Descendents - Hypercaffium Spazzinate
 

Ao final dos anos 70 e início dos anos 80 surgiu na Califórnia uma banda de punk rock chamada Descendents que teve a coragem de misturar as batidas e guitarras rápidas do estilo com letras que falavam sobre “seríssimos” problemas da adolescência, como amor não correspondido, comidas gordurosas e a dificuldade para se tornar um adulto.

Com uma sinceridade ímpar, a banda sempre foi muito honesta nos seus sons e quando lançou o primeiro disco, sem querer, acabou criando um ícone: o vocalista Milo Aukerman resolveu ir para a faculdade, então o álbum foi batizado como Milo Goes To College e tem uma caricatura sua na capa. Esse desenho tornou-se marca registrada do grupo.

Idas e vindas, inclusive, marcaram a história da banda que só não tem mais discos porque Milo foi para a faculdade, o baterista Bill Stevenson para o Black Flag e o baixista Tony Lombardo não queria excursionar, por exemplo.

Ainda assim, o primeiro disco ao lado de I Don’t Wanna Grow Up, segundo álbum da banda lançado em 1985, foram fundamentais para consolidar um som que trazia elementos do pop ao punk rock e consolidava ali um estilo chamado de pop-punk onde inúmeras bandas se influenciaram para criar seus próprios sons.

Blink-182, Green Day, NOFX, Pennywise, Fall Out Boy, The Offspring (que tem seu nome inspirado no Descendents) e Sublime montam apenas um pequeno universo de bandas que foram influenciadas pelo Descendents tanto na sua primeira grande fase quanto alguns anos depois, em 1996, quando o grupo lançou o também excelente Everything Sucks para uma nova geração de punk rockers.

12 anos após o mediano último álbum, Cool To Be You, o Descendents está de volta com Hypercaffium Spazzinate e não é exagero dizer que ele pode ser colocado nas primeiras posições da lista com o que há de melhor na discografia da banda.

Logo nos primeiros acordes da guitarra rasgada de Stephen Egerton (que produziu o álbum ao lado de Bill Stevenson) em “Feel This”, dá pra perceber que a banda está de volta aos grandes dias e os anos só fizeram bem ao grupo.

Agressivo, rápido, com uma linha de baixo impecável e baterias furiosas, a faixa de abertura é um exemplo perfeito do que vem no álbum e fica ainda melhor na trinca com “Victim Of Me” e “On Paper”.

As três faixas juntas não chegam aos 5 minutos e quando você vê já está em “Shameless Hello”, com pop e punk dosados na medida. Aqui a gente tem uma amostra de que as gravações e os produtores do disco tiraram o que há de melhor na voz de Milo. Ele vai do refrão melódico aos gritos como o garoto de 53 anos que é, em apenas um dos pontos altos de um grande disco.

“No Fat Burger” trabalha no que falamos antes sobre como a banda é honesta e brinca com seu próprio dia-a-dia, e faz menção a músicas antigas como “I Like Food”. Se antes os adolescentes adoravam comer porcaria, agora não podem comer “coisas gostosas” porque suas famílias têm histórico de problemas cardíacos.

Mestre em intercalar músicas rápidas com as canções de 3 minutos, o Descendents segue com “Testosterone” antes de “Without Love”, a pérola de Hypercaffium.

Nos anos em que Milo esteve afastado da banda, 3/4 do Descendents gravaram e excursionaram como ALL, que teve alguns vocalistas em sua formação, e aqui fica claro que a prolífica empreitada (são 8 discos de estúdio) teve influência na sonoridade do grupo quando ele voltou à roupagem de Descendents e aos vocais de Milo.

A música que mistura punk rock com amor em uma das letras mais sinceras da carreira do grupo tem traços de “Vida Blue”, lançada pelo ALL no disco Mass Nerder (1998) com Chad Price nos vocais, e dizer que é um dos melhores sons de 2016 é pra lá de sensato.

Com uma produção aguçada que não deixa as características da banda de lado, “Without Love” chega a ter apelo radiofônico e agrada desde o fã exigente até quem está conhecendo a banda pela primeira vez.

“We Got Defeat” é o contraponto com um minuto de duração e toda a energia do punk antes de “Smile”, outra belíssima canção do disco com guitarras que têm toda a cara e jeito de andar de Stephen Egerton. O som, aliás, lembra músicas como “Abundance of Fluff” e “Falling Out”, do disco solo do guitarrista ao lado de 16 outros vocalistas (entre eles Chad Price e Milo), The Seven Degrees of Stephen Egerton, recomendadíssimo.

 

Mais uma sequência com toda pinta de Descendents vem na forma de “Limiter” e “Fighting Myself” antes de “Spineless and Scarlet Red”, com outra performance vocal impecável de Milo.

“Full Circle” lembra os primeiros registros do grupo nos anos 80 e presta uma homenagem a bandas que influenciaram e/ou tocaram junto com o Descendents no início de carreira, e em uma espécie de aceno a “Thank You”, que encerra o disco Everything Sucks lançado há 20 anos, o Descendents encerra seu sétimo disco com “Beyond The Music”.

Com 2 minutos e 23 segundos, guitarras divertidas e um resumo da história do que foi a banda e o que ela é hoje, Milo encerra o álbum dizendo que os integrantes do grupo “encontraram sua família / além da música”.

Diariamente somos bombardeados com pedidos de pessoas por bandas honestas, por guitarras distorcidas, por menos firulas e por atrações que sejam mais do que nomes descolados em um pôster de festival.

Pois bem, o Descendents vem fazendo isso há quase 40 anos e como aconteceu em outras ocasiões, chega a 2016 com mais um ponto alto em uma carreira baseada na diversão, sinceridade e paixão pelo que faz.

O grupo tem alguns erros em sua discografia, como Enjoy!, mas quando acerta, acerta em cheio, e é o caso com mais esse grande álbum, que você deveria correr para ouvir. Bem alto, de preferência.

 

   
 
REVIEW GERAL
Nota
10
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