nina simone em summer of soul
Foto: Reprodução/Searchlight

O nome completo do documentário Summer of Soul (…ou Quando a Revolução Não Pôde Ser Televisionada) torna tudo autoexplicativo: o Harlem Cultural Festival, um dos maiores eventos culturais voltados à população negra no século XX, simplesmente não teve apoio suficiente para ser transmitido. O resultado? As gravações desse evento histórico ficaram guardadas em um porão por mais de 50 anos!

O documentário dirigido por Questlove (The Roots) com certeza será considerado, em breve, uma das maiores produções musicais já realizadas na história do cinema. O projeto visita o já citado Harlem Cultural Festival, evento musical que aconteceu no verão de 1969, contou com mais de 300 mil visitantes e, mesmo assim, foi ofuscado pelo festival Woodstock, outro grande acontecimento daquele ano a apenas 160 km de distância do Harlem, em NY.

Após um trabalho fantástico de restauração, as apresentações de grandes nomes da black music finalmente foram disponibilizadas para que o mundo todo possa assisti-las, fazendo justiça à grandiosidade que foi esse evento.

Bem mais que um “Woodstock Negro”

O Harlem Cultural Festival foi um marco cultural para os EUA no final dos anos 1960 mas, infelizmente, esse impacto se reduziu ao público que esteve presente nas seis semanas de duração ou ao que acompanhou o noticiário da época.

Injustamente colocado à sombra de Woodstock, o encontro foi podado logo de cara e não havia estratégia possível para reverter a decisão de não dar publicidade a ele. Um dos produtores ainda tentou emplacar o rótulo de “Woodstock Negro”, mas não adiantou: ou você estava presente nas ruas do Harlem naquele verão ou dificilmente ouviria falar daquelas apresentações novamente.

Contexto histórico

Uma das maiores virtudes de Summer of Soul é utilizar o panorama sociopolítico da época para explicar o tamanho colossal que o festival representou na vida das pessoas que viviam no Harlem nas décadas de 1960 e 1970.

A estrutura narrativa aproveita entrevistas atuais, recortes de imagens da época e os shows em si para situar o espectador em um dos momentos mais tensos da história dos EUA, com o fortalecimento do movimento dos direitos civis e a forte represália institucional, especialmente contra as minorias.

Aquele era o último ano de uma década marcada pelos assassinatos de John F. Kennedy e de lideranças do movimento negro, como Malcolm X e Martin Luther King Jr. (este, apenas um ano antes). Ainda havia a Guerra do Vietnã, para a qual eram enviados milhares de jovens negros para lutarem uma batalha que, para eles, era sem sentido.

Como o próprio documentário deixa claro, o objetivo do festival era evitar que a cidade de Nova York queimasse com tanta revolta e pessimismo. 

No entanto, havia outra face do movimento, muito bem explorada por Questlove, que era o início de um novo mundo para a população negra.

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summer of soul
Foto: Reprodução/Searchlight Pictures

Mudanças em curso

O Harlem Cultural Festival representou a primeira oportunidade que muitos jovens tiveram de assistir aos seus artistas favoritos reunidos. Mais do que isso, crianças estavam vendo pela primeira vez tantas pessoas negras reunidas e festejando. Os músicos cantavam sobre o dia a dia das suas cidades, das suas comunidades, algo com o que o público conseguia facilmente se relacionar. Cantavam sobre o que os fazia felizes e isso era motivo de orgulho e não apenas admiração.

O festival não era apenas sobre música, era sobre progresso. Era sobre a consolidação de mudanças que já estavam em curso e alcançavam locais antes inimagináveis. 

Uma das revoluções citadas pelo documentário foi na moda e no estilo. O grupo Sly and the Family Stone representava uma grande mudança na forma como as pessoas se vestiam, inclusive no próprio mundo artístico. Nada de conjuntos de terno combinando e roupas sociais: os integrantes se vestiam de forma colorida, ousada e espirituosa. Não à toa, eram conhecidos como o Ministério da Diversão.

Coincidentemente, o festival estava acontecendo quando houve o pouso da Apollo 11 na Lua, o emblema do suposto progresso que mudaria a humanidade para sempre. O simbolismo disso é profundo, uma vez que boa parte do público não estava nem aí para a corrida espacial. 

Aqueles eram dias para celebrar a negritude e cobrar soluções muito mais urgentes para a população, como o combate ao racismo e à violência institucional. Não havia tempo nem energia para se preocupar com as condições nas quais o solo lunar foi encontrado.

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summer of soul
Foto: Reprodução

Do ponto de vista dos artistas, também havia uma oportunidade para ser aproveitada. Grandes estrelas como Stevie Wonder estavam se posicionando politicamente com mais obstinação. Nina Simone foi outra lenda da música que se apresentou e teve no festival uma chance de consolidar a importância que vinha conquistando na luta contra o racismo e contra o machismo.

Além disso, grupos como o 5th Dimension, que eram considerados “pouco negros” por misturar aspectos pop às raízes da black music, puderam estreitar os laços com seu próprio povo. 

Blues + jazz + gospel

A música gospel era um dos aspectos que mais conectava as comunidades negras em todo o país, inclusive na luta por direitos civis. Martin Luther King Jr. sempre estava acompanhado do Reverendo Jesse Jackson e do produtor musical Ben Branch, por exemplo. 

Um dos entrevistados no documentário menciona que a música gospel não é apenas sobre ser religioso. Existia também um aspecto de terapia para tratar o estresse que era ser negro nos Estados Unidos naquela época. A declaração é forte, porém, necessária para imergir naquele contexto.

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summer of soul
Foto: Reprodução/Searchlight Pictures

Já ficou claro que Summer of Soul é uma aula de História, no melhor sentido possível. 

A produção mostra exatamente como um símbolo de esperança é construído e acaba virando uma ameaça – não foi apenas uma coincidência a escolha de ignorar um evento desse tamanho. O sentimento de união criado a partir das afinidades culturais de um povo pode mover montanhas!

Ao mesmo tempo que lidava com traumas, sentimentos de raiva, revolta e medo, o Harlem Cultural Festival é um grande exemplo de como a população negra nos Estados Unidos viu na cultura um refúgio.

A energia necessária para olhar para as injustiças e cultivar um desejo de mudança vem justamente de experiências catárticas e revolucionárias como essa, seja no movimento de contracultura, seja na manutenção dos valores religiosos cristãos. E, nesse caso, um fator esteve sempre presente: a música.

O que nos resta é ter uma imensa gratidão pela recuperação das imagens do Harlem Cultural Festival. A humanidade agradece.

Summer of Soul (…ou Quando a Revolução Não Pôde Ser Televisionada) estreia em alguns cinemas brasileiros no dia 27 de janeiro. O documentário também está disponível no serviço de streaming Telecine Play.

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