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Foto por Marcelo Mudou
 

Foi em Fortaleza, berço do forró estilizado, que surgiu a banda de proto-punk Jonnata Doll e os Garotos Solventes. Entre o exótico, o provocativo e a luta anti-conformista, o grupo, hoje radicado em São Paulo, já soma mais de dez anos de carreira e três álbuns de estúdio.

Erguendo a bandeira do movimento beatnik em pleno século XXI, a banda flerta com Jack Kerouac em texto e traz uma sonoridade punk que se aproxima dos primórdios do gênero. No entanto, as angústias cantadas, por vezes berradas, são bastante atuais, tendo como principal plano de fundo o conservadorismo à brasileira.

Turnê Liveshow

O quarteto solvente está realizando uma turnê virtual em celebração ao seu mais recente álbum, Alienígena, lançado em 2019. O grupo preparou seis apresentações no formato liveshow que estão sendo transmitidos de forma gratuita direto de casas de cultura da periferia e do interior de São Paulo.

O grupo é famoso pelas suas apresentações destruidoras, numa pira performática digna de uma fusão entre Iggy Pop e GG Allin. Em conversa com o TMDQA!, o vocalista Jonnata Doll falou sobre a importância da interação pele com pele entre a banda e o público em seus shows e como tem feito para contornar a situação.

A gente usava essa energia toda nos ensaios, nas gravações. Quando você acredita no seu som, entrega essa visceralidade em qualquer circunstância. O vídeo consegue captar essa visceralidade assim como um filme de terror também. E a interação é diferente, né? Dessa forma, nós dialogamos com a galera pelo YouTube enquanto tocamos, com pessoas muitas vezes de diferentes estados, algo bem inusitado.

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A primeira etapa da turnê aconteceu entre Setembro e Outubro de 2020, e, além dos shows, contou com entrevistas e oficina de fanzine; já a segunda, vem sendo realizada entre Janeiro e Fevereiro de 2021.

A viagem virtual da banda já passou pela Fábrica de Cultura (Capão Redondo, São Paulo), Armazém Baixada (Ribeirão Preto, São Paulo), Shake, Shake, Shake (Franca, São Paulo), Asteroid (Sorocaba), Casa de Cultura São Mateus (São Paulo) e Casa de Cultura Butantã (São Paulo).

A ideia do projeto partiu de levar o punk rock conceitual e beatnik do grupo às zonas mais periféricas da capital, bem como o interior do estado, como forma de integração, transformação do espaço urbano e disseminação da arte transgressora e visceral de Jonnata como ferramenta de propagação.

Eu acho que nunca vai ser a mesma coisa como se tivéssemos ido pessoalmente lá, mas, ao mesmo tempo, não dá pra dizer que não alcançamos mais pessoas. Até porque uma das estratégias do projeto é entrevistar pessoas da cena local que muitas vezes produzem um som bem diferente do nosso. Essas pessoas muitas vezes não estariam em um show nosso, mas quando rolam as lives elas acabam conhecendo a banda.

A Internet rompe as barreiras físicas e leva a banda para dentro da casa do público, mas os algoritmos nem sempre trabalham a favor para levar o som do quarteto a novos ouvidos. Mas, Jonnata nos conta que a quantidade de views nas transmissões não é uma preocupação. Segundo o músico, eles valorizam “os que se interessam de verdade e procuram entender nossa mensagem“.

a internet, apesar de ser um ambiente em tese livre, trabalha com algoritmos que muitas vezes impedem pessoas novas de chegar até a gente. Quem vem é porque já se identifica de alguma forma. A gente consegue chegar nessas pessoas geralmente quando fazemos shows ao ar livre em ambientes roqueiros (geralmente conservadores) ou participamos de algum programa de TV. Mas existem até algumas respostas nos vídeos, como “aonde a juventude brasileira está chegando?” [risos]

Os shows têm percorrido por toda carreira da banda, desde o lançamento do disco homônimo, de 2014, passando pelo excelente Crocodilo, de 2016, até desembarcarem na síntese do Alienígena, o disco de maior maturidade da banda. No repertório, clássicos da banda como “Rua de Trás”, “Namorada Fantasma” e “Esperando Por Você” se mesclam às novas “Baby”, “Edifício Joelma” e “Swing de Fogo”.

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Show de Encerramento com Verónica Valenttino

Agora, Jonnata Doll e os Garotos Solventes preparam a estreia do show de encerramento da turnê, que será transmitido na quarta-feira de cinzas, dia 17 de Fevereiro. A apresentação trará a participação especial de Verónica Valenttino, transativista, atriz e vocalista do Veronica Decide Morrer.

Ao contrário das demais apresentações, essa foi gravada em estúdio e será transmitida no canal do Jonnata Doll e os Garotos Solventes. O grupo promete um show mais punk e direto, e o vocalista nos adianta que ainda vai rolar uma novidade: de forma inédita, Verónica vai participar diretamente cantando inclusive canções dela.

Verónica é uma amiga e parceira de longa data, mas apesar da proximidade nossa, nunca havia rolado nenhuma parceria musical. Chegamos juntos de Fortaleza a São Paulo, e eu a encontrei no teatro, ela era atriz. Ela é uma guerreira, o que ela teve de enfrentar em Fortaleza como travesti não foi brincadeira. E agora em São Paulo, ali pelos becos que ela anda, isso é bem pesado. Vai ser uma honra estarmos com ela.

Jonnata afirma que existe, também, um outro motivo para convidarem Verónica para a apresentação: eles querem fortalecer a diversidade no rock nacional.

Sempre fizemos sons com pessoas que afirmavam a heteronormatividade branca do rock, e estamos usando essa ferramenta como rompimento destes padrões. Amamos o rock e queremos que ele volte a ser transgressor e rebelde.

Os próximos passos dos Garotos Solventes…

O último álbum da banda, Alienígena, contou com produção de Fernando Catatau, do Cidadão Instigado. Corrosivo, o disco retrata a loucura de São Paulo com a lucidez do punk. Em nossa conversa, Jonnata revela que planejam um novo álbum e ainda contou sobre os temas que serão retratados no trabalho.

Vamos encerrar de forma oficial a turnê do Alienígena agora. O próximo passo naturalmente vai ser gravar outro disco. […] Esse disco novo será de músicas que abordam a pandemia, o lado cruel da diferença de classes no Brasil, etc. E esperamos voltar logo, porque há muito tempo tenho me sentido um peixe fora d’água.

Segundo Doll, os integrantes também têm outros projetos. Ele e o guitarrista Edson Van Gogh estão gravando a trilha sonora de um game, que ainda é segredo, além de terem feito a trilha de audiobooks de literatura erótica. Os músicos ainda integram o grupo de teatro A Motosserra Perfumada, que também trabalha em novidades. A última peça do grupo, “Res Pública 2023”, foi censurada pelo ex-secretário nacional da cultura Roberto Alvim, por abordar “temas transgressores e que batem de frente com este neo-totalitarismo que vivemos“.