MALAMMORE
Foto: Beatriz Silvestre

Veja o resumo da notícia!

  • O álbum de estreia de Malammore, 'Aurora', apresenta densidade e urgência, explorando temas de memória, identidade racial e pertencimento.
  • Sandro Feliciano, o artista por trás de Malammore, integra teatro, literatura e música em uma obra de caráter narrativo e autobiográfico.
  • A experiência de adoção e a busca pelas origens são eixos centrais do disco, abordando a sensação de deslocamento e a reconstrução da identidade.
  • O álbum reflete sobre a experiência de ser um jovem negro em Portugal, ressignificando o conceito de 'buraco negro' e preenchendo vazios de memória.
  • 'Aurora' encerra com uma meditação sobre morte e renascimento, simbolizando a possibilidade de reconstrução após conflitos identitários.

Discos de estreia costumam funcionar como apresentações tímidas, ensaios de linguagem ou tentativas de encontrar um lugar dentro de uma cena já estabelecida. Aurora, primeiro álbum de Malammore, segue o caminho inverso.

Longe de soar como um cartão de visitas, o trabalho chega com a densidade de quem já tem muito a dizer e, principalmente, com a urgência de quem escreve para existir. Mais do que introduzir um novo nome da música portuguesa, o projeto se impõe como um relato autobiográfico estruturado em forma de canções, no qual memória, identidade racial, pertencimento e formação artística se entrelaçam em uma narrativa pessoal que é, ao mesmo tempo, política.

Malammore é o nome artístico de Sandro Feliciano, cantor, compositor e produtor nascido em Lisboa em 2005. Sua trajetória antecede a música. Antes de qualquer beat, vieram o teatro e a literatura. Ainda criança, integrou grupos dramáticos e seguiu formação profissional como ator, passando por escolas de teatro e chegando a palcos centrais da cena portuguesa, como o Teatro Nacional D. Maria II.

Paralelamente, cultivava o hábito da escrita, primeiro em poemas e textos curtos influenciados por autores como Fernando Pessoa, depois em reflexões mais íntimas, registradas em cadernos que funcionavam como ferramentas de autoconhecimento. A música surgiria mais tarde, quase como uma consequência natural desse acúmulo de palavras.

O nascimento de Malammore

Essa formação híbrida ajuda a entender por que Aurora soa menos como um disco tradicional de rap e mais como uma obra de caráter narrativo. O trabalho flerta com o spoken word, com a interpretação teatral e com a declamação poética, privilegiando a força do texto e da imagem acima de fórmulas radiofônicas.

Em diversos momentos, as faixas se aproximam de monólogos, conduzidos por uma voz que parece contar histórias ao pé do ouvido, sem pressa de se adequar a refrões ou estruturas convencionais. O resultado é um álbum que se sustenta tanto pela musicalidade quanto pela dramaturgia.

A base conceitual do disco está diretamente ligada à biografia do artista. Sandro viveu os primeiros anos sob tutela do Estado português até ser adotado, em 2008 — marco que ele próprio descreve como uma espécie de segundo nascimento. A experiência de crescer sem acesso às próprias origens, reconstruindo memórias e tentando compreender a própria identidade, atravessa boa parte das composições.

Em Aurora, a adoção não aparece apenas como dado biográfico, mas como eixo psicológico: a sensação de deslocamento, as lacunas na história pessoal e a busca constante por pertencimento se transformam em matéria-prima lírica.

A nova Aurora

Esse percurso individual ganha uma camada mais ampla quando atravessado pela questão racial. Ao longo do disco, Malammore reflete sobre o que significa ser um jovem negro em Portugal, país que ainda lida de forma ambígua com sua herança colonial e com as experiências contemporâneas da diáspora africana.

Uma das imagens centrais do álbum parte da ressignificação do “buraco negro”, invertido para a ideia de um “buraco branco do mundo” — metáfora para um sistema que apaga identidades e normaliza o silenciamento de determinadas histórias. Ao registrar sua vivência em primeira pessoa, o artista tenta justamente fazer o movimento contrário: preencher esse vazio com memória, presença e discurso.

Musicalmente, Aurora costura diferentes referências sem se prender a rótulos. Há bases de boom bap, passagens de trap, momentos mais minimalistas e trechos que se apoiam quase exclusivamente na palavra falada.

A produção, assinada por No Icon, privilegia a atmosfera e deixa espaço para a voz conduzir a narrativa, criando um ambiente que reforça o caráter introspectivo do álbum. As influências políticas e culturais — de Malcolm X a Angela Davis, de Muhammad Ali a Fela Kuti — aparecem menos como citações diretas e mais como postura estética, ajudando a sustentar o tom crítico que atravessa as faixas.

Renascimento

Algumas músicas funcionam como capítulos evidentes dessa autobiografia sonora. Em “2008”, o artista revisita o processo de adoção e as dúvidas que acompanham alguém que cresce sem respostas claras sobre suas origens, abordando memórias fragmentadas e reconstruções inconscientes.

“Reflexo” amplia o olhar para o coletivo, transformando o próprio corpo em espelho da sociedade e questionando instituições que deveriam acolher, mas muitas vezes operam como mecanismos de contenção de identidade. Já “Não Quero Que Chores” assume um tom mais afetivo ao homenagear os pais adotivos, reconhecendo o esforço de proteção e formação enquanto o mundo externo se revela cada vez mais hostil.

A faixa-título, “Aurora”, encerra o percurso com uma meditação sobre morte e renascimento. Inspirada na primeira experiência do artista com a perda, a música encara o luto não apenas como fim, mas como transformação. A imagem do amanhecer funciona como síntese do projeto: depois de atravessar memórias difíceis, conflitos identitários e questionamentos políticos, o disco aponta para a possibilidade de reconstrução.

Nesse sentido, Aurora ultrapassa a ideia de estreia e se apresenta como uma declaração de existência. Ao transformar a própria trajetória em linguagem artística, Malammore constrói um trabalho que dialoga com questões íntimas sem perder a dimensão coletiva, conectando experiências pessoais a debates mais amplos sobre raça, pertencimento e cultura.

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