Capa do álbum “O Sol Também Chora”, do artista Borges
Capa do álbum “O Sol Também Chora”, do artista Borges

Se a cena do rap brasileiro fosse um imenso mural de grafite em constante mutação, Borges passou as últimas temporadas sendo o artista das cores vibrantes e dos traços de ouro – o rosto que estampou a Times Square com a estética inconfundível do luxo e da ascensão rápida. Mas, em O Sol Também Chora – lançado nas plataformas na última quarta-feira (28) -, ele decide que o spray dourado não é mais suficiente; o cria da Pavuna deixou as latas de tinta de lado para esculpir um monumento em pedra e suor. A espera pelo disco foi o período de incubação de um artista que percebeu que, para ser eterno, não basta brilhar – é preciso queimar com propósito.

A primeira coisa que atravessa o ouvinte não é um grave de 808, mas sim, o clima e atmosfera do álbum. A capa e a identidade visual do projeto funcionam como uma bússola cromática: o marrom da terra ancestral, o vermelho do sangue que pulsa no asfalto e o amarelo-alaranjado de uma fé que não dobra os joelhos.

É um projeto que soa como um entardecer no Viaduto de Madureira: onde o calor do dia (a ostentação) encontra a sombra reflexiva da noite (a consciência).

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O TMDQA! ouviu o disco, e te conta a respeito a seguir. Vamos lá?

A Alquimia entre o Caos e o Culto

Musicalmente, O Sol Também Chora é uma sessão de descarrego lírico. Borges caminha por uma linha tênue, tentando – e quase sempre entregando – a fusão entre a agressividade das ruas e a elegância de quem “estudou o rap inteiro”. Em “Gueto Gospel”, ele despe a armadura e confessa que muito do que rimou até aqui era uma “ficção” alimentada pela lei do cifrão. É um movimento de uma honestidade desconcertante para quem comanda as paradas de sucesso: ele não está apenas mudando o flow, está pedindo perdão ao seu “eu” do passado para construir um futuro mais sólido.

O disco atinge seu estado de graça nas conexões. BK em “Rei da Noite” não é apenas um convidado; é o espelho onde Borges enxerga a própria maturidade. A faixa é um diálogo de alto nível sobre ocupar espaços sem perder a essência. Já em “Vença”, com Emicida, o álbum ganha contornos de evento histórico – ver o maior cronista social do rap brasileiro homenagear a “nova safra” do rap nacional é o xeque-mate necessário para silenciar quem duvidava dessa transição.

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Borges: O astro que aceita as sombras

O amadurecimento aqui é o que dá liga às 12 faixas. Se antes Borges rimava sobre a vista da cobertura, agora ele rima sobre o que se vê quando se olha para baixo, para as raízes. Em “Seja Como o Sol”, ele abraça a metáfora do título: o sucesso é um astro que ilumina, mas que também exige o sacrifício de chorar luz.

As participações de Teto, Duquesa e Ryu, The Runner garantem que o disco não se perca em um saudosismo precoce, mantendo o pé no trap e no experimentalismo que a nova geração exige. É uma curadoria fina, que transforma o álbum em um laboratório de sons e vivências pretas.

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Um grito de liberdade ou um novo figurino?

O Sol Também Chora não é um disco que se entrega na primeira audição – ele é denso, por vezes amargo, e carrega o peso de quem está reaprendendo a falar. Há momentos em que as referências sociais parecem novas demais na boca de quem falava de “Iphone Branco“, mas é justamente nessa “imperfeição” da jornada que reside a beleza do álbum.

Borges não voltou para ser o mesmo fenômeno de views; ele voltou para ser um pilar. Ao lançar o trabalho gratuitamente em Madureira, o berço da resistência, ele deu o recado: o sol pode até chorar, mas ele nunca deixa de guiar quem sabe de onde veio.

É um álbum de assimilação lenta, visceral e indispensável para entender os novos rumos do rap nacional.

★★★★

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