François Pachet: IA música
Foto: Reprodução / YouTube

Veja o resumo da notícia!

  • A inteligência artificial impacta a música como promessa, ameaça ou ferramenta, dependendo do contexto e da perspectiva do observador.
  • A superabundância cultural, com milhões de faixas acessíveis, transformou a criação e o consumo de música drasticamente.
  • A IA resolve problemas técnicos na música, mas não compreende o que torna uma canção interessante ou ressonante emocionalmente.
  • Ouvir música é caótico, com reações cerebrais a eventos específicos, exigindo atrito e envolvimento para manter o ouvinte.
  • O efeito Ikea demonstra que o envolvimento pessoal na criação musical gera identidade e memória, ausentes na produção automatizada.

Atuar ao mesmo tempo em tecnologia e em movimentos de economia criativa faz com que eu acompanhe o impacto da inteligência artificial por dois caminhos que se cruzam o tempo todo. No mercado da música, a IA aparece como promessa, ameaça, ferramenta ou modismo, dependendo do dia. Por isso, quando vi a palestra recente do pesquisador francês François Pachet, um dos nomes mais sólidos do mundo em IA aplicada à música, considerei um dos conteúdos mais interessantes dos últimos tempos. Acompanho seus trabalhos há alguns anos e sempre me chamou atenção sua tentativa de aproximar ciência e criação. Desta vez, ele foi direto ao ponto.


Pachet começa lembrando algo que já percebemos na prática, mas raramente paramos para refletir. Pela primeira vez na história, vivemos uma superabundância cultural. Quando ele era jovem, ter cem discos era um privilégio. Hoje qualquer pessoa carrega no bolso cem milhões de faixas e, todos os dias, outras cem mil entram nas plataformas. Isso mudou radicalmente a maneira como criamos e consumimos música e já seria um desafio monumental mesmo antes da IA entrar no jogo.


O ponto central dele é simples. A IA é excelente para resolver problemas claros. Separar instrumentos em uma gravação. Recriar uma voz específica. Imitar o estilo de um compositor. Esses desafios eram considerados quase impossíveis há uma década, mas agora estão praticamente resolvidos. O que ela não consegue fazer é justamente o que parece mais óbvio para qualquer pessoa que ama música. A IA não sabe o que torna uma canção interessante. Não sabe medir emoção ou intenção. Não sabe por que uma sequência de acordes funciona e outra não. Ela gera música, mas não entende música.


Isso fica evidente quando Pachet mostra os resultados dos modelos atuais. Eles impressionam na superfície. Timbres bem resolvidos, arranjos verossímeis, vozes convincentes. Mas falta algo. Falta estrutura interna. Falta métrica. Falta pulso. Falta aquele detalhe que faz alguém bater o pé no chão sem perceber. A inteligência artificial monta colagens sofisticadas, mas não conecta significado.

A Experiência Caótica da Música e a Inteligência Artificial

E então vem a parte mais reveladora. Ouvir música é uma experiência caótica. Estudos recentes mostram algo fascinante. Milhões de pessoas no mundo pulam a mesma música no mesmo ponto. Em países, culturas e idades diferentes, o momento em que elas abandonam a faixa costuma ser idêntico. Isso acontece porque o cérebro reage a eventos específicos, como a entrada do vocal, a expectativa do refrão ou um solo inesperado. Para que uma música funcione, ela precisa gerar atrito e, ao mesmo tempo, manter o ouvinte. E isso ainda está muito longe de virar métrica confiável.

O Efeito Ikea e a Autoria na Criação Musical

Quando fala sobre criação, Pachet apresenta um conceito simples que ajuda a entender por que a IA ainda não substitui o artista. Ele cita o que a psicologia chama de efeito Ikea, baseado na rede sueca de móveis conhecida por vender produtos que o próprio cliente monta. A ideia é que valorizamos mais aquilo em que colocamos algum esforço pessoal, mesmo que seja pequeno. Montar uma mesa barata faz com que ela pareça mais nossa do que seria se viesse pronta. Na música, acontece o mesmo. Quando um artista se envolve no processo, mesmo que de forma sutil, a obra carrega sua identidade. Quando ele entrega tudo para a máquina e apenas aperta um botão, perde esse vínculo. Sem envolvimento emocional, não existe sensação de autoria, e sem autoria não existe memória.


No fim das contas, a mensagem é clara. A IA já mudou muita coisa, mas ainda não toca na essência. Ela acelera processos, sugere caminhos e amplia possibilidades. Mas quem define intenção, direção e significado continua sendo o artista. A tecnologia faz música. Só nós sabemos por que gostamos dela.

Abaixo, a palestra de François Pachet, que vale a pena conferir:

Carlos Henrique Vilela

Cofundador e diretor de programação do HackTown e co-ceo da Leucotron Tech. Atua na interseção entre música, tecnologia, antropologia urbana e design de experiências, explorando como cidades, comportamentos e sistemas culturais influenciam inovação, criatividade e novos modelos de futuro.

Cofundador e diretor de programação do HackTown e co-ceo da Leucotron Tech. Atua na interseção entre música, tecnologia, antropologia urbana e design de experiências, explorando como cidades, comportamentos e sistemas culturais influenciam inovação, criatividade e novos modelos de futuro.