BK
Foto: Divulgação

Veja o resumo da notícia!

  • O álbum 'Castelos & Ruínas' do BK' completa dez anos, mantendo sua relevância ao longo do tempo e impactando gerações.
  • O disco surge em um momento de expansão do rap nacional, buscando profundidade em vez de apenas performar o sucesso.
  • A obra explora a dicotomia entre sucesso e fracasso, evitando idealizações e buscando equilíbrio na dualidade.
  • A sonoridade do álbum, com produção de El Lif Beatz e JXNVS, apresenta um ambiente urbano exaustivo e reflexivo.
  • O legado do disco reside na sua coerência e influência, estabelecendo um novo patamar para o rap nacional.

Tem disco que envelhece como fotografia. Você olha e reconhece a estética, a época, o registro bonito, mas percebe que está preso ao instante em que foi tirado. E tem disco que envelhece como uma rua: muda o entorno, mudam as placas, mas a esquina continua te chamando pelo nome. E Castelos & Ruínas, do BK’, é rua. Em março, quando o álbum completar dez anos (lançado em 21 de março de 2016), ele vai estar fazendo o que sempre fez: atravessando a gente.

Eu volto pra esse trabalho como quem volta pra um bairro antigo e percebe que a memória não mora só no que aconteceu, mas no jeito que a gente aprendeu a sentir. Porque a grande façanha de BK’ aqui não é “ter escrito bem”, é ter construído um mundo. Um disco que não se contenta em ser sequência de faixas: ele exige ser lido como narrativa, como atmosfera, como uma mitologia própria. E, nessa mitologia, a vitória nunca é um lugar. É um deslocamento.

Quando a década de 2010 engatava sua segunda marcha, o rap brasileiro vivia um paradoxo que hoje parece óbvio: ao mesmo tempo em que ganhava audiência e escala, corria o risco de perder densidade. Havia uma cena inteira se expandindo, muito influenciada por moldes de fora, e a pergunta rondando as conversas era simples e incômoda: o que fica do rap quando ele só quer performar sucesso?

É nesse ponto que Castelos & Ruínas aparece como um gesto de afirmação, não no sentido de “purismo”, mas no sentido de ambição artística: um disco que quer ser grande por dentro.

Entre ruínas e castelos

O título já entrega a chave: o álbum nasce do choque entre extremos: os castelos e ruínas, o brilho e a queda, o sonho e o preço. Só que a inteligência está no que BK’ faz com essa dicotomia: ele não romantiza nenhum dos lados, não escolhe o “bem” como vitrine moral, nem transforma o “mal” em pose. O que ele procura é mais raro (e mais difícil): equilíbrio. A teimosia quase espiritual de encontrar um “caminho do meio” enquanto tudo em volta empurra para a pressa, para o excesso, para a performance.

E aí vem o que eu considero o legado mais atual do disco: a ressignificação da sombra. O BK’ desse álbum não foge do escuro, ele conversa com ele, se aproxima. Encara como ferramenta, como conhecimento, como parte do mapa.

A sonoridade faz o resto do trabalho psicológico. Não é um disco “bonito” no sentido solar. Ele é acinzentado, contido, seco, como se a cidade estivesse sempre um pouco úmida — e não por romantização da melancolia, mas porque a vida urbana tem esse ruído permanente de exaustão. A produção (muito centrada em El Lif Beatz e JXNVS) cria uma base soturna que segura as letras com gravidade: nada aqui parece inflado, nada soa como adereço.

E tem um detalhe que eu acho subestimado quando se fala de Castelos & Ruínas: o disco confia no ouvinte. Ele não entrega tudo mastigado. Ele espalha pistas, fragmentos, imagens — uma lógica que existe, mas não é óbvia. Você não “consome” esse álbum de primeira, mas vai desvendando, como quem lê uma carta que também é espelho.

O legado de BK’

Dez anos depois, o disco bate diferente porque o mundo ficou ainda mais obcecado por resultados. A cultura — e o rap dentro dela — virou uma máquina de acelerar ciclos: hit, hype, estética, algoritmo, repetição. Nesse contexto, Castelos & Ruínas permanece como uma obra que lembra, com elegância brutal, que coerência é uma forma de poder. A coesão do disco (sonora, narrativa, imagética) não é vaidade de artista, é o modo como ele organiza o caos e devolve sentido.

E se lá em 2016 ele já parecia grande, hoje ele parece também fundador. Há uma geração inteira que aprendeu, mesmo sem perceber, a mirar mais alto em composição e estrutura depois desse álbum. Não porque todo mundo “copiou” o BK’, mas porque o disco estabeleceu um patamar e mostrou dá pra ser popular sem ser raso, que é possível ser técnico e ser íntimo ao mesmo tempo.

O legado, então, não é só estético. É existencial. Castelos & Ruínas segue atual porque ele descreve uma contradição que não passou: a de querer vencer sem se perder. A de construir algo sabendo que o mesmo chão que te empurra também pode te engolir. E, no fim, o que BK’ deixa é uma espécie de pedagogia profana: longe de plantar a esperança ingênua de que “vai dar tudo certo”, mas a certeza madura de que o próximo nascer do sol não é um prêmio, e sim como insistência da vida.

Uma década depois e ainda tem coisa nesse álbum que eu descubro como se fosse novidade. Talvez porque a gente vai mudando e amadurecendo, e o disco continue sendo o impactando como se fosse um novo lançamento. E isso é uma qualidade enorme, porque Castelos & Ruínas não foi feito pra caber numa temporada. Foi feito pra acompanhar a gente na travessia da vida.

Felipe Mascari
Rap em Pauta com Felipe Mascari

A coluna que mergulha nas histórias, letras e batidas que estão redefinindo o cenário musical do Rap. Acompanhe de perto os lançamentos e a força das rimas que ecoam pelas ruas.

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