
Se você cresceu assistindo à MTV e hoje sente que parte da sua juventude desapareceu, essa sensação não é apenas nostalgia.
Mais de quatro décadas após seu surgimento, a emissora musical, ao menos como símbolo central da música jovem, chegou oficialmente ao seu fim.
Até o encerramento deste ciclo global, os últimos canais dedicados exclusivamente à exibição contínua de clipes serão desativados, colocando um ponto final em um dos capítulos mais influentes da história da cultura pop audiovisual.
Embora a marca MTV continue existindo, sua essência original, aquela que colocava a música no centro da programação, 24 horas por dia, já não faz parte do presente.
O que permanece, por outro lado, são canais voltados a realities, entretenimento leve e produtos derivados do universo pop, distantes do papel formador que a emissora exerceu durante décadas.
Em mercados como Estados Unidos, Reino Unido e Europa, os canais musicais da MTV vêm sendo retirados do ar à medida que contratos de distribuição expiram, consolidando um processo de encerramento que já vinha se desenhando há anos.
No Brasil, esse desfecho não é novidade. Inaugurada por aqui em 1990 e administrada inicialmente pelo Grupo Abril, a MTV foi um fenômeno cultural sem precedentes.
Mais do que uma emissora, ela funcionava como espaço de descoberta musical, formação de identidade jovem e experimentação estética a partir também de entrevistas, programas ao vivo e linguagem irreverente que fizeram da MTV um ponto de encontro simbólico para gerações inteiras.
No entanto, a emissora brasileira também viveu um longo processo de descontinuidade. Em 2013, a MTV Brasil original encerrou suas atividades, resultado de dificuldades financeiras, mudanças no consumo de mídia e da migração do público jovem para a internet.
No ano seguinte, a marca retornou ao país sob o controle da Viacom (atual Paramount), mas já profundamente transformada, com menos música, mais realities e uma programação alinhada ao modelo internacional da rede. O retorno nunca recuperou o impacto cultural da fase original, se tornando, na prática, outro canal com o mesmo nome.
MTV encerra suas atividades no Brasil de vez
Durante seu auge, tanto no Brasil quanto no exterior, a MTV era o equivalente a uma sala de estar global compartilhada. Não se tratava apenas de assistir aos clipes, mas de esperar por eles. A estreia de um vídeo podia se transformar em evento, e a simples presença de um artista na programação tinha o poder de impulsionar ou destruir carreiras.
Para muitos músicos brasileiros, aparecer na MTV significava atravessar a fronteira entre o underground e o mainstream. Os VJs também tiveram papel fundamental no processo. Nomes como Astrid Fontenelle, Cazé Peçanha, Thunderbird, Marina Person e Didi Wagner viraram referências geracionais, criando uma relação direta e afetiva com o público.
Naquela época, eles não apenas apresentavam clipes, mas mediavam tendências, comportamentos e debates culturais. Assim como seus equivalentes internacionais, eram rostos humanos em um meio que parecia conversar diretamente com quem assistia.
A emissora, além disso, marcou seu tempo com programas que extrapolavam a música. Produções como Beavis and Butt-Head, Jackass e The Osbournes redefiniram o conceito de entretenimento jovem e ajudaram a consolidar o reality show como formato dominante da televisão contemporânea.
No Brasil, adaptações e criações locais seguiram a lógicamisturando humor, música e crítica cultural de maneira inédita. O que se perde com o fim definitivo da MTV musical é mais que um canal de televisão, mas um modelo de curadoria cultural.
Em um cenário atual dominado por algoritmos, playlists personalizadas e consumo fragmentado, o canal representava um período em que a descoberta musical era coletiva, imprevisível e, justamente por isso, memorável.
O encerramento das operações da MTV, tanto no Brasil quanto no resto do mundo, marca ainda o fechamento de um ciclo histórico da cultura jovem que ajudou a formar gostos, atitudes e identidades, e cuja ausência ecoa para quem viveu aquela era.
A gente já sentia a falta, né?