Céu
Foto: Fábio Audi
 

Sem sombra de dúvidas, a cantora paulista Céu é um dos nomes mais importantes de um movimento musical que alguns entendem como “a nova MPB”. Sua sonoridade, que mergulha em um caldeirão de referências, passou a ser influência para vários artistas do atual cenário musical do Brasil.

Com cinco discos na bagagem desde 2008, chegou a hora de conhecermos o mais recente. Apká! nos apresenta a uma nova Céu. Desde o lançamento de Tropix, de 2016, muita coisa aconteceu na carreira da cantora, inclusive o nascimento de seu segundo filho, Antônio. O nome do álbum, que a princípio nos remete à ideia de um outro dialeto, na verdade foi a primeira palavra dita por Antônio.

Mas o disco de fato nos apresenta a um mundo novo. Representando um elo entre seu passado, seu presente e seu futuro, o novo disco nos apresenta com detalhes as camadas de uma artista incrível em constante evolução, tanto em termos sonoros quanto líricos. Isso sem falar nos riscos que a cantora ousou tomar, dando voz a composições de Caetano Veloso e Dinho (Boogarins), além de uma parceria com o duo de música eletrônica Tropkillaz.

 

“Eu aprendi muita coisa”

Tivemos a oportunidade de conversar com Céu sobre esse novo passo em sua já consagrada carreira musical. A conversa envolveu as inspirações para APKÁ! e uma breve discussão sobre o confuso conceito da sigla MPB. Confira abaixo:

Foto: Divulgação

TMDQA!: A gente está sempre em constante mudança, e acredito que a Céu do Tropix não é a mesma Céu deste novo disco. O próprio nome, APKÁ!, que vem de uma das primeiras palavras emitidas pelo seu filho Antônio, evidencia isso. O quanto essas e outras mudanças na sua vida influenciaram no seu trabalho?

Céu: Eu acho que, sendo artista, o maior comprometimento que eu tenho com minha arte é ser honesta. É a coisa mais importante que eu posso transmitir, porque é através dela que conto coisas. A partir do momento em que eu me disponibilizo para transmitir vivências que eu aprendo, eu acho que eu cresço e evoluo como ser humano e como artista também. Meu maior desafio é sempre poder estar aqui como um canal mesmo, para poder transmitir essas novas experiências.

Desde o primeiro disco até hoje, eu aprendi muita coisa. Eu era uma menina de 23 anos que nem sabia que podia compor. Não sabia que tinha voz, enquanto mulher, para fazer o que eu queria fazer. Hoje, eu sou uma mulher que aprendeu a ser quem é, mesmo que continuando a mesma menina. Estou aprendendo muitas coisas sobre o mercado, além de experiências que meu país, meus filhos e meu público me trouxeram. Tudo isso ficou bastante transparente em torno do disco, se formos olhar a caminhada inteira.

TMDQA!: O disco traz uma mistura de passado, presente e futuro em termos estéticos. Resume, de certa forma, a sua trajetória musical e aponta um novo caminho. Como isso foi pensado?

Céu: O que eu sabia é que eu queria fazer um disco que falasse sobre esses tempos de contraste no qual vivemos. Vivemos uma polarização mundial em torno várias questões. O disco tem uma certa referência musical com elementos do punk, do soul…

Essa coisa da minha trajetória é uma coisa que eu não consigo prever racionalmente. Foi um disco feito um dia após o outro, sem uma direção certa como aconteceu com o Tropix. Eu não tinha um conceito na minha cabeça no qual eu almejava chegar. Fui trazendo os elementos que estava a fim de trazer. Quando cheguei no final, eu concordo com você que é um disco que faz uma ponte do meu passado para o meu presente e para o meu futuro. Eu não tenho a menor ideia de como fiz isso (risos).

 

“A atemporalidade das músicas é importante”

TMDQA!: Como você descreveria APKÁ! e a experiência do disco em meio à turbulência social e política que vivemos atualmente?

Céu: Por trás dos meus discos tem muita política. Eu tenho uma forma diferente de falar sobre certos assuntos, sem ser de um jeito panfletário. Até porque, para mim, a atemporalidade das músicas é importante, porque faz com que elas tenham uma durabilidade maior. Quando a gente escuta uma canção que fala sobre algo específico é muito legal e importante. Vira hino particular daquele momento. Mas eu curto dar espaço para as pessoas pensarem sobre as possibilidade de um tema, sabe? Para mim isso é muito importante.

Nesse disco, a música mais direta politicamente é “Forçar o Verão“. Mas, de uma certa maneira, “Sonâmbulo” que é do Vagarosa, de dez anos atrás, fala exatamente a mesma coisa sobre essa funcionalidade meio robótica. “Off (Sad Siri)” fala também disso. São assuntos da mesma natureza, onde estou questionando mil coisas, assim como eu sempre falei de feminismo. Eu gosto de fazer as pessoas pensarem. É a minha maneira de fazer crítica e de elaborar ideias.

 

“Eu tive essa audácia de pedir uma canção para ele”

TMDQA!: O disco tem canções de Caetano Veloso e de Dinho Almeida, do Boogarins. Foi a pedido seu ou deles?

Céu: Eu pedi para o Caetano. Eu tive essa audácia de pedir uma canção para ele (risos). Ele, sempre muito maravilhoso, topou. Foi muito lindo. Eu não pedi nada além de uma música. Não especifiquei tema nem nada, e ele me mandou justamente “Pardo“, que encaixou muito bem no contexto do álbum. Se você prestar atenção na brilhante poesia dele, ela fala sobre um relacionamento homoafetivo masculino. Se eu gosto de dar brecha para as pessoas pensarem, o Caetano dá brecha mesmo! É uma música muito erótica e livre. Sinto falta disso. Acho incrível ser livre e poder contar coisas novas.

A do Dinho também foi encomenda. Acho ele um puta compositor e guitarrista. O desafio que propus a ele foi escrever em inglês. Ele topou também e foi muito legal.

TMDQA!: Enquanto compositora, o que mais difere para você na gravação de uma música sua em relação à música de um outro artista?

Céu: Quando eu fiz o show do Catch A Fire [releituras do clássico disco de Bob Marley & The Wailers] e shows em homenagem à Tropicália, eu cantava músicas que mostravam bastante o meu alcance vocal, e o público respondia muito bem. Eu cantava músicas do Marley que são super altas e para fora. “Vapor Barato“, da Gal, também é muito alta. Eu comecei a pensar, estimulada pelo Pupillo, a escrever pensando mais em minha extensão vocal. Foi um exercício que eu me propus a fazer como compositora, de colocar a voz mais para fora. Tem isso em alguns momentos do disco. Isso foi legal e super divertido de fazer.

TMDQA!: Céu e Tropkillaz. Como se deu essa parceria?

Céu: Eu conheço o Zegon (Zé Gonzales) há bastante tempo. Ele tem uma profunda intimidade com o corpo humano, porque quem faz som para as pessoas dançarem é realmente muito talentoso. O Zé faz muita coisa além de funk. Ele já transitou por muitas coisas. No Popload, rolou a possibilidade de fazermos um show juntos. Depois, tocamos juntos na Virada Cultural, e começamos a estreitar a nossa relação. Eu fui convidada por eles para cantar no prêmio MIAW, da MTV, e depois para um show na França. São universos diferentes, mas estamos curtindo fazer som juntos. Aí chamei eles para produzir “Eye Contact“, fazendo a releitura deles de uma faixa que já estava pronta. O que eles fizeram ficou fantástico, e ajudou a fechar o disco com peso.

TMDQA!: Apesar de inusitado, ficou um resultado ótimo! Como se vocês tivessem mesclado suas qualidades em uma só canção.

Céu: Sim! Eu acho que, no universo da criação, não existe nada mais legal do que se permitir fazer experimentações para chegar a lugares diferentes. “Eye Contact” se tornou um diferente onde eu posso propor um novo sabor na minha obra. É como cozinhar.

 

“O que é ser brasileiro?”

TMDQA!: Existe uma entrevista sua para a Folha em que você declara que o rótulo “MPB” já ficou ultrapassado. Passados mais de 10 anos dessa declaração, sinto que as coisas ficaram ainda mais fluidas, mas o tal termo, mesmo que ultrapassado, ainda permanece sendo bastante utilizado. Como você vê isso? E como você qualificaria a sonoridade de seu novo disco?

Céu: Na verdade, a culpa não é na MPB. A sigla para “Música Popular Brasileira” é perfeita. O problema é o que associam a ela e como isso ficou categorizado. Eu achava que eu era MPB, e até hoje poderia ser. Mas, na verdade, a gente descobriu que existiam cortinas, camadas onde você precisaria flertar com certo tipo de unidade. Eu mesma, mantendo a minha questão brasileira, me questionava sobre colocar um beat ou uma guitarra. É uma conversa que pode seguir até pelo lado do Tropicalismo, pela questão antropofágica. No fim das contas, não sei porque a MPB tem que ter um elemento mais tradicional, mais clássico. Aí aconteceu o que aconteceu. A MPB ficou pequena para para essa geração gigante que está aqui. A internet ajudou a misturar ainda mais, com essa questão do “mundial”. Tem muita coisa ainda que vai acontecer.

Céu
Foto: Marcos Costa

TMDQA!: Se considerarmos o significado da sigla, existe hoje muita coisa que simboliza a MPB.

Céu: Essa é uma discussão super interessante, porque a gente vai até para a questão da nossa mistura, da mestiçagem do Brasil. É aquilo do “O que é ser brasileiro?”. É algo muito complexo que se desdobra em outros mil assuntos. Poderíamos ficar o dia inteiro conversando sobre isso (risos).

TMDQA!: Com o lançamento, está vindo uma nova leva de shows. Como acha que as novas músicas vão contribuir para a narrativa de suas apresentações ao vivo?

Céu: Os shows novos estão muito legais. A gente está se divertindo muito porque, pela primeira vez, temos um cenário, uma coisa mais preparada visualmente. Eu acho que existe uma diferença no disco sim, conforme já conversamos, mas eu sinto que minha minha forma de compor tem uma linha, sabe? As músicas estão envolvidas como um grande trama. Estamos fazendo um mapeamento para ter harmonia no show. Tem bastante coisa do APKÁ!, mas é claro que o show também vai trazer as outras que também são muito importantes para a galera.