Meus Discos, Meus Amigos com Kito Vilela
   

Meus Discos, Meus Amigos com Kito Vilela
Foto por Victor Marcello

Figura importante e grande representante do rock’n’roll carioca, Kito Vilela é vocalista e guitarrista das bandas R.O.T.S. (Riot On The Ship) e De’La Roque. Essa última, composta também por membros do Matanza e StripClub, lançou em Março Qual O Seu Preço?, candidato sério a melhor álbum nacional de 2012.

Amante de vinil, Kito não pensou duas vezes em aceitar o convite do Tenho Mais Discos Que Amigos! para falar com carinho e muito bom humor sobre sua coleção e o que acha do formato, além de nos mostrar em fotos parte de seu variado acervo.

Queria ter mais tempo [para colecionar], ainda mais agora que eu acabei de roubar todos os vinis dos meus pais – tem de tudo por aqui, de Wando a John Coltrane!!, contou.

Logo abaixo, confira as divertidas histórias do músico sobre sua forte ligação com o vinil e saiba se ele também faz parte do time que tem mais discos que amigos.

TMDQA:! Como você começou a colecionar discos?

Kito Vilela: Meus pais sempre foram muitos envolvidos com música, eles cantavam, tocavam e consumiam muitos LPs e fitas cassete. Minha mãe é professora de português e literatura e meu pai é engenheiro e um ótimo sambista (atualmente, só nos finais de semana se não a dona Cida briga). Existia um quarto na minha antiga casa, em Angra, que era um misto de biblioteca, sala de música e alambique. Minha mãe guardava os seus livros, meu pai sua coleção de cachaça e, consequentemente, os discos e o aparelho de som foram parar lá. Aquele quarto era a minha Disneylândia, era um mundo mágico cheio de coisas a serem descobertas. Desde pequeno sempre passei muito tempo ali, roubava um pouco de cachaça, folheava e lia alguns livros e é claro comecei a desenvolver uma paixão incondicional por tudo aquilo, principalmente por música. O hábito foi virando vício com os anos e hoje eu tenho algumas centenas de discos que acumulei durante a vida.

Meus Discos, Meus Amigos com Kito Vilela

Qual o disco de vinil mais importante da sua coleção?

Todo mundo que tem mais de 30 e toca ou tocou em alguma banda já sonhou em ter a sua cara estampada na capa de um LP. Há alguns anos eu substituí o Sad (ex-Ack e atual Evil Idols) nos Estudantes. Eu tocava baixo na banda, com o Diogo na batera (ex-Eigh Microwave), Manfrini na guitarra e o Vitão nos vocais (ambos da clássica banda carioca dos anos 90 “Claro que não”). A banda sempre teve uma energia absurda no palco e em um determinado momento a gente decidiu transferir isso para uma gravação. O registro foi feito em um fim de semana. Foi um esquema muito punk, baixo e batera gravados juntos em duas horas, sem clique, guitarra e todos os vocais feitos em um só dia, foi lindo. Quem produziu e gravou esse álbum foi o Rafael (Planet Hemp) no Superfuzz. São 16 músicas que resultaram em 22 minutos e 41 segundos de agressividade caótica, puro espírito e coração . Depois da gravação, eu fiquei sabendo que, além de sair em CD, o disco também seria lançando em vinil. Foram prensadas apenas raras 100 cópias. Eu ouvi o disco de novo pra responder a essa entrevista e foi emocionante; é singular ver o vinil girando na vitrola e saber que você é responsável pelo som que está saindo dali. Eu consegui! Infelizmente, eu não peguei a minha cópia na época, o LP que eu tenho em casa é “emprestado” por tempo indeterminado do Diogo!!! Esse com certeza é o disco mais importante da “minha” coleção [risos]!

Meus Discos, Meus Amigos com Kito Vilela
Foto por Victor Marcello

O que você acha da volta dos discos de vinil?

O mercado fonográfico hoje em dia não é tão definido como era antigamente. Quando eu era criança existia rádio, fita cassete, disco de vinil e só. Com a chegada do CD, o mercado mudou totalmente, o vinil foi tido como uma tecnologia obsoleta, vários discos da minha coleção são do raciocínio estúpido dessa época “LP é lixo”. Hoje realmente existe uma certa desilusão com o CD e a música digital, os especialistas dizem que o som é mais quente e mais verdadeiro no vinil quando se quer reproduzir o material original, logo a saída da indústria foi voltar a produzir vinis. Virou “cult” lançar vinil. Não acho que essa volta seja puro saudosismo, acredito realmente que um novo público consumidor possa ser criado. Imagino que grande parte do público mais jovem deva ver o vinil como a gente vê uma máquina de escrever, afinal de contas o vinil requer espaço e cuidados nada práticos, mas o charme, o cheiro, o som, e a forma… é como uma mulher com um beijo quente e molhado, impossível não gostar de primeira.
E não há nada como reunir um pequeno grupo de amigos, para ouvir discos bebendo algo, fumando algo… é um ritual extraordinário, o encontro vira um evento e a música em si ganha uma dimensão completamente diferente.

Meus Discos, Meus Amigos com Kito Vilela

Qual foi o seu primeiro disco (vinil/CD)?

O “bum” do CD no Brasil foi entre 91 e 92, antes disso me lembro de ter juntado minha mesada por dois meses pra comprar o meu primeiro disco numa lojinha chinfrim em Angra, o nome da loja era “Fá-Sol” (os donos eram Fábio e Solange!!! Casal criativo não?)… eu, moleque ainda, cheguei na loja segurando o dinheiro na minha mão direita pra comprar o Anthology da Janis Joplin, tinha descoberto a namoradinha do Serguei há pouco tempo, não me lembro como, mas fiquei maluco ao ouvir “Summertime” pela primeira vez e comprei o disco por causa dessa música. Ouvi esse LP diariamente durante muito tempo. Mais tarde, na adolescência, eu dei ele para um hippie em troca da minha primeira tatuagem. Moral da história: perdi um ótimo disco e ganhei um tribal horroroso perto do meu sovaco direito! É engraçado agora lembrar dessas armadilhas do passado.

Que bandas você tem ouvido ultimamente?

No computador eu ouço de tudo, baixo muita coisa toda semana, mais coisa do que eu dou conta de ouvir. Na vitrola até entra coisa nova, comprei o disco do Beach Combers nessa semana e tenho ouvido também o Pedras Portuguesas Na Sua Cabeça, o novo disco dos Estudantes (é realmente uma pedrada). Eu herdei/roubei a coleção dos meus pais, então tem muita coisa ali de samba, de moda de viola, MPB, blues, soul, jazz…no momento o meu grande prazer é descobrir coisas que nem eu sabia que tinha. Estou alucinado numa coleção chamada Gigantes do Jazz (lançado pela Abril Cultural em 81). Billie Holiday, Sarah Vaughan, Louis Armstrong, Thelonious Monk, Art Tatum, Fats Waller, Duke Elligton, todos os “negões” clássicos estão lá e é absurdamente bom.
Obs: pra quem não sabe, meu pai é negro, então eu posso falar “negão” sem ser considerado preconceito, falô?

Meus Discos, Meus Amigos com Kito Vilela

Você tem alguma história envolvendo alguma compra ou achado de um disco?

Eu tenho uma boa história sobre um achado. Já adolescente, numa tarde de verão, eu e o meu irmão mais velho começamos a discutir. Eu queria ouvir o Loco Live (Ramones) no volume máximo e ele queria assistir a algum programa na TV. Ele gritava “abaixa essa porra” e eu não abaixava, ele desceu a escada uma vez e abaixou o volume, virou as costas e saiu. Eu aumentei de novo, a cena se repetiu no melhor estilo Chaves umas três vezes, até que em algum momento ele, no auge da ira, desce a escada, desliga o som, tira o meu disco lentamente e quebra o meu LP no joelho como um karateca em um torneio mundial de quebrar coisas com um só golpe. Eu fiquei desolado, eu realmente amava aquele disco, escutava todos os dias. Como eu morava em frente ao colégio, na hora do recreio juntava uns oito moleques da turma dos “roqueiros malucos” do colégio na sala da minha casa, para ouvir o disco como se estivéssemos no show dos Ramones, a gente abria rodinha e o caralho. Isso nunca mais iria acontecer com aquele LP. Possesso de raiva, eu saquei do armário um disco do Tim Maia ao vivo e coloquei para rodar na vitrola no último volume. Só para explicar, meu irmão é igual a mim, só que duas vezes maior, pra cima e para os lados, ele é um Kito depois de uma experiência que deu errado com raios gama, pelo fato de ser “gordinho” e mais moreno que eu, quando queria deixar ele puto, eu o chamava carinhosamente de Tim Maia. Ele odiava o apelido com o mesmo ódio que Hitler odiava os Judeus. Então, voltando, ao ouvir a primeira música do disco “Vale-tudo” (que ironia do destino!) e perceber que estava sendo sacaneado por mim, ele desceu os 20 degraus com 3 passos e naquele dia o meu irmão achou o ângulo perfeito pra me dar um murro no meio da cara e arrancar sangue no meu nariz, me deixando caído no chão totalmente nocauteado como se tivesse sido atropelado pelo Anderson Silva num Hummer. Nunca mais ouvi esse disco ao vivo do Tim Maia.

Meus Discos, Meus Amigos com Kito Vilela

Como artista, como você encara o mercado fonográfico da atualidade?

Ninguém consegue prever o futuro, CD (Já era?), LP (cool?), iTunes (talvez?), download ilegal (me declaro culpado), CD pirata etc. Tá um samba do criolo doido. Nunca se consumiu tanta música no mundo e nunca se comercializou tão pouco (é clichê dizer isso mas é verdade). Quem depende de vendas de CD para sobreviver se encontra, literalmente, fantasiado de bunda em festa de caralho. Eu não sei mesmo, minha banda o De’La Roque não tem material físico, a gente não prensou CD nem LP, apenas decidimos colocar o nosso último álbum Qual o Seu Preço? no nosso site inteiramente gratuito pra download. Não sei se essa é a melhor maneira, mas foi o jeito que nós encontramos pra divulgar o nosso trabalho com mínimo de dificuldade possível no mundo todo sem depender de selos ou gravadoras. O melhor da vida é não precisar de aprovação de ninguém. Mas agora, no fim dessa entrevista, confesso que fiquei tentado a prensar um LP bonitão do De’La Roque. Acho que vou fazer um crowdfunding!

Meus Discos, Meus Amigos com Kito Vilela

Você tem mais discos que amigos?

Claro que tenho! Eu faço amigos muito fácil, mas carregar os amigos durante a vida com bandas, trabalho, namoradas é muito difícil  dá muito trabalho. Discos é muito mais simples, você compra, coloca numa prateleira e ele fica ali junto com os outros, paradinho, bonitinho, só esperando a hora de ser escolhido pra subir na vitrola e girar loucamente, [risos]. Disco só te dá trabalho quando você é despejado do seu apartamento e tem que fazer mudança, aí é uma merda. Nessas horas eu prefiro o mp3 ao vinil! Só nessas horas, [risos]!