
Veja o resumo da notícia!
- Análise do filme 'Marty Supreme', destacando a direção de Josh Safdie e a atuação de Timothée Chalamet como um 'artista da lábia' na Nova York de 1952.
- O filme foge de clichês biográficos, mergulhando no caos e na busca obsessiva por reconhecimento, impulsionada por uma trilha sonora marcante.
- Relações de Marty com Kay e Rachel revelam jogos de poder, enquanto o filme expõe a ambição como armadilha e o sonho americano de forma crua.
Em um cenário cinematográfico frequentemente engessado por cinebiografias que polemizam e domesticam seus retratados, Marty Supreme irrompe como uma descarga elétrica de 110 volts.
Sob o comando de Josh Safdie, o filme mimetiza o ritmo de uma partida de pingue-pongue profissional, se mostrando veloz, obsessivo, ruidoso e tecnicamente impecável, indo além de uma simples narração da trajetória de Marty Mauser (vago alter ego do lendário Marty Reisman).
Ao contrário de biopics convencionais que buscam a redenção ou a santificação do herói – como o morno Um Completo Desconhecido, protagonizado pelo próprio Timothée Chalamet em 2024 – Marty Supreme abraça o caos.
Safdie não quer que você apenas entenda Marty; ele quer que você sinta a ansiedade, o suor e o delírio de um homem que transformou um retângulo de madeira em seu campo de batalha existencial. É um filme que, em vez de pausas para fôlego, entrega detonações de má conduta, humor ácido e uma busca febril por reconhecimento.
Com sessões antecipadas pelo país a partir dessa quinta-feira (08), o TMDQA! te conta o que achou do longa a seguir. Vamos lá?
Continua após o vídeo
O Furacão e a Vulnerabilidade
A narrativa nos transporta para a Nova York de 1952, onde nos deparamos com um jovem judeu que se recusa a ser apenas um vendedor de sapatos. Com o rosto marcado por cicatrizes de acne e um bigode de rato, ele se despe de qualquer vaidade para encarnar um “artista da lábia”.
Timothée entrega a performance definitiva de sua maturidade artística, sendo um motor perpétuo em cena. Falando ininterruptamente por duas horas e meia, equilibrando a arrogância de quem se autodenomina “o maior do mundo” com a fragilidade de um pária que busca, no fundo, escapar da própria invisibilidade.
Josh Safdie, mestre do cinema de urgência, encontra em Marty o veículo perfeito para seu estilo “nervoso”. Com a colaboração do diretor de fotografia Darius Khondji e do mestre em design de produção Jack Fisk, o filme reconstrói uma Nova York de porões enfumaçados e hotéis decadentes que pulsa com perigo e melancolia.
A trilha sonora de Daniel Lopatin (Oneohtrix Point Never) é um capítulo à parte: ao fundir sintetizadores anacrônicos dos anos 80 com a atmosfera dos anos 50, ele cria um estranhamento sensorial que acentua o isolamento psicológico do protagonista.
As relações de Marty – seja com a sofisticada Kay Stone (Gwyneth Paltrow, em um retorno triunfal e contido) ou com a vulcânica Rachel (Odessa A’zion) – não são meros adornos românticos; são jogos de poder e validação. Paltrow, em especial, funciona como o contraponto perfeito ao frenesi de Chalamet – ela é a estaticidade elegante que entende o custo da ambição muito antes de Marty sequer cogitar que o sucesso tem um preço.
Continua após o post
O Retrato do “Artista da Trapaça”
Sim, Marty Supreme tem seus excessos. Com 2h29 de duração, o filme pode soar indulgente e exaustivo em seu terço final, quando a espiral de desastres e esquemas de Marty parece não ter fim.
O roteiro de Safdie e Ronald Bronstein às vezes prefere o movimento ao significado, deixando algumas questões sobre a identidade judaica e o contexto de pós-guerra como texturas de fundo ao invés de temas plenamente explorados – no entanto, essa parece ser uma escolha deliberada: para Marty, nada importa além do próximo saque.
Mais do que um filme sobre pingue-pongue, Marty Supreme é uma autópsia do sonho americano em sua forma mais crua e patológica. É uma obra que entende que a ambição não é apenas combustível, mas também uma armadilha. Safdie nos mostra que Marty não mente para ganhar; ele mente para existir. Ele é o pesadelo de Hitler e a personificação do “moxie” nova-iorquino – um homem que prefere a combustão interna ao anonimato.
Com uma direção que persegue seus personagens como se estivesse em uma caçada e um elenco de apoio fascinante (que inclui de Tyler, the Creator a Kevin O’Leary), o longa é um triunfo do cinema autoral. Marty Mauser pode não ser o herói que queríamos, mas é o exato tipo de “furacão” de que o cinema precisava.
Ele prova que, às vezes, a grandeza não está no destino final – e sim na insistência de continuar jogando a bolinha de um lado para o outro, mesmo quando o mundo inteiro pede para você parar.
★★★★½ (4.5/5)
OUÇA AGORA MESMO A PLAYLIST TMDQA! RADAR
Quer ouvir artistas e bandas que estão começando a despontar com trabalhos ótimos mas ainda têm pouca visibilidade? Siga a Playlist TMDQA! Radar para conhecer seus novos músicos favoritos em um só lugar e aproveite para seguir o TMDQA! no Spotify!