
Veja o resumo da notícia!
- O novo álbum do Megadeth soa como uma afirmação, sintetizando diversas fases da banda e surpreendendo pela sua energia e criatividade.
- A voz de Dave Mustaine, moldada pelo tempo e desafios, surge cristalina e autêntica, revisitando o passado sem rancor, inclusive com cover do Metallica.
- A trajetória do Megadeth, marcada por 16 álbuns e muitos shows, solidificou-se com a contribuição de diversos músicos e a superação de conflitos.
- O álbum explora diferentes fases da banda, com faixas que resgatam o thrash adolescente e reafirmam a identidade do Megadeth.
- A passagem de Kiko Loureiro pelo Megadeth, sua contribuição e a despedida da banda, culminando em uma turnê final com passagem pelo Brasil.
O último disco do Megadeth, autointitulado e lançado nesta sexta-feira (23), não soa como um adeus, mas sim como uma afirmação. Em vez de um epitáfio pesaroso, a banda entrega riffs cortantes, velocidade e convicção na maior parte do tempo reservando as palavras finais de Dave Mustaine na faixa de encerramento: “Eu cheguei. Eu comandei. Agora, eu desapareço“.
Megadeth – o álbum – sintetiza o que sempre foi a banda senão em todas, em quase todas as fases. Há de Youthanasia a Cryptic Writings, e até da fase moderna e Dystopia. O Megadeth dos anos 1990 e o contemporâneo coexistem sem disputa.
Cada faixa aponta para um momento da história da banda. O álbum é atemporal, recusando despedidas passivas e, mais do que atender expectativas, surpreende como uma entrega devotada ao thrash metal. Não chega a ser um fan service assumido, mas é criativo, e não tão automático quanto muitos estavam esperando.
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Uma voz forjada pelo tempo
Se eu fosse perita do INSS negaria a aposentadoria à Dave Mustaine! Mesmo dizendo que não aguenta mais os rigores da estrada, ele mostrou energia para entregar um disco à altura de sua lenda.
Sua voz é o retrato das areias do tempo. Distante do timbre esganiçado do início da carreira (sempre um caso de ame ou deixe!), o vocal surge hoje, e neste disco, cristalino, controlado e sereno. Autêntico e singular como sempre.
Décadas de ajustes técnicos, evolução dos estúdios de gravação e um câncer de garganta há cerca de seis anos atravessaram e moldaram seu jeito de cantar.
O carma Metallica
O cover de “Ride the Lightning”, do Metallica, era o momento mais aguardado do disco. A composição carrega a assinatura de Mustaine desde a gênese, mesmo que ele nunca tenha gravado um álbum de estúdio com a banda de James Hetfield. Décadas depois, o ruivo revisita essa história sem rancor e chegou a declarar que “ama os caras do Metallica”.
A maturidade fez bem a Dave, de 64 anos, que no início dos anos 80, época do expulsão do Metallica, versava menos sobre um cara que se tornaria um dos maiores homens de negócios da indústria do metal, ambicioso, e que se apresenta de camisa social no palco, e mais sobre um moleque arruaceiro, briguento, inoportuno, encrencado com álcool, drogas e que tinha a mania de apresentar a James e Lars letras sexuais de duplo sentido que os meninos odiavam.
Mas o cover não se perde nas especulações do passado e “Ride the Lightining” ficou bem potente e respeitosa na versão Megadeth. Isso inevitavelmente levanta a pergunta:
como teria sido o Metallica se Dave Mustaine tivesse ficado?
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Quarenta anos de ruído e excelência
De 1985 a 2022, o Megadeth construiu sua discografia entregando ao mundo 16 álbuns. Agora encerra uma trajetória marcada por discos fundamentais, turnês mundiais (li certa vez que teriam feito mais de 2 mil shows na história e as estatísticas corroboram isso!) e uma legião de fãs devotos.
Ao longo do caminho, passaram músicos que ajudaram a moldar sua identidade: os guitarristas Marty Friedman, Chris Broderick, e o inesquecível falecido baterista Nick Menza. Nem sempre sem conflitos, alguns públicos, outros incontornáveis.
Impressiona lembrar que tudo começou com uma dor de cotovelo curtida ao longo de uma viagem de ônibus de volta para casa de um carinha expulso de uma banda que viriam a se tornar reis da música pesada mundial. O resultado foi uma das carreiras mais sólidas e bem-sucedidas do metal.
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Megadeth – o álbum
Faixas como “Let There Be Shred” resgatam a sensação thasher adolescente de descoberta, com refrão esmagador e energia direta. “Arrebento minha guitarra e deixo ela falar alto”, Dave canta! “Tipping Point” resgata riffs noventistas que reafirmam identidade.
“Puppet Parade” conversa com clássicos como “Trust” e tem dificuldade de esconder a aparição ali das antigas “Almost Honest” e “Dread and the Fugitive Mind”. “Obey the Call” dialoga com a era Youthanasia. Cada música ocupa seu lugar — todas fazem sentido dentro do todo. São 11 faixas.
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O capítulo brasileiro do Megadeth
Para o público brasileiro, o Megadeth sempre carregará um significado especial. O guitarrista Kiko Loureiro entrou na banda e com eles entregou Dystopia (2016), ajudou a reconstruir o grupo e permaneceu até The Sick, the Dying… and the Dead! (2022), seu último álbum com o Megadeth.
Técnico, elegante e profundamente respeitoso à identidade da banda, Kiko fez parte do disco que rendeu à banda o Grammy de Melhor Performance de Metal (Dystopia). Depois, The Sick, the Dying… and the Dead! foi atravessado por circunstâncias que iam muito além da música.
Os trabalhos começaram em 2019, mas foram interrompidos pelo diagnóstico de câncer de garganta de Mustaine e pela pandemia de COVID-19. No meio do processo, o baixista David Ellefson saiu da banda após conduta sexual inadequada, e suas linhas de baixo foram regravadas por Steve DiGiorgio, do Testament.
A última grande contribuição de Kiko Loureiro ao Megadeth foi indicar seu substituto, o finlandês Teemu Mäntysaari, que aqui diz “oi e adeus” com palhetadas limpas e técnicas. Teemu e Kiko são os recordistas de composições ao lado de Mustaine, sendo que o novo álbum abre espaço para as contribuições de toda a banda. A despedida chega com Dave, Teemu, Dirk Verbeuren (bateria) e James LoMenzo (baixo) como formação final.
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Cortejo final passará pelo Brasil
O Megadeth vai rodar alguns países em uma turnê de despedida e dá adeus ao público brasileiro em março, em São Paulo. A decisão de encerrar a carreira acompanha o peso dos anos e os problemas de saúde de Dave Mustaine.
Comparações com bandas como Judas Priest e Iron Maiden surgem naturalmente, grupos com o mesmo ou até mais anos de carreira do que Mustaine tem de vida! Cada pessoa conhece seus próprios limites.
O cerimonial começou na quinta, 22 de janeiro, com a estreia do documentário do Megadeth, exibido nos cinemas em um evento mundial.
Eu vi o Megadeth apenas uma vez em São Paulo — e não aproveitei nada. Abriram o show da turnê Reunion do Black Sabbath, no Campo de Marte, em 2013, com Ozzy Osbourne. Foi caótico, inseguro, confuso. Saí jurando que nunca mais pisaria em um show de metal, muito menos esses com 70 mil pessoas em campo aberto!
E vários carinhas com celular preocupados com suas performances digitais que talvez hoje serão capazes de rezar um Pai Nosso para poder ver Mustaine pela última vez. Como eu voltei muitas vezes depois, soube que meu anjo da guarda desistiu de mim! Mas o de Dave Mustaine não. O dele seguiu firme até aqui.
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Velório e cremação de Vic Rattlehead

A imagem que encerra esse ciclo é definitiva. Desenhado pelo artista Blake Armstrong (conhecido como Space Boy Comics), Vic Rattlehead, mascote da banda e observador silencioso de quatro décadas de fúria, aparece na capa de Megadeth, o álbum, como manda o figurino cerimonial fúnebre: de terno e luvas brancas e cravo na lapela do paletó. Metade do corpo em chamas, sendo cremada. A outra metade ainda por cremar e a ser consumida por completo até que se encerre o ultimo show da historia da banda.
O rosto não suplica, não explode. Ele aceita. É frio. Consciente. Final. Não encontrei maiores explicações sobre a composição da capa. Essa é uma leitura minha.
Vic não veste o luto e encarna a despedida como os orientais, cujo branco fala de passagem, de travessia, de algo que já cruzou o limite com aceitação e serenidade. No Ocidente, o preto pertence aos que ficam enlutados; no Oriente, o branco é a cor de quem parte.
Nós vamos vestir preto na despedida do Megadeth, não só por ser nossos uniformes velhos de guerra, mas também meio enlutados, meio celebrando; Vic não. Vic não chora o Megadeth. Vic aceitou, com honra, a quieta certeza de um ciclo completo.
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