
Após os limites que demarcam a linha do território da capital, a vida é completamente diferente. A arte é feita em meio aos obstáculos que impedem o incentivo cultural, principalmente aqueles que querem trabalhar com as melodias musicais.
Por vezes, o nascimento destes artistas é feito através de espaços diferentes do comum. No caso do cantor Lucas Cupertino, de São Miguel dos Campos (AL), a igreja foi o espaço que o desenvolveu enquanto músico. Com 7 anos de carreira independente, o compositor se tornou um dos nomes mais promissores dentro da cena musical alagoana, principalmente de municípios para além da capital. As suas faixas – assim como a cidade natal onde morava – ultrapassam as rotulações direcionadas para um nicho MPB, lançando canções em gêneros como forró, xote e trap.
Em celebração há quase uma década de estrada, o artista anunciou a mini turnê “Estações”, que conta com uma participação ativa do público, o qual é colocado em um espaço de proximidade e intimismo com o músico.
Para o Tenho Mais Discos Que Amigos! Lucas fala sobre o seu processo criativo, destaca a vivência interiorana enquanto musicista e dá mais detalhes sobre o novo espetáculo em circulação.
A música (e vida) no interior
Em meio à caminhada do cantor, a religião foi um dos pontos mais importantes para a sua carreira. Não apenas pelo lado divino e da crença, mas também pela abertura do espaço para o desenvolvimento artístico. Assim como Cupertino, outros artistas também tiveram uma jornada musical dentro de instituições religiosas, por exemplo, Anitta, Beyoncé e Luan Santana.
Sobre a conexão entre a música e a religião, Lucas dissertou sobre a importância da espiritualidade com os cantores e, sem a comunidade de fé, ele não seria o músico que se tornou.
“É muito interessante perceber que todos [os artistas] partem de uma experiência com a espiritualidade muito próxima. Em meu caso, foi na igreja que consegui um lugar para ensaiar, compor e desenvolver meu dom. Se eu não tivesse tido nenhuma relação com a minha comunidade de fé, eu não seria quem eu me tornei. eu poderia ser um cantador de alguma coisa, mas não me formaria enquanto artista. Não haveria espaço fora dessa relação, pelo menos na minha experiência”, relatou.
Entretanto, mesmo com esse apoio da comunidade, ainda havia dificuldades para o início de carreira. “Ser um artista interiorano é um desafio e tanto pra poder fechar alguns projetos que não sejam no meu estado. Então, vez ou outra, ainda preciso assumir uma cidadania metropolitana para poder atuar e, claro, posteriormente me apresentar como um alguém da minha cena local”, destaca.
Da guitarra ao violão

Ao dar o primeiro passo na carreira musical, Lucas Cupertino começou a tocar guitarra na instituição religiosa em que convivia. Porém, devido ao processo de composição, logo migrou para o som leve e calmo do violão. “Todas as camadas das canções precisam passar por ele. Eu considero um instrumento seguro para o que proponho entregar”, fala.
A partir dessa mudança, o cantor lançou canções nos mais variados tipos de produções. Dentre os destaques, o EP Junho, projeto de forró e xote em parceria com a Banda Marília Gabriela, Elias Neto e entre outros. Ao falar sobre sua versatilidade, o artista conta que continua trabalhando em estudar os gêneros musicais.
“Eu gosto de pensar que a música é o espaço perfeito para criar e interagir com o que vier do próprio processo de composição. então, atualmente, não vislumbro nada de tão diferente do que já fiz. Mas, nos últimos anos, a cena que mais me chama atenção é a “nova mpb”, devido a capacidade de mescla de sons e ideias, e me convida a ser mais ousado nos arranjos das minhas próprias músicas”, conta.
Em sua última parceria, “Fim de Tarde”, com o rapper miguelense Wellz; Lucas encara a ousadia dos próprios arranjos e parte para uma nova empreitada: os sintetizadores do trap. Contudo, mesmo estando em um lugar fora da zona de conforto, o músico não perdeu a essência da própria escrita.
“Foi um projeto bem diferente, mas havia a possibilidade de criar algo que eu nunca tinha feito, aproveitando também para expandir a cena da minha cidade”, disse.
Em dezembro de 2025, o artista lançou a faixa “Canção para o Tempo”, a qual indaga sobre a passagem temporal durante os 30 anos de vida do artista. Além disso, a recente música antecede um dos anúncios mais importantes para quase uma década de carreira do cantor: a mini turnê “Estações”.
Estações

Normalmente, em um palco, a única estrela que precisa brilhar é quem está com o microfone nas mãos. Porém, em “Estações”, o público está mais próximo do que nunca. Pensado para ser feito em locais pequenos, o evento é intimista na dose certa; Lucas Cupertino está sentado ao redor da plateia, apenas com voz e violão, dando a sensação que, naquele lugar, é um momento de atenção e escuta.
O objetivo era construir um lugar de oportunidade, principalmente em regiões onde ela é escassa. Inclusive, quem acompanhou de longe, achou que eu estava sendo convidado pelos lugares que eu fui tocar, mas, na verdade, estávamos fazendo permutas, para o valor da passagem, da hospedagem e da alimentação. Tudo foi muito colaborativo.”
Um dos momentos mais importantes durante as performances foi marcado na cidade de Penedo (AL), onde os cantores locais Allê O Santo e Miguel Gama fizeram uma participação durante as sessões do show e movimentaram uma parte da população para a região.
Em um dos relatos, Lucas Cupertino conta que a imagem era bela: diversas senhoras estavam levando cadeiras, cangas, mesas e bancos para prestigiarem o espetáculo.
“Outra história muito especial foi quando eu cheguei durante a tarde na cidade e fui comer em um estabelecimento junto com Miguel [Gama]. No local, conseguimos dois bancos para uma apresentação de noite, tudo colaborativo mesmo! No mesmo dia, voltei e perguntei se havia café para comprar, contudo, disseram que não vendiam. Então, simplesmente, a moça perguntou: ‘Você quer que eu faça um pra você?’. Aquilo ganhou o amante do café, mas também o artista estrangeiro, que foi muito bem tratado e muito bem recebido.”
Outro acontecimento marcante da mini turnê foi o retorno do cantor à sua cidade natal, São Miguel dos Campos; a qual traçou um novo ponto para a história que o artista construiu: Lucas se tornou inspiração para uma nova geração de artistas miguelenses.
“Havia artistas perguntando como eu fiz esse processo, quais os passos que eu dei pra executar o projeto, e foi muito legal saber que de alguma forma eu poderia colaborar com a ascensão de mais outros projetos assim, alimentando e fortalecendo a cena musical do meu município.”
As apresentações de “Estações” se encerram no dia 30 de janeiro na Casa de Cultura, em São Miguel dos Campos.