
Se o mundo do hip-hop fosse um tabuleiro de xadrez, A$AP Rocky passou os últimos oito anos sendo a peça que todo mundo via no canto da mesa – elegantemente vestida, cercada de flashes e de braços dados com Rihanna – mas que ninguém via se mover. A espera por Don’t Be Dumb tornou-se um compilado de atrasos, memes e anseio dos fãs que finalmente se materializou nesta sexta-feira (16). A boa notícia? “Pretty Flacko” não estava apenas descansando; ele estava amadurecendo o caos.
A primeira coisa que salta aos olhos não é um beat, mas o traço. A capa, assinada por ninguém menos que Tim Burton, é o portal perfeito para este disco. Com influências do expressionismo alemão e dos alter egos distorcidos de Rocky, a arte visual prepara o ouvinte para o que o próprio artista descreveu como uma “obra-prima cinematográfica”. É um álbum que soa como um filme de terror gótico gravado em uma mansão no Harlem, onde o luxo e a paranoia dividem o mesmo espaço.
O TMDQA! ouviu o projeto, e te conta sobre a seguir. Vamos lá?
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Entre o Passado e o Futuro Experimental
Musicalmente, Don’t Be Dumb é uma corda bamba. Rocky tenta (e na maioria das vezes consegue) equilibrar a urgência suja de sua mixtape de 2011, LIVE.LOVE.A$AP, com o experimentalismo divisivo de TESTING (2018).
Faixas como “STOLE YA FLOW” e “STOP SNITCHING” trazem um Rocky ácido. A primeira é uma diss track maliciosa para Drake, onde ele ironiza os supostos procedimentos estéticos do rival (“N**s gettin’ BBLs”) e reafirma a maior conquista de sua vida (“trófeu”): sua família com Rihanna. Em “STOP SNITCHING” – faixa esta que tem duas versões disponibilizadas ao público – , temos ainda mais agressividade, onde Rocky se junta com o excêntrico Sauce Walka, trazendo a mesma explosão de energia que ScHoolboy Q adicionou aos trabalhos anteriores de Rocky.
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O disco brilha em sua estranheza. “ROBBERY”, com Doechii, é um exercício de jazz psicodélico que lembra os diálogos tensos de Kendrick Lamar. Já “AIR FORCE (BLACK DEMARCO)” é uma montanha-russa: começa com um trap que remete aos trabalhos de Playboi Carti, e deságua em um indie psicodélico que homenageia Mac DeMarco.
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A$AP Rocly: nova Definição de “Player”
O amadurecimento de Rocky é o fio condutor das letras. Se antes ele rimava sobre o hedonismo puro, agora ele redefine o que é ser um homem de sucesso. Em “PLAYA”, ele rima que ser um “jogador” de verdade em 2026 é ser fiel, cuidar dos filhos e fugir de dramas – vemos o Rakim, pai de três crianças, mas que ainda sabe usar uma jaqueta de couro e entregar autenticidade como ninguém.
As colaborações são um capítulo à parte, funcionando como um laboratório de curadoria fina, mas que podem dividir opiniões.
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Fomos feitos de “idiotas”, ou valeu a pena esperar?
Don’t Be Dumb não é um álbum perfeito – ele tem seus momentos de excesso e versos que beiram a preguiça. No entanto, é um disco que transborda identidade. Em uma era de algoritmos que pedem faixas de 2 minutos, A$AP Rocky entrega uma hora de experimentação, jazz, punk e rap de alto nível em um momento onde o cenário internacional carece de nomes no mainstream fazendo trabalhos que despertam interesse.
Ele não voltou para “salvar o rap”, mas para mostrar que, mesmo após quase uma década longe dos microfones, seu senso de estilo e curadoria ainda dita as regras do jogo. É um álbum de assimilação lenta, para ser ouvido com calma – talvez enquanto você admira a capa de Tim Burton e percebe que, no fundo, Rocky nunca esteve fora do jogo: ele só estava esperando o momento certo para dar o xeque-mate.
★★★½
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