
Veja o resumo da notícia!
- O álbum 'Criolo, Amaro e Dino' surgiu de encontros inesperados em Lisboa, impulsionado pela faixa 'Esperança' e a conexão musical entre os artistas.
- A musicalidade de Criolo expande o rap com influências da MPB, jazz e ritmos africanos, refletindo sua trajetória de aprendizado com mestres da música.
- O disco destaca-se pela fluidez e ausência de hierarquia entre os estilos, priorizando a amizade e a liberdade criativa no processo de criação.
- O amor é abordado como projeto de mundo, e a dimensão política se manifesta em faixas como 'Amazônia', que critica a desigualdade social.
- O álbum cria um espaço musical único, unindo referências diversas e celebrando a ancestralidade, enquanto Criolo prepara um retorno ao rap.
Há discos que nascem de planejamento. Outros, de urgência. Criolo, Amaro e Dino pertence a uma terceira categoria: a das obras que parecem acontecer porque precisavam acontecer. Não por estratégia, agenda ou cálculo de carreira, mas por uma espécie de alinhamento invisível, onde um “chega aí” inesperado, um encontro de estúdio, um instante que se recusa a ser apenas instante.
O ponto inicial foi Lisboa. Cidade-arquivo da diáspora africana, lugar onde o passado colonial ainda pulsa no cotidiano, a capital portuguesa funcionou como território simbólico desse cruzamento. Ali, enquanto Criolo e Dino d’Santiago desenvolviam um projeto inédito, o pianista Amaro Freitas apareceu no estúdio. Do encontro improvisado nasceu “Esperança”, faixa que ganhou vida própria e chegou a uma indicação ao Latin Grammy. O que poderia ter sido um episódio isolado se abriu como portal, e dali emergiu um álbum inteiro.
Mais do que uma soma de estilos, o disco constrói um idioma próprio. Rap, jazz contemporâneo, MPB, batuku, morna, beats eletrônicos e cantos ancestrais não aparecem como citações ou colagens, mas como partes orgânicas de uma mesma respiração. É música afro-atlântica no sentido mais profundo do termo: feita de travessias, permanências e reinvenções.
A musicalidade de Criolo
Para entender o que este disco representa, é preciso voltar à figura de Criolo. Um artista que ajudou a deslocar o rap brasileiro de um campo mais fechado para um território expandido, sem nunca romper com sua origem. O movimento nunca foi de negação do hip hop, mas de aprofundamento.
“Antes do rap existir na minha vida, existia a minha mãe cantando samba, cantando Clara Nunes, Elis Regina e Ney Matogrosso”, relembra, em entrevista exclusiva ao TMDQA!. “Então, antes de tudo, existiam dois nordestinos trazendo muita música pra dentro de casa. Quando o rap se apresenta na minha vida, sou impactado e entendo que era possível falar sobre o meu cotidiano.”
Essa fusão inicial entre tradição popular brasileira e a urgência do rap é a base de toda a sua trajetória. De Nó na Orelha para cá, são mais de 15 anos de uma caminhada marcada por deslocamentos conscientes, escuta profunda e generosidade artística.
“Eu recebi muita oportunidade dos grandes mestres e mestras da música brasileira”, diz Criolo, citando aprendizados com nomes como Nelson Sargento, Monarco, Martinho da Vila, Tom Zé e Milton Nascimento. “Essas pessoas acreditaram no coração da minha caneta, que vem do rap.”
Esse caminho, construído “devagar, com suporte, carinho e oportunidade”, é o que torna possível um álbum tão atravessado por vozes, culturas e geografias sem que a identidade do rapper se dilua. Pelo contrário, ela se expande.
Um encontro fluido
Apesar da complexidade sonora, o disco soa leve. Não no sentido de superficialidade, mas de fluidez. Não há rigidez conceitual nem hierarquia entre os elementos. Segundo Criolo, isso se deve ao próprio clima do encontro. “O calor da amizade e a felicidade de estarmos juntos fez com que nada pesasse. Nós nos encontramos, felizes, pra fazer música. A gente foi para o estúdio sem saber o que iríamos fazer.”
Esse desconhecimento inicial é fundamental. É dele que nasce a coesão do álbum. Ao invés de tentar organizar racionalmente referências tão diversas, o trio se deixa conduzir por uma escuta ancestral — quase como se a música soubesse para onde precisava ir antes mesmo deles.
A sofisticação surge não como ornamento, mas como consequência. Dino d’Santiago atua como um “coral ambulante”, desenhando camadas vocais, tons e semitons com precisão emocional. Amaro Freitas transforma o piano em extensão do corpo, costurando ritmos de Pernambuco com o jazz contemporâneo de forma orgânica. Criolo, por sua vez, ancora tudo no concreto da palavra, trazendo o chão para que o voo seja possível.
Amor como linguagem
Um dos deslocamentos mais sutis — e talvez mais profundos — do disco está na forma como Criolo se aproxima do amor. Não do amor romântico convencional, mas de um amor que funciona como projeto de mundo.
“Na minha discografia, eu não tenho uma música romântica, mas tem muita metáfora”, explica. “Nesse disco, eu uso o amor pra falar sobre a liberdade, pra falar de uma construção mais plural, singela e menos desigual. O meu voto de amor não é só romântico, mas para ter dias melhores.”
A presença de Dino e Amaro, segundo ele, “abriu as comportas vibracionais”. O álbum se torna, então, um espaço onde afetos circulam livremente.
Essa dimensão política reaparece com força em “Amazônia”, faixa que dialoga diretamente com “Chuva Ácida”, escrita ainda nos anos 1990. Ao revisitá-la agora, Criolo não busca nostalgia, mas fricção com o presente. “A gente sofre muito quando vê um ponto turístico na Europa pegando fogo, mas quando vira um bote de irmãos africanos tentando atravessar o oceano, as pessoas tiram sarro. As pessoas acendem vela de acordo com o CEP e a cor.”
Há ironia, sarcasmo e uma lucidez desconcertante na interpretação. O sorriso com que ele canta o refrão não suaviza a denúncia — a torna ainda mais incômoda. O groove jazzy, que remete a A Tribe Called Quest, Azymuth e Karriem Riggins, funciona como contraste: o corpo balança enquanto a mensagem corta fundo.
Um disco que cria lugar
Gravado entre Rio de Janeiro, Recife, São Paulo e Lisboa, o álbum soa como se tivesse nascido de um único território. Um país imaginário, feito de memória coletiva, ancestralidade compartilhada e desejo de futuro. Sons de Cabo Verde emergem não como exotismo, mas como eixo estrutural. Canções como “Seka” celebram a abundância como gesto político, evocando o batuku — ritmo forjado na resistência das mulheres cabo-verdianas — como símbolo de sobrevivência e alegria.
Ao final, Criolo, Amaro e Dino não reivindica lugar no mapa da música. Ele cria um. Um espaço onde o erudito e o popular, o sofisticado e o comunitário, o passado e o agora coexistem sem hierarquia. Um lembrete de que a música negra não é um gênero, mas uma conversa permanente sobre liberdade.
Esse gesto de expansão, no entanto, não significa afastamento das origens. Pelo contrário. Em meio a esse disco coletivo e atravessado por múltiplas linguagens, Criolo também prepara um movimento de retorno ao núcleo mais cru de sua formação artística. Aos 50 anos, ele revela estar trabalhando em um novo álbum inteiramente de rap, direto, sem concessões, reafirmando a potência da palavra como instrumento de enfrentamento.
“Eu achei que nunca mais escreveria um rap”, confessa, ao lembrar do impacto de conseguir, duas décadas depois, realizar um projeto inteiro nesse formato. Um disco que dialoga com o espírito de Ainda Há Tempo, não por nostalgia, mas por urgência: porque, como ele mesmo diz, ainda não está bom pra todo mundo. E enquanto não estiver, a chama segue acesa. “Eu achei que não seria mais capaz, mas estou fazendo. Vai ser um rap cru, um disco só de rap, sem cortesia e concessões.”
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