Tres.

Em 2020, no final de 2020, eu tinha ido pra Europa e ali eu tinha mudado o servidor do Spotify, então os sugeridos pra mim… foi uma coisa que eu me alimentei muito daquilo, segui todas as playlists e as playlists que eu mais segui foram playlists de house. Então eu já voltei desde 2020 com essa coisa de estar ouvindo muito house, muito house, querendo fazer uma coisa parecida ali com o que o niLL também já fazia aqui no Brasil, com o que eu curtia do Channel Tres. E aconteceu isso, aconteceu o “Químico Amor”, e foi também num momento de transição, onde na minha vida pessoal estavam acontecendo grandes transformações. E a música fala também um pouco disso.

E sim, sempre será uma homenagem aos grandes mestres da música, tanto a música feita nos Estados Unidos e a música brasileira também, que acredito que as pessoas vão perceber. É demais que muito do que tem ali no disco foi inspirado nessa minha paixão por Jorge Ben Jor, sabe? Esse meu estudo, eu escutei todos os álbuns, eu vi dezenas de entrevistas, eu me aprofundei mesmo na obra do Jorge e isso refletiu nesse trampo, que as pessoas vão ter oportunidade de curtir em breve.

TMDQA!: Uma coisa que eu achei sensacional e até colabora com essa ideia é o fato de você ter prometido enviar a faixa em .wav para DJs que te pedissem, fortalecendo também esse outro ponto da cultura Hip Hop que é tão forte. É legal porque, mesmo ali no BAILE, a gente tem um disco que não é só do FBC, mas do FBC e do VHOOR. Conta um pouco pra gente sobre essa valorização do DJ e o quanto isso é importante pra você?

FBC: O mais importante pra mim é sempre frisar que independente de onde eu estiver, independente do que eu esteja fazendo naquele momento do futuro, que vai vir, os momentos que virão, que eu ainda vou fazer as coisas que eu quero fazer, que são muitas coisas. Eu sempre serei um MC, eu sempre serei uma pessoa que foi, é e sempre serei; o FBC sempre será um militante da cultura hip hop. E isso começou com a cultura de DJ, MC, dança, arte, grafite, é isso.

Então, esse lance de valorizar o DJ é porque é assim que o hip hop irá sobreviver. A ideia vai ser passada pra frente, a galera vai querer entender por que é assim e pesquisar o que aconteceu. E é simples, é muito simples. Quem mais toca, quem define o que é a pista é o DJ. Então a visão é estratégica também: digamos que 50% é amor e 50% são negócios, o equilíbrio de tudo. O cara vai ganhar a Wave naquele dia. Toda festa que tiver um DJ que recebeu a Wave naquele dia vai tocar a música, certo?

E é isso, eu sempre pensei no meu trabalho como um produto também, tá ligado? Porque primeiramente eu faço música pra ouvir, mas eu queria que outras pessoas ouvissem. Mas isso tudo tem um preço, então eu posso vender sim o meu trampo e, antes de ser MC, ser artista. Eu sou camelô, cara, entendeu? Sempre vou ser um vendedor de coisas. Eu posso vender em algum momento produtos, mas também eu posso em outros momentos vender ideia, informação e conhecimento, que meu produto já é isso tudo, né? Mas vamos expandir os negócios, entendeu? E estar junto com a cultura é também o que me mantém no mercado.

Então, eu sempre vou estar do lado do meu DJ Kost, sempre vou estar do lado do DJ Vhoor, sempre vou estar pesquisando, sempre vou estar perguntando para os DJs que são amigos meus, e que eu vou conhecendo, que me ensinam tudo que você sabe: qual é a sua concepção de pista? O que você acha que deve? Qual que é o tipo de música? Qual que é o humor, o mood da primeira música? Um meio ali, quando a pista cai, eu quero saber isso, entendeu? E assim eu vou sobrevivendo no mercado.

TMDQA!: Talvez a grande surpresa dessa música seja o fato de rolar até um solo de guitarra por ali! Como tem sido o seu processo de experimentação com outras sonoridades nos últimos tempos e o que te fez cair nesse caminho?

FBC: A música sempre esteve presente na minha vida, na minha família, no terreiro lá de casa, na rua, nas quermesses, quadrilhas, festas de escola. Eu já disse isso muito, que antes do rap eu tocava na igreja, né? Eu tinha uma banda de cover do Nirvana, que eu era baterista. Meus primos tinham banda também de punk rock, o nome da banda dos meus primos é até Rock Slide. Eles vieram no interior, construíram uma casa do lado da minha, construíram um estúdio pequenininho. Um tocava guitarra, outro bateria, e eu fui aprendendo a tocar bateria.

O rap surgiu na minha vida… O rap também sempre esteve ali. Eu sou morador… Eu nasci e cresci no São Benedito, que é região metropolitana de Belo Horizonte, que é uma periferia, e o rap sempre esteve lá, o funk sempre esteve lá. Mas o rap surgiu na minha vida porque quando eu me politizei ali, com os meus 13 anos, 14 anos, na escola, tinha até a pretensão de ser o presidente do Grêmio, eu me situei aonde que eu estava e o que fazia mais sentido pra mim como algo, um movimento, uma expressão ali, tá ligado? Eu podia me expressar, eu podia encontrar sentido nas coisas que eu também pensava igual era o rap, por questão da política, das pautas e os temas. Aí eu comecei a fazer, fui fazendo, fui fazendo, fui fazendo e eu acho que fiquei bom naquilo.

Mas antes de tudo eu sou um instrumentista, eu sou um baterista, tá ligado? Eu faço batidas e a diferença é que eu fiz batidas com minhas palavras porque eu não tinha bateria, tá ligado? E eu fui fazendo rap por conta que era muito fácil também fazer, né? Eu não ia precisar microfonar prato, não era instrumento. Era a minha voz, a minha letra, um microfone gravando no computador, né? Era uma coisa de baixo custo, sabe? E ainda tinha a ideia de que eu poderia mudar a minha realidade e a realidade do lugar onde eu vivia na época.

Aí, nisso, eu fui fazendo, fazendo, conheci o duelo de MCs e conheci o hip hop, que aí tudo mudou. Porque antes eu entendia o rap como rap nacional, música de protesto, música de mensagem, mas não sabia do mundo, do universo, da onde é aquela música, de qual universo vinha. Eu conheci o hip hop, aí já é outra história, certo? Então, eu sempre vou tocar, eu sempre vou gostar de música boa. Se um dia eu quiser fazer axé, com todo respeito aos que já fizeram, eu vou fazer com todo o respeito, da mesma forma que eu fiz todos os meus outros álbuns com todo o respeito, certo? A questão é que eu gosto de música. Eu amo música, eu vivo música, eu vivo música boa, e eu tô aprendendo a tocar teclado, piano, tô aprendendo a fazer beat na MPC. E é isso, não vou parar. Não é posicionamento, é porque eu tô fazendo o que eu gosto, e de forma independente.

TMDQA!: Você tem tido uma agenda bem disputada nesses últimos anos e, claro, muito disso tem a ver com o BAILE. Mas muita gente também já conhecia as coisas antigas e também tem muita gente conhecendo e curtindo as coisas novas. Como tem sido conciliar tudo nessas apresentações e ver a galera crescendo a cada lançamento?

FBC: Em 2019, quando eu lancei o álbum Padrim, eu fiz o movimento 15/11 e as pessoas falam que eu parei o Twitter, que foi trend global, foi essa coisa toda. Muita gente participou, Marília Mendonça retweetou, Felipe Neto, Whindersson, os maiores twitteiros, as maiores contas do Twitter na época, eles repostaram a ideia do movimento 15/11 e deu muito certo o álbum Padrim.

Só que o álbum Padrim foi lançado em 15 de novembro de 2019. O que aconteceu em 2020? Pandemia. A gente tinha muita proposta de show, tava rolando, eu fiz alguns shows do álbum. E o que aconteceu foi que a pandemia veio, ficou esse tempo todo e a parada ficou ali no tempo, né?

Uma coisa que ficou restrita às pessoas também que continuaram sendo fãs, mas do grande público em geral que quer show, eles vão querer os shows daqueles artistas que estão tocando nas playlists do momento, entendeu? Então é muito difícil de um ano e meio depois eu vender muito show de um álbum antes da pandemia, tá entendendo o que eu tô falando?

E BAILE eu acho que deu um gás, um boom, pra que as pessoas que queriam ouvir ainda o S.C.A, porque o S.C.A foi lançado em 2018 mas as pessoas queriam ouvir o álbum ainda, queriam ouvir Padrim, certo? Também foi um álbum que foi lançado quase no dia que estourou o lockdown no mundo, que é a “Best Duo”, as pessoas queriam ouvir aquilo. E tiveram a oportunidade de contratantes de vários lugares que querem contratar por conta do BAILE. Né?

Eu fiz vários shows em que as pessoas só animavam quando começava o BAILE, mas eu vi ali na frente qual era a emoção dos fãs antigos, das pessoas que me acompanham desde 2013, na época de DV Tribo, Batalha, eles cantarem músicas igual a “Alta Ajuda”, “Se Eu Não Te Cantar”, entendeu? O próprio “Best Duo”.

E agora, com esse novo trampo, eu pretendo figurar nos palcos maiores onde o BAILE não conseguia entrar como atração, digamos, headliner. Principal, o palco principal, sabe? Porque o BAILE tocou, tocou, mas a gente ficou ali, “Ah, palco favela, ah, palco alternativo”, sabe? Três quilômetros do palco principal, coisas assim, tá ligado? Mesmo várias músicas sendo obrigatórias no set de DJs pelo Brasil todo, certo? Agora a proposta é outra, e eu não vou parar de trabalhar, não vou parar de estudar, ainda a gente vai conversar muito. Beijo pra vocês.

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