
Se o rock brasileiro recente precisasse de um gráfico de sobrevivência, a Scalene seria a linha que se recusa a ser reta. Após um hiato que serviu como respiro necessário e uma turnê de dez anos do emblemático Éter que arrastou multidões saudosas em 2025, o trio brasiliense – formado por Gustavo Bertoni, Tomás Bertoni e Lucas Furtado – prova que saber olhar para trás é o segredo para saltar adiante.
Mas não se engane: o grupo que fincou bandeira no mainstream em tempos passados não retornou para viver apenas de glórias passadas. Entre a densidade soturna de “Quimera” e o brado visceral de “Peguei Ar”, a Scalene agora opera em um novo ecossistema. Com o lançamento do Clube Scalene e da plataforma Superfans, a banda tomou as rédeas da própria narrativa, trocando a ditadura dos algoritmos pelo diálogo direto com quem realmente importa: o fã.
Agora, o destino é o Lollapalooza Brasil 2026 – onde tocam pela terceira vez no Autódromo de Interlagos. Escalada para a sexta-feira, 20 de março, a banda divide o palco com gigantes como Deftones e Interpol, apresentando-se não apenas como uma referência do rock nacional, mas como uma unidade criativa em sua melhor forma – e com o astral mais leve do que nunca.
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Conversamos com Gustavo e Tomás sobre o desafio de traduzir a introspecção de estúdio para a multidão de Interlagos, a autonomia de ter uma base de dados própria e a construção dessa “quimera” sonora que continua a desafiar os limites do gênero. Confira abaixo!
TMDQA! Entrevista – Scalene
TMDQA!: Gustavo, Tomás, muitíssimo obrigado por nos receber! É sempre um prazer conversar com vocês. A Scalene encerrou a turnê de 10 anos do Éter em dezembro, na Casa Rockambole, e já pisam no Lolla em março. Como é transitar desse show de “celebração do passado” para um palco de festival que já carrega essa energia de futuro? O setlist do Lolla será uma espécie de “Éter 2.0” ou o foco já é essa crueza post-hardcore de “Peguei Ar”?
Gustavo Bertoni: Ótima pergunta, hein? [risos] Acho que estamos exatamente nesse momento de fazer a transição mental. A turnê do Éter foi muito específica; foi nossa primeira vez revisitando um álbum na íntegra. Do disco original, de 12 músicas, a gente costumava tocar apenas umas quatro ou cinco nos shows normais, então foi muito maneiro resgatar canções que não estávamos acostumados a tocar!
Tinha aquela sensação de nostalgia, mas agora o foco é apontar para o futuro. Vamos montar um show que é uma mistura das músicas que a galera mais conhece com as que a gente mais curte tocar. Acho que, chegando ao nosso terceiro Lollapalooza, estamos cada vez mais confortáveis com a ideia de que o mais importante é a gente se divertir.
Em 2015, no primeiro, parecia que tínhamos que provar mil coisas, em 2019 estávamos no auge e precisávamos confirmar certas expectativas.
Agora, queremos colocar ênfase na nossa diversão para que isso transpareça, sem necessariamente preservar uma narrativa rígida, sabe? O repertório será diversificado e focado no que funciona ao vivo – isso acaba apontando para essa crueza do post-hardcore, para umas baladas, e etc. Nosso último disco, Labirinto, era mais eletrônico, com trip-hop, mas agora estamos motivados por guitarras e riffs de novo.
TMDQA!: Massa! Uma das coisas mais interessantes dessa volta do grupo é a criação do Clube Scalene. Acabei lendo uma entrevista onde o Tomás e o Igor (manager) foram entrevistados, e vocês comentaram que a base de fãs os surpreenderam ao votar em uma música acústica que vocês não esperavam em uma situação específica. Vocês pretendem usar a plataforma Superfans para deixar os fãs moldarem algo no show do Lolla? Veremos uma “escolha da comunidade” ao vivo no palco?
Tomás Bertoni: Boa pergunta! Já estamos fazendo algumas brincadeiras no Clube usando o Lolla como tema. A ideia de uma votação para ajudar a fechar o setlist talvez role, mas, como o Gustavo disse, é um show de apenas uma hora e nossa discografia já é longa. Não é fácil montar esse setlist, então, se precisarmos de ajuda para decidir, com certeza consultaremos os fãs via Clube!
TMDQA!: E vocês irão dividir o dia com Deftones e Interpol, nomes fortes. Vocês já citaram influências como Jeff Buckley e Thrice na nossa última conversa, mas sei que também são fãs de atrações deste festival. Como é tocar com grupos que são referências para vocês? E tem algum peso saber quem toca antes ou depois?
Gustavo: O Deftones é uma banda que andou com a gente desde cedo! Tenho uma memória específica de quando tínhamos uns 18 anos, nos Estados Unidos, e ouvimos “Diamond Eyes” na rádio. Foi ali que eles me pegaram – a dinâmica entre o calmo e o caótico, o pesado e o atmosférico, é algo que adoramos. Eles são muito autênticos e é inspirador tocar no mesmo dia que eles.
Ah, e tem o DJ Diesel (Shaq)! Como fã de basquete, assistir ao set dele vai ser muito divertido [risos].
Tomás: O Turnstile toca no domingo, mas também é uma banda que nos inspira além da música. É uma referência conceitual de como o artista se apresenta e encara a arte. Eles inovam e mantêm o hardcore contemporâneo; isso é super inspirador.
Nem sempre a influência é musical direta, mas sim na proposta e na postura da banda.
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TMDQA!: Aproveitando o gancho: quais shows vocês estão mais ansiosos para assistir como público?
Tomás: Eu tô muito curioso para ver a Doechii! Já vi vídeos e parece ser um showzaço. Também quero ver Deftones, claro.
Em festival, o legal é circular e se colocar na posição de ser surpreendido por algo que você não esperava que fosse te impactar. Faz tempo que não tocamos em festivais assim porque estávamos parados, então estou empolgado com essa vibe. Como tocamos na sexta, ficaremos livres o resto do final de semana para curtir – e isso é ótimo! [risos]
TMDQA!: “Quimera” foi uma demo de 2015 retrabalhada com o toque soturno de Labirinto. No palco do Lolla, que é um ambiente aberto e ensolarado – dependendo do clima, como vocês projetam essa sonoridade mais densa e introspectiva?
Gustavo: Vai dar sol, mas não vai ser um sol “solar” [risos]. Acho que tem muito espaço para a densidade no festival; o próprio line-up tem várias bandas densas. A galera hoje está mais aberta a entender a proposta do artista. Não acho que seja necessário adaptar o show para ser “ensolarado”, a ideia é apresentar o que for mais potente e sincero para a banda. Quem quiser entender e colar junto, vai colar.
Tomás: Pois é, a gente não tem muitos sons solares, no fim das contas. Talvez “Entrelaços“, para dar aquela finalizada [risos].
TMDQA!: Gustavo, você mencionou anteriormente um projeto em desenvolvimento na linha do Labirinto, com uma nova camada narrativa. O show do Lolla trará algum spoiler visual ou pílula desse novo universo, ou ele segue trancado em segredo?
Gustavo: Porra, bicho…
TMDQA!: Em minha defesa, foi você quem me disse sobre!
Gustavo: Eu sei! [risos] Por nós, já tocaríamos coisas novas, mas existem muitas deadlines e coisas que fogem do nosso controle. O projeto está rolando e está muito legal, mas acho que não vai dar tempo de apresentar nada no Lolla, não… O Tomás é o cara do planejamento, ele quem sabe responder!
Tomás: Acho que não vai dar tempo, mas a ideia de soltar uma música inédita está sempre na mente… Por enquanto, vamos aguardar um pouco mais.
TMDQA!: Para finalizar: após o hiato e esse retorno, se vocês tivessem que definir a “Quimera” que é o Scalene hoje, prestes a subir no palco de um dos maiores festivais do país, qual seria a cabeça, o corpo e a cauda dessa criatura?
Tomás: Caralho, essa pegou a gente desprevenido! Acho que tocar em um evento desse tamanho pela terceira vez nos faz lembrar de quem éramos em cada edição. O festival acaba definindo muito nossas vidas nos meses em torno dele. Acho que a definição é se deixar aberto para que essa “quimera” se forme justamente durante o show, sem tentar controlar ou definir tudo na preparação. Há um espaço para a descoberta no palco.
Gustavo: Complementando o que o Tomás disse, quando você chega aos 15 ou 16 anos de banda, a palavra “resiliência” começa a pintar com mais força. Antes era muito sobre expansão e exploração – e sempre será -, mas hoje a nossa assinatura e a nossa expressão estão mais sólidas. Em tempos de “hashtagização” da música, onde se busca emular sons para seguir tendências de fast fashion, nós nos sentimos veteranos. Estamos abertos ao que acontece, mas tranquilos e resilientes na nossa própria identidade. A “quimera” do Scalene hoje é isso: maturidade e confiança na nossa assinatura.
TMDQA!: Caras, respostas maravilhosas. Muitíssimo obrigado pelo carinho que vocês tem conosco, foi um ótimo papo!
Gustavo: Pô, prazer velho! Obrigado vocês!
Tomás: Valeu demais, viu? Nos vemos em breve!
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Scalene no Lollapalooza Brasil
Assim como Balu Brigada, Varanda, The Warning e muitos outros nomes, a Scalene compõe o line do maior festival do país! O Lollapalooza Brasil toma conta do Autódromo de Interlagos nos dias 20 a 22 de março, e você pode garantir seus ingressos no site da Ticketmaster Brasil!
Somos parceiros editoriais oficiais do evento, e com uma cobertura ampla, seja aqui em nosso site ou nas redes sociais, vocês não perdem um segundo da experiência do #LollaBR.
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